Inautenticidade e outras palavras tão estranhas quanto

[Apareceu aqui antes, em março de 2008. É das raras coisas publicadas neste blog que fazem referência direta à psicologia existencial. E como gosto do conteúdo, republico.]

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Entrega (amorosa) e (na sua acepção principal, a religiosa), duas palavras sobre as quais quero refletir um pouquinho. E para isso, começo por uma afirmação: como é curiosa a capacidade que temos de “falsear o que é autêntico“.

Explico, e relaciono logo com as duas primeiras palavras que destaquei. Em princípio, a entrega numa relação amorosa costuma ser entendida como um “bem”, “o certo”, o que “deve ocorrer”. E a própria dificuldade de entregar-se numa relação amorosa pareceria confirmar essa suposta relação “direta e positiva” entre capacidade de entrega e profundidade do amor. Por outro lado, os que têm fé costumam entendê-la como algo positivo per se, um bem em si mesmo, e que por isso jamais pode ser posto em dúvida. E para arrematar, de certa maneira, diria-se que “ter fé” implica em “entregar-se”.

E onde estaria a inautenticidade nisso tudo? Adianto que não ponho em dúvida o quanto essas apreciações sobre a fé e a entrega possam ser verdadeiras, autênticas mesmo. Podem sim. A questão é outra, menos óbvia.1 Trata-se de identificar em que circunstâncias essa “entrega amorosa” não passaria, por exemplo, de um modo neurótico de lidar com a solidão existencial, modo esse expresso na tentativa de fusão com o outro, só para pensar numa de suas formas.

Mas antes de prosseguir, é preciso uma explicação que até agora não dei: o que seria esse raio de “solidão existencial”? Respondo dizendo que é o abismo intransponível entre os seres, aquele com o qual nos deparamos em algumas ocasiões, e que relacionamento algum — seja com alguém, seja consigo mesmo — é capaz de eliminar. Diferencia-se do isolamento intrapessoal — que é a dissociação ou separação da pessoa em relação a partes de si mesma, e onde uma de suas formas mais “concretas” seria a somatização, a separação quase total entre o indivíduo e seu organismo — e do interpessoal — experimentado como solidão, por fatores que podem ser desde geográficos, até de personalidade. E para “piorar”, além de ser inerente à condição humana, esse tal isolamento existencial gera uma angústia danada!

Posso vivenciar o isolamento existencial através do conhecimento de minha finitude, no sentido de que ninguém morrerá comigo e nem no meu lugar. Ainda que alguns acreditem nesta última possibilidade — “fulano é capaz de morrer por mim!” —, isso não quer dizer que a morte do outro salve-os de sua própria morte. Não há escapatória: a travessia final — ou se preferirem, O final — é um empreendimento absolutamente solitário. Por outro lado, tenho consciência do meu isolamento, na medida em que cresço e me percebo responsável por minhas escolhas — portanto, por minha vida —, o que significa perceber-me verdadeiramente órfão, e assim condenado a assumir minha própria paternidade. Como disse antes, trata-se de algo é inerente à existência — que em sua etimologia aponta para o diferenciar-se, o destacar-se, o tornar-se um ser separado. Desta forma, o isolamento existencial vem a ser o preço pago pelo próprio desenvolvimento.

Claro que o isolamento interpessoal e o existencial estão intrincadamente relacionados. São os impedimentos interpessoais que nos fazem ver essa nossa existência isolada, separada da dos demais. E é nessas horas que com frequência buscamos acabar com o isolamento através das relações – ainda que, como disse antes, nenhuma delas consiga eliminá-lo. Em psicoterapia existencial isso se vê no chamado “dilema de união-separação”. Se por um lado precisamos aprender a relacionar-nos com o outro sem fazer dele um objeto ou uma parte de nós a serviço de nossas defesas, por outro, é quase impossível não ceder ao desejo de escapar do isolamento, tornando-nos uma parte da outra pessoa. [Aliás, fazer do outro um objeto seria o que Martin Buber denominou uma relação Eu-Isso, quando o ideal é a possibilidade de vivenciar uma relação Eu-Tu.]2

A fusão com os demais acarreta a perda da consciência de si mesmo, mas tem a “vantagem” de fazer sumir o medo da solidão (ou pelo menos guardá-lo um pouco no armário). Só que o “canto da sereia” de alguns movimentos de massa, dos mais inocentes — como a estética uniforme da moda adolescente — aos mais trágicos — vistos nos suicídios coletivos — apontam para a tendência à conformidade, falam do refúgio sedutor prometido pelos grupos, que apenas exigem que se seja “mais um”. E aqui encontramos um conflito: dá-se entre a consciência do isolamento existencial e a tentativa de eliminá-lo através do relacionamento com o outro ou com algo. Difícil, não é?

E no tema da fé, como veríamos essa tal inautenticidade? Bom, ela pode se dar tanto como uma expressão enganosa ligada à tentativa de eliminar o isolamento existencial — e relacionar-nos com uma “causa” religiosa poderia ser um exemplo —, quanto pela tentativa de dar sentido às nossas vidas, combatendo assim o vazio existencial. Aliás, ao falarmos sobre a questão do sentido da vida, duas indagações vêm à baila: em primeiro lugar, a pergunta sobre “qual o significado da vida”, isto é, se ela possui algum significado cósmico, entendido como a referência a (ou a crença em) um padrão global, uma ordem prévia que rege a vida em geral, ou ao menos a vida humana. Nele, a vida individual seria ordenada pela divindade, algo inerente à tradição judaico-cristã preponderante no mundo ocidental. A segunda indagação é sobre “qual o significado da minha vida”, o que implica na busca — ou na “criação” (no sentido de “invenção”) — de um significado pessoal não religioso, especialmente à falta de um significado cósmico.

