Parâmetros

É o seguinte: eu me lembro da época em que não havia torcida organizada porque não havia jogo. A ditadura determinava. Eu perdi gente amada na ditadura. Então, hoje em dia, quando as pessoas reclamam da barulhada, das “torcidas organizadas”, da confusão da internet, coisa e tal, eu realmente não consigo sentir empatia. Eu tenho idade suficiente para me lembrar da época em que não havia barulho nenhum, porque o silêncio estava atravessado pelo medo. E as pessoas perdem a dimensão disso. Caramba, é só escolher! Eu, particularmente, gosto de tudo. Gosto da confusão, gosto dos trolls, gosto do xingatório, gosto dos erros de ortografia, gosto do miguxês, acho tudo lindo. Sou bem Gilberto Gil nisso. Amemos essa cacofonia caótica. Há uma beleza nela. (Idelber Avelar, comentário feito no Google Reader ontem, 30 de agosto)

Gostei tanto desse comentário, mas tanto, que em vez de colocá-lo perto do penúltimo parágrafo, que é onde me posiciono em relação a ele, preferi que viesse primeiro. Fazer o que, sou mais um dos que admiram muito esse sujeito e não têm o menor pudor em dizê-lo.

Rasgação de seda feita, começo por reconhecer que ultimamente venho me repetindo mais do que de costume, se é que isso é possível. Parece que a maior parte das minhas reflexões giram em torno de um único tema: o quanto você e eu conseguimos nos descolar (1) do nosso gosto particular e/ou das nossas preferências estéticas; e (2) das questões que nos afligem/absorvem hoje, na hora em que tratamos de analisar posicionamentos, crenças, valores e atitudes dos demais, especialmente quando se trata daqueles de quem costumamos discordar. Imagine então se essas questões que te afligem forem realmente intensas, que na tua escala particular de sofrimento (e de falta de perspectiva de livrar-se dele) estivessem acima de oito (de zero a dez). Você se vê dando conta de deixar de lado isso tudo, nem que seja por um momento, e tecer considerações sobre o outro, ou melhor, sobre os outros,1 levando em conta que eles têm os mesmos direitos que você, são regidos pela mesma Constituição?

Porque, convenhamos, se o mundo fosse composto de pessoas que agissem como ajo, pensassem de maneira muito parecida com a minha e gostassem sobretudo das coisas que eu gosto, seria o planeta mais insuportável de se viver, imaginando que houvesse outro habitável e dando sopa por aí. E generalizando sem dó e nem piedade, se trocarmos de papel, esse mundo parecido com você não será muito melhor não.

Claro que gostaria que ao meu redor a generosidade fosse a tônica, onde houvesse menos gritaria e mais respeito pelo outro. E nesse sentido, não deixarei de sentir engulhos sempre que tomar ciência de manifestações que não passem da mais abjeta selvageria. Porém, boa parte das referências que uso para mim podem ser modificadas pelo contexto, que por sua vez vai depender dos parâmetros que use. E é aí que entra esse comentário do início do post, dito pelo Idelber, sujeito que dispensa apresentações e que eu e grande parte da torcida blogosférica admiramos. É nessa toada sobre a cacofonia caótica dos dias atuais em contraste com o “silêncio atravessado pelo medo” da época da ditadura, fico sem dúvida com a primeira opção.

Só não sei se consigo ser tão Gilberto Gil quanto o Idelber. E como não quero ficar com toda a responsabilidade que me cabe por isso, ponho a culpa na cacofonia copacabânica. Lá se vão vinte e três anos no bairro e, com eles, um pouco da minha combalida audição.

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___________
1 Porque a gente costuma generalizar mais do que particularizar, não é? Não? Sou só eu? Sério? Não acredito! Droga.

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20 respostas para Parâmetros

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  5. Zatonio Lahud disse:

    Alex, eu adoro o silêncio, mas vivi sob o silêncio sufocante da ditadura, que abafava, inclusive, os gritos dos torturados e assssinados por ela. Não, mil vezes…não!!! Nada como o silêncio da liberdade, ainda que o barulho, às vezes, seja ensurdecedor.

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  6. Ricardo C. disse:

    Zatonio, aqui é o Ricardo. E também vivi esse silêncio de que falas, embora só a partir de 1975, ano em que voltei ao Brasil.

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  7. Camila disse:

    O silêncio imposto é uma das mais cruéis formas de violência. Só gostaria que a cacofonia não soasse tão ditatorial como seus praticantes gostam de incorporá-la.

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    • Ricardo C. disse:

      É a parte chata do jogo democrático, Camila, aquela mania de uma pá de gente de achar que é gritando mais alto e autodenominando-se representante dos valores mais dignos que se deve jogar, esperando que os demais permaneçam quietos. Mas o que importa é que eles não têm o poder de calar aos que não comungam com suas ideias, né?

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  8. Monsores disse:

    Caro Ricardo,

    O Idelber tem umas realmente ótimas, além de ser inegável seu conhecimento, cultura, inteligência, etc etc, mas eu infelizmente não compartilho da sua visão em relação a ele. Me sinto a vontade de dizê-lo aqui porque já disse pra ele.

    Por mais de uma vez presenciei-o caindo em generalismos baratos e ataques desnecessários – coisa que não vejo em você, por exemplo, pra mim sim, um grande mestre.

    (mais rasgação de seda impossivel)

    Mas cada um tem o idolo que quer, não é?

    Grande abraço,
    André

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    • Colafina disse:

      Ôpa! Nem acredito que encontrei alguém com opinião parecida sobre o Idelber!
      Ao mesmo tempo que o considero um intelectual com uma bagagem de conhecimento e cultura de proporções invejáveis, em determinados assuntos é de um radicalismo tão irracional que, na minha opinião, perde a credibilidade. Política, por exemplo.

      E o Ágora diariamente me obriga a puxar do banquinho para aprender com o mestre…

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    • Ricardo C. disse:

      Monsores e Colafina, considero muito o Idelber e isso eu já explicitei em mais de um post, não apenas neste. Não quer dizer que concorde sempre com ele ou que em alguns momentos eu não preferisse um estilo menos enfático, por assim dizer. Em todo caso, o meu próprio estilo de blogar é bem menos apaixonado ou sanguíneo, além de infinitamente menos erudito, já que não tenho a estatura intelectual do Idelber (e nem a pretensão de alcançá-la, vale dizer).
      Mas entendo os reclamos de vocês, e hão de concordar comigo que é sempre bom que ninguém seja mesmo unanimidade, pois seria algo que falaria mais mal do que bem da pessoa, não? 🙂
      Quanto ao Ágora, fico contente de ter vocês dois como alguns dos meus poucos e bons interlocutores. O ambiente por estas bandas costuma ser bem caseiro, sempre com café recém passado, mas também com chimarrão e outras beberagens regionais, