Um dia como outro qualquer

Ouvi de uma que soube de outra que por sua vez estava lá. De segunda mão, pois.

O dia eu não sei, mas deve ter acontecido este mês. Foi na praça General Osório, em Ipanema, num cartório bem em frente à entrada do metrô. A senhora que disse à moça que me repassou a história ali chegara em busca de algo que desconheço e nem deve vir ao caso, sentando-se ao lado de um sujeito que achou magrinho, mas que só viu de relance por ser uma senhora distinta e não ficar bem sair olhando para qualquer um, ora, e lá ficou esperando a vez de ser atendida. Nem cinco minutos de sossego ou quem sabe tédio e, do nada, surgiu uma confusão na rua, visível aos de dentro por conta da enorme área envidraçada, um furdunço entre um taxi e um carro de passeio. Olhos de todo lado voltaram-se sobre os dois motoristas, até que alguém reparou na mão do sujeito do carro de passeio e gritou olha a arma! e pernas pra que te quero, os de fora sabe-se lá para onde e os de dentro se atropelando na direção dos fundos do cartório até verem que o da arma só fazia apontar para cima e dizer eu sou poliça, então se tranquilizam um pouco, os de dentro saíram do fundo do cartório e começaram a zum-zunzar, o zum-zunzum a virar resmungo e seguir dali para o emputecimento de todos com o poliça, que era o errado da história e mais ainda por querer ganhar na base do olha que eu sou ô-tô-ri-dáa-de, só que ninguém ficou do lado dele porque àquela altura ele estaria errado mesmo se não estivesse errado, e baixe a bola e nem vem com essa de mostrar arma que isso é coisa de quem tem pau pequeno e precisa compensar e porque logo chegaram uns guardas e uns policiais e a turma de dentro que agora estava do lado de fora dizia que quem tinha razão era o taxista e não o poliça e no meio da turma o magrinho do início da história começou a falar mais alto e a dizer tá errado sim! tá errado sim! e a senhora finalmente olhou para ele sem ser de relance porque agora não só podia como seguiria senhora distinta e viu que era uma cara conhecida que todo mundo já tinha visto que era o cara que faz o Agostinho mesmo sem estar vestido de Agostinho e ele dizendo que ia ser testemunha do motorista de taxi e ia na delegacia e tudo e a turma gritando é issaí, Agostinho, defende a cláasse! e o Agostinho se empolgava e dizia de novo tá errado sim! reforçado por que eu vi tudo! e todo mundo é issaí, o Agostinho tá certo! e parece que ele foi mesmo na delegacia e tudo de um jeito que acho que o Agostinho da tevê não iria de jeito nenhum porque a senhora distinta que àquela altura já aplaudia o Agostinho e sabia que na tevê ele era tão malandro e escorregadio e tirador de vantagem e da turma do não tenho nada a ver com isso contou para a moça que não costuma ver o programa dele e que depois me explicou porque eu também não costumo que o Agostinho da tevê nunca bancaria de defender a classe que nem o cara que não estava vestido de Agostinho enquanto a turma ao redor aplaudia o Agostinho e vaiava o poliça e assim que o poliça e o motorista de taxi e o cara que faz o Agostinho e uns guardas e uns policiais foram para a delegacia a turma foi sossegando e os de fora do cartório e os de dentro que estavam fora indo cada um para o seu lado só que meio devagar acredito que por conta da dor de barriga de tanto rir de mais um dia como outro qualquer neste Ri-o de Ja-nei-ro, gos-to de vo-cê, mas gosto muito mesmo, é sério.

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12 respostas para Um dia como outro qualquer

  1. Bom demais, Ricardo. hehe

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  2. Ramon Mestri disse:

    Muito bom, mesmo! Pô, mas o tal do Agostinho está entre nós e vivendo a ficção de si mesmo.

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  6. El Torero disse:

    Buenas!
    Texto sem vírgula parece manezinho falando.

    Haja ‘fôrgo’. Inté dei uma gaitada!

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  7. Ramon Mestri disse:

    Hehe, fui longe mesmo. Achei interessante a coincidência entre um “Agostinho” que é correto na vida real, em contraste com o da ficção, como se fosse a ficção da ficção.

    Um abraço

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