Favor não esquecer do Carlos

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Desconheço se é costume nacional ou internacional, mas, cá no Rio, é hábito “botequinesco” emoldurar matérias de jornal elogiosas ao próprio estabelecimento. Sendo assim, não poderia ser diferente o que se vê nas paredes da Adega Pérola, pé-sujo da melhor qualidade onde volta e meia bebo os meus chopes e traço mexilhões, batata calabresa, sardinhas fritas, ostras frescas, rollmops, bolinho de bacalhau, polvo à vinagrete… e mais não falo, porque ainda não almocei.

Mas enxugando o teclado da saliva escorrida e voltando ao início do parágrafo anterior, a foto lá de cima é um exemplo do que falei. Ela mostra um texto do Mauro Sta. Cecília, publicado em sua coluna no (irreconhecível) Jotabê (e não adianta, num ponho linque dele não. Dá vergonha…). Vale dizer que eu já tinha visto a matéria emoldurada antes, mas só consegui ler quando cheguei no bar às onze da manhã, recém aberto, e a disputada mesa mais próxima da entrada finalmente se encontrava disponível — assim como adequada era a distância para estes olhos presbíopes… Depois de lido o elogioso artigo à casa, pude atestar que o cronista foi muito feliz na realização da tarefa. A começar pelo título, que fala do desempenho do Beto, simpático e eficiente garçom da Adega. No que me diz respeito, cerro filas com o autor, pois o Beto é sujeito bacana, atencioso e nem um pouco “estrela”, comportamento que volta e meia se vê naqueles que, por um motivo ou outro, viraram “personagens ilustres” da cidade.

Não sei dizer se é por vergonha ou por outro traço qualquer que o Beto ainda não virou prima-dona. Fato é que ele continua o mesmo, “jogando pro time” perolado, e fazendo deste escriba um sujeito feliz por constatar-lhe a franqueza sobre qual dos acepipes do dia está melhor, e também qual não ficou lá grandes coisas, pela razão que for. Feliz e pronto para desfiar suas elucubrações, ciente de que é num bar onde elas vicejam melhor. A última delas é um misto de tese e esperança, e a origem se deu na foto abaixo, tirada do mesmo artigo emoldurado.

Sei lá se vocês conseguem ler direito, por isso lhes digo que na parte mais clara, logo abaixo do recorte de jornal, aparece uma observação:

Em relação aos funcionários do balcão, ficou faltando o nome do Carlos, o mais novo da turma.

Foi ler essa frase e sorrir para a minha mulher, que (nem desconfio por que) imediatamente apoiou o queixo numa das mãos, só esperando pelo que eu diria. Tratei de entender o gesto como me convinha: puro amor, compreensão e vivo interesse pelas leituras que costumo fazer a respeito da humanidade. E então saí com mais uma das minhas costumeiras “interpretações de texto”, que, neste caso, começava por não questionar um milímetro sequer do tamanho da modéstia do Beto, e nem o mérito de ser ele a carregá-la. Mas que ao mesmo tempo entendia, naquela frase, haver uma marca, um sinal à vista de todos, algo como “aqui na Adega apostamos na coletividade, e acreditamos no bem comum. Somos meio que uma gestalt, onde o todo é mais do que a simples soma de suas partes, e sem negar as nossas singularidades, é no brilho do nosso grupo que cresce o valor de cada um”

É só desbastarem a pieguice que a tese aparece, junto com os cem gramas de esperança — peso habitual das porções da casa —, muitos chopes e uma cesta de pães para acompanhar. Tudo servido pelo Carlos, agora na turma da manhã, que saiu lá de trás do balcão e passou a atender as mesas, contente que só ele por fazer parte do time, com o nome na moldura e o Beto em quem se espelhar.

[Mais uma republicação. A falta do que dizer segue a mil.]

