De mais um quê que me escapa (e acredito que a você também)

[Dando um tempinho no tema das eleições presidenciais]

httpv://www.youtube.com/watch?v=6uaUQfFeIYg

– Capitão. Arroz, sal, fósforos, me dê alguns.

– Para que precisa disto?

– Sal, arroz, fósforos. Para embrulhar na casca de árvore e pôr na cabana.

Você planeja voltar?

– Por que voltar?
Outras pessoas vêm aqui. Acham madeira seca. Acham comida. Não morrem.

– Olentiev! Traga fósforos, arroz e sal.

– Sim, senhor.


– Esse Goldi me encheu de admiração. Ele tinha uma perspicácia surpreendente, conseguindo viver toda a sua longa vida na floresta. Apesar de tudo, ele tinha uma alma bonita. Ele proveu as necessidades de uma pessoa que não conhecia e provavelmente jamais a veria.

O miolo dessa cena, com o diálogo entre o caçador Dersu Uzala e o tenente Vladímir Arséniev, nunca mais saiu da minha cabeça…

Não, deixe eu ser mais preciso. Não se trata das frases de cada um, ipsis litteris, mas de um sentido dessa conversa que guardo há tempos, desde a primeira vez que vi o filme. Não poderia mesmo afirmar que gravara o diálogo, porque se algo posso dizer sobre a minha memória é que ela é tudo, menos fotográfica… Não (outra vez). Mais do que impreciso, estou é sendo injusto com ela. Ela sou eu e, ao mesmo tempo, outro. Porque tem vontades, a danada. Tem horas que ela me oferece dados que não têm bem a minha cara, seja pela desimportância, seja por reconhecer-me como muito ruim no assunto. Para nomes, por exemplo, costumo ser uma negação sem fim. Em compensação, não sei como, volta e meia lembro o nome e o sobrenome de diretores de cinema, roteiristas e de gente do meio. Também acho curioso como a minha memória trás de volta, às vezes no meio de um chope, relatos de pacientes feitos há mais de vinte anos; o enredo de um sonho sem importância que tive aos doze, logo eu que pouco lembro dos meus sonhos; ou o gosto de um beijo, curiosamente metálico como o sabor que tenho na boca neste instante, resultado de uma gastrite que me atazana há meses. Tem humores, vida própria, e quando tento apertá-la sem que ela esteja no clima, fica mais escorregadia do que aquelas bolinhas de mercúrio soltas pelo chão quando o termômetro quebra.

Até rever cenas do filme para escrever isto daqui, a minha memória dizia que Dersu, o capitão e a tropa vinham andando pela floresta com tempo seco. [Confere com o filme.] O caçador, olhando ao redor, dizia que dali a pouco encontrariam uma cabana [idem, pois ele viu árvores meio descascadas, e fala aos soldados que a casca costuma ser usada para o teto de cabanas] e que era melhor todos se apressarem, pois logo começaria a chover.  Os soldados riram, pois para eles não havia nenhum sinal de chuva, quando, do nada, cai o maior temporal, bem na hora em que dão de cara com a tal cabana de que Dersu havia falado antes. [De fato, encontram a cabana, mas não tinha chuva nenhuma na cena. Juntei duas em uma e ainda fiz mais lambança, pois acontece de Dersu… Bom, o trechinho abaixo mostra melhor do que eu escrevo.]

httpv://www.youtube.com/watch?v=ITfQa0YPDq4

– Dersu, vamos esperar até a chuva parar.

– Hora de se preparar.
Escute bem. Os pássaros estão começando a cantar.
A chuva logo vai parar.
O sol está saindo.

– Dersu, você sabe o que é o sol?

– Todo mundo conhece o sol.
Será que você nunca viu o sol?
Olhe, está lá no céu.

Sim, era sobre a chuva parar, não sobre começar a cair, tsc tsc.

Memória, sentido, desconstrução, reconstrução. Que edição eu fiz, não?

[Não estou interessado em academicismos agora, então deixo possíveis conceitos instituídos pela filosofia, psicologia, psicanálise, sociologia e afins sobre os termos acima para que qualquer outro os disseque, pois isso daqui não é sala de aula e no meu blog eu quero razoável distância do lugar de professor.]

Mas não cometi engano tão grave assim, pelo menos não em relação ao tal sentido de que ainda não falei e que me trouxe de volta a essa obra do Kurosawa. O que gravei para sempre foi o gesto de Dersu, um de tantos que aparecem no filme e que é reproduzido no primeiro vídeo, quando, em resposta à pergunta “Você planeja devolver voltar?”, Dersu pergunta de volta: “Por que devolver voltar?”. A necessidade individual não é o foco de Dersu. A reciprocidade, o agradecimento, a equiparação, a busca de equidade, todas essas motivações humanas que de certa forma têm um egoísmo bem ou mal disfarçado no centro, tampouco parecem estar no centro de sua atitude. [O trecho do vídeo não deixa claro que quando Dersu pede arroz, sal e fósforos, eles tinham acabado de chegar à cabana, sequer sabiam se de fato precisariam fazer uso dela.]

Convenhamos, mesmo naqueles gestos cheios de altruísmo, bondade, entrega, quase sempre se quer algo em troca, seja no plano concreto ou no simbólico, até mesmo num querer às avessas do senso comum (como no masoquismo, por exemplo). Nem sempre esse algo é pedido diretamente àquele a quem se está ajudando — embora a falta de pelo menos um “muito obrigado” costume deixar os benevolentes bastante incomodados —, já que, em algumas ocasiões, o que se deseja é aliviar o peso de uma “dívida” anterior com alguém que o ajudou, ou então para dar conta do que os pais, o Estado ou uma outra instância qualquer lhe deu. Ainda assim, algo se espera; se não sempre, quase.

A maioria de nós é o capitão que pergunta “Você planeja devolver voltar?”, subentendendo que há sempre alguma razão pessoal implícita nas motivações humanas, e, ao deparar-nos com um gesto como o de Dersu, avaliando-o como o epítome da nobreza humana, dos seus valores mais caros, da sabedoria e da bondade em seu mais alto grau. Mas será que esse é Dersu? Ou o que supomos não passa de uma idealização que encarnamos nele, em parte traduzidas na fala do capitão? Qualquer um de nós é capaz de enxergar o que o capitão vê: o que seria a “alma bonita” de Dersu, refletida no gesto de prover “…as necessidades de uma pessoa que não conhecia e provavelmente jamais a veria”.

Repito: será que esse é Dersu?

Não estou tão certo assim que suas razões sejam as nossas. Quais seriam?

Com essas perguntas sem resposta em mente, admito que invejo Dersu Uzala. Para mim, as atitudes dele apresentadas neste post sugerem um tipo de saber que não possuo e nem creio estar ao meu alcance. Um saber que me é obviamente estranho, que à primeira vista diria ser irrefletido, do qual só consigo sorver pelas beiradas e de que não sei como falar direito, porque o que disser provavelmente cairá na vala comum das meras projeções. Ah, invejo também o Andréiev. Quem chegou mais perto de entender Dersu foi ele. E mesmo acreditando que ele não tenha chegado tão perto assim, vê-se que ganhou um grande amigo, transformou-se graças a ele e ainda contou tudo para a gente e para o Kurosawa, que por sua vez transformou esse relato em filme, e a quem agradeço imensamente pelo resultado.

Inveja e gratidão. Definitivamente, estou a anos-luz de Dersu.

.

P.S.1. Falando em gratidão, preciso dizer que para resgatar esse filme, fui bater num antigo post do Catatau, e que boa parte dos links deste post eu devo a ele. Por sinal, seu post destaca um aspecto que também me é muito caro: as relações de amizade, de que já tratei em diversas ocasiões neste blog. Então obrigado, meu amigo.

P.S.2. O filme pode ser visto no youtube em 15 partes. Desse jeito acho chato, mas se você não tiver o DVD nem quiser baixa em AVI, veja-o por lá.

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9 respostas para De mais um quê que me escapa (e acredito que a você também)

  1. Pingback: Ricardo C.

  2. Fica uma dica para você, Ricardo, e seus leitores: http://setimoprojetor.blogspot.com/ – não tem, ainda, Kurosawa, mas tem muita coisa boa.

    Sobre Dersu, não sei o que dizer. Mas posso falar por mim. Cada vez que me vejo praticando um ato altruísta, acabo em uma espiral que me pergunta se, na verdade, o que estou praticando não é o ápice do egoísmo travestido de generosidade. Sei que não estou só neste questionamento, mas quando pratico algo de bom pelo outro e tenho a crença de que a bondade que impomos ao mundo de alguma forma retorna a nós mesmos, será que não estamos praticando puro egoísmo?

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    • Ricardo C. disse:

      RR, editei o segundo P.S. e coloquei o link para uma versão AVI. E te agradeço o link do Sétimo Projetor, eu mesmo já conhecia e volta e meia passo por lá.

      Quanto ao “egoísmo no altruísmo” (hehehe!), creio que é difícil chegar a uma resposta razoável. Não é ruim acreditar que é é a busca do bem comum que pauta os nossos gestos, só é bom revisar de vez em quando essas razões, porque volta e meia elas são a versão oficial impedindo-nos de ver algumas intenções específicas de uma ou outra situação.

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  3. Ramon Mestri disse:

    Belo post! Acho que o bem comum eh sempre coletivo individualizado (desejos familiarmente distantes). Concordo com o exercicio de reflexao, pois nos recoloca nos trilhos da realidade.

    Um abraço

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    • Ricardo C. disse:

      A reflexão é algo necessário, embora nem sempre traga resultados apenas positivos, especialmente quando se trata de hiper-reflexão, que acaba deixando em segundo plano o próprio objeto da reflexão…

      Abraço

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  4. Pingback: O Pensador Selvagem

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  6. Guil Kato disse:

    Esse fim de semana eu descobri o setimo projetor e já baixei dois filmes do Yasujiro Ozu que adoro!
    Quanto ao Dersu, vou fazer só uma correção que muda um pouco o sentido do que você disse mas não completamente.
    Quando eles dizem “return” não é no sentido de devolver, mas no sentido de voltar. Ou seja, ele pergunta ao Dersu se ele tinha intenção de voltar à cabana. Muda um pouco o que você analisou, mas isso não importa.
    Adorei o texto.

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    • Ricardo C. disse:

      Péssimo da minha parte, Guil, confiei inteiramente na legenda que eu tinha em português e nem atentei para isso. Já corrigi, de fato não prejudicou de todo o sentido do que enxerguei em Dersu, mas o verbo devolver tinha mais impacto. Serei mais cuidadoso da próxima vez, que é para não passar vergonha.

      Abração

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