Se falei dessas duas indagações e das suas respectivas implicações, devo fazer certas considerações a respeito de ambas. Comentei acima sobre a busca de um significado cósmico ser inerente à cultura ocidental. Entretanto, com o advento do desenvolvimento do espírito científico e tecnológico, o homem passou a “desnaturalizar-se” 3 de maneira mais acentuada, não só relativizando os ideais religiosos a respeito do mundo e de si próprio, como também angustiando-se pelo vazio que sobrou dessa relativização. Se o homem não é mais um ser “natural”, se a natureza deve estar a seus pés, isso o torna completamente responsável por seus atos, ideias, princípios e escolhas. Se o universo carece de um desenho predeterminado — e ainda que exista tal predeterminação, não se tendo acesso à mesma —, ao necessitar o homem de um “para que” viver e dar-se conta de que o mundo já não lhe oferece diretrizes para isso, depara-se então com um insuportável vazio existencial, tão característico do século XXI. À respeito disso, o psiquiatra Viktor E. Frankl afirmou que nos dias de hoje o homem careceria

…de um instinto que diga a ele o que há de fazer, não tem mais a tradição que diga a ele o que deve fazer; às vezes não sabe sequer o que gostaria de fazer. Ao invés disso, deseja fazer o que as pessoas fazem (conformismo) ou faz o que outras pessoas querem que faça (totalitarismo) 4

Esse vazio proveniente da falta de sentido, manifesta-se das mais variadas maneiras, mas sobretudo em um estado de tédio, apatia e inutilidade, não sendo incomum que se revele em forma de compensação (e compulsão) sexual.

E para fazer frente à carência de sentido da vida, um dos “modos neuróticos de existir” que quero comentar é o espírito de aventura, justamente porque nele “encaixa-se” o que haveria de inautêntico em muitos que afirmam ter fé. Esse espírito de aventura caracteriza-se pela compulsiva necessidade de dedicar-se a qualquer causa, sendo não mais que uma reação à profunda sensação de falta de sentido. Mas não pense que qualquer pessoa que abrace alguma causa o faz por motivos defensivos. O que quero assinalar e que convém perceber é em que medida a necessidade passa a ser a de dedicar-se a qualquer causa, independente de seu conteúdo. Uma vez alcançados os objetivos, é preciso saltar para outra causa, pois o que centralmente os move é a angústia da falta de sentido, e não propriamente a causa a que se entregam. Mas aviso aos meus amigos ateus: não precisam sorrir satisfeitos com essa notícia. Há um modo defensivo que volta e meia se encaixa em seu perfil: trata-se do niilismo, especialmente como tendência ativa e profunda de desacreditar das atividades desempenhadas pelos outros, sobretudo pelo fato destes últimos encontrarem nelas um significado. O curioso no caso do niilismo é que apesar deste manifestar-se muitas vezes em forma de tédio, vale dizer que é justamente do desespero que brota o comportamento do niilista…

Bom, paro por aqui. Ainda faltaria dizer algo sobre autenticidade e inautenticidade, mas fica para outra ocasião. Eu sei que isto tudo já foi longo, longo demais para um post. Mas não dava para simplesmente dizer que a entrega e a fé volta e meia se mostram inautênticas e deixar essa frase no ar, não?

________________

1 Boa parte do que argumentarei a seguir encontra-se bem mais detalhado e desenvolvido no livro de Irvin. D. Yalom intitulado Existential Psychotherapy (Basic Books, 1980).

2 BUBER, Martin (1993). Eu e Tu. São Paulo: Cortez & Moraes.

3 É evidente que advogo pela noção de “condição” humana, ao invés de “natureza” humana. O uso do termo “desnaturalização” pretende tão somente ressaltar a ideia do poder do homem sobre a natureza, seu afastamento da mesma, e sua crença de que ela deve ser dominada, subjugada por ele.

4 FRANKL, V. E. (1984). El Hombre en Busca de Sentido. Barcelona: Herder, p. 105.

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10 respostas para Inautenticidade e outras palavras tão estranhas quanto

  1. Nat disse:

    A Fanny Ardant não teria feito você escrever essas coisas…

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  2. Ricardo C. disse:

    Boa tergiversação a sua, Nat, hehehe!

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  3. Nat disse:

    Nossa, precisei de dicionário…

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  4. Ricardo C. disse:

    Pra combinar com o post, né? 🙂

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  5. Nat disse:

    Hahahahaha figura tu!!! Te mandei um mail Mr. Genérico sem diminutivo e sem aumentativo.Bjs

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  6. confettia disse:

    tirou a fotinha comum? alguma razao precisa ?

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  7. Ricardo C. disse:

    Confetti, a razão não é lá muito especial. Foi só para chamar um pouco menos a atenção para mim e voltá-la para o que escrevo, é isso.

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  8. Pingback: Ricardo C.

  9. Olhar Saturno disse:

    Ricardo, você re-postou esse texto e veio em MUITO boa hora!!!
    Embora que, olha, deixa pouquíssimas opções para o indivíduo que quer botar a cabeça prá fora d’água e enxergar alguma coisa com clareza algum dia desses, heim!!
    Dureeeeeeza!
    Gostando muito dos teus textos,
    Olhar Saturno

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    • Ricardo C. disse:

      Olhar Saturno, é um apanhado de considerações sobre o nosso agir, mas passa longe de pretender esgotar as nossas possibilidades.
      E fique à vontade para malhar também!

      Abs

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