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24 respostas para Favor não esquecer do Carlos

  1. cfagundes disse:

    Ricardo, muito bom o Pérola. Especial mesmo.
    Quero voltar lá com você pra misturar o bom papo inevitável com um polvo ao vinaigrette e uns chopps gelados.
    Abraço!

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  2. aline disse:

    puxa, eu interpretei do mesmo jeito: e achei de uma simpatia contagiante.

    agora… meu, me dá o endereço desse lugar? abriu meu apetite e eu e pablo queríamos novos lugares favoritos pra comer, beber e bater papo…

    bjos, ricardo

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    • Ricardo C. disse:

      Aline, aponte o mouse para a Adega Pérola do post, abre um mapinha do google com o endereço. Mas escrevo aqui mesmo assim: Rua Siqueira Campos 138, loja A – Copacabana. Como referência: em frente ao shopping dos antiquários. E quando vierem, avisem: vou me encontrar com vcs! (Aliás, daqui a pouco a Camila chega ao Rio, poderia ser uma boa pedida encontrar-nos lá, não? Sò um detalhe: fecha cedo, meia-noite, e nào abre aos domingos…).

      P.S. Tenho fotos de lá, aparecem no post Pré-saudades.

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      • aline disse:

        Por algum motivo que me escapa, eu não consigo ver o conteúdo de todas as janelinhas. :-/

        Mas obrigada, tá anotado. Eu pensei a mesma coisa sobre encontrar a Camila e vc aqui no Rio. Podemos, certamente, marcar alguma coisa. 🙂

        abç.

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      • Ricardo C. disse:

        Aline, talvez não seja um problema teu, já que dos 4 links do texto, só 3 têm a opção de abrir em forma de pop-up. E se o problema for com os que deveriam abrir assim, experimente apontar o mouse para a pequena figura que aparece antes do link. (No caso da Adega Pérola, parece um globo; nos rollmops é uma câmera fotográfica; e na gestalt parece um papel com texto escrito.)

        E da minha parte já está pré-agendado esse encontro da gente com a Camila, viu?

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  3. Darwinista disse:

    Ricardo, aqui em São Paulo os bares (que botequim é coisa de carioca… :-)) e restaurantes também têm o costume de emoldurar as reportagens. Alguns deles têm paredes forradas com as molduras. Mas nem sempre, e aliás eu diria que muitas vezes, o conteúdo da reportagem é excessivamente elogiosa, o que coloca uma pulga atrás da orelha.

    Quanto ao Carlos, interpretei o recado assim como você, e fico imaginando a alegria do rapaz com isso. Mesmo que ele não seja lá muito feliz no emprego, deve ter ficado pelo menos um tantinho mais estimulado. Salve Carlos, vai ser um Beto na vida (ou coisa ainda melhor)!

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    • Ricardo C. disse:

      Pois é, Darw, por mais individualista que seja a toada nos tempos de hoje, é sempre bom ver gente valorizando o conjunto, a coletividade, por sobre as vaidades pessoais. Nada contra uma escovadinha no ego, em doses pequenas faz bem à saúde. O problema é quando nos esquecemos da base de sustentação dessa satisfação pessoal, que é composta por pessoas que são bem mais do que mera plateia, né?

      Abração!

      P.S. Adiantando a resposta ao comentário lá de baixo, tá na hora de parar de bater na trave e vir pagar os chopes pra turma cá no Rio, hein?!

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  4. El Torero disse:

    Belo texto, como sempre.
    Aqui em Floripa também é costume emoldurar notas elogiosas e afixar nas paredes.
    Certa feita saiu uma sobre minha botica. Mas achei um pouco demais uma farmácia entrar no mesmo barco.
    Se bem que certas ocasiões mais parece uma bodega mesmo, tamanha a ‘confiança’ que este povo ‘garrou’ em mim.

    #confiança, para nós catarinas, pode ser interpretada como folga, com ‘sentir-se em casa’.

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    • Ricardo C. disse:

      El Torero, bom ler as tuas palavras. E melhor ainda ter a sua farmácia na lista dos estabelecimentos bacanas! A dúvida é sobre os petiscos que vc serve nela, porque alguns dos xaropes que vende nela talvez dêem conta de substituir as bebidas, hahaha!

      Quanto à outra acepção da palavra “confiança”, já conhecia. Essa riqueza no uso das palavras é ótima!

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  5. cfagundes disse:

    Pois é Ricardo, nunca deixei de sair, mas agora saí foi do armário… Eu assumo: nunca abandonei a esbórnia pelos estudos!
    Darwinista, aqui no Rio também, os artigos são super exagerados… Eu que já sonhei ser jornalista gastronômico confesso que pretendia por isso comer muito bem e de graça…
    Vamos marcar sim, Ric. E quando o Darw vier ao Rio marcamos de novo pra dar mais um léro sobre o “pandorama” da internet brasileira.. Hoje acompanhei a entrevista do P.Doria ao vivo, foi muito interessante.
    Abraços.

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    • Darwinista disse:

      cfagundes (posso chamar de Cristiano nas próximas?), essa minha ida ao Rio já bateu na trave duas vezes. Mas um dia vai ser gol, e aí a primeira rodada de chopp é por minha conta.

      Abraço!

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      • Nat disse:

        Pois Darw, tire folga nos dias 29 e 30 desse mês, pq ocasião melhor não terá. É o lançamento do livro do Sérgio Léo aqui na ABL. O convite eu mando pra vc, só falta vc vir e tomarmos um chope na Adega Pérola com o Cris e o Ricardo e o ACT e quem mais vier…

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      • Ricardo C. disse:

        Da minha parte confirmo agora!

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  6. Nat disse:

    Então tá combinado Ricardo. Dia 29 na ABL ;- ) Quem sabe o Darw não se anima, não é? Depois eu mando os detalhes da hora e tudo mais por e-mail…

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  7. Pingback: Ricardo C.

  8. alex castro disse:

    foi lá q a gente se encontrou?

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    • Ricardo C. disse:

      Foi lá sim, Alex, e ainda dividindo a mesa com aquele casal de… de onde mesmo eles eram? Austríacos? Alemães? Canadenses? Bom, não importa, fica como casal de gringos, por sinal ela muito mais simpática do que ele.

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      • SLeo disse:

        E a tal saída nossa não aconteceu. Será que terei de publicar outro ilivro para isso?

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      • Ricardo C. disse:

        É mais fácil a gente se encontrar aqui no Rio, tão perto da sua querida Niterói, do que aí em Brasília, para onde tão poucas vezes voltei depois de sair daí em 1984. Então mande um sinal de fumaça quando andar de novo por estas bandas que não titubearei (que palavra fui usar!) em encontrá-lo. 🙂

        Aliás, mão está claro nos comentários, mas a sua mais do que conhecida Nat já esteve por lá tomando chopp e comendo as iguarias do lugar. É só perguntar para ela e te dirá a nota que deu ao lugar.

        Abraço, e até a sua próxima vinda!

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  9. Ulisses Adirt disse:

    Ricardo, mesmo sendo uma republicação, foi uma republicação que valeu a pena. Bem divertida.

    Adoro ler esses artigos nas paredes aqui de Sampa.

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    • Ricardo C. disse:

      Valeu, Ulisses, é sempre bom te ver por aqui. Eu gosto não apenas dos artigos em si, mas da forma como eles são reapropriados pelos próprios botequins: o lugar onde eles os colocam, os trechos que destacam, os acréscimos — como no caso do post —, enfim, às vezes você acaba vendo analogias com um velho filme, Os Deuses Devem Estar Loucos, onde um sujeito, voando de monomotor pelos céus da Africa, joga uma garrafa de Coca-Cola vazia e esta é levada por um sujeito a sua tribo e acaba reinterpretando-a… Viagens demais para uma quinta-feira pela manhã, hehehe!
      Abs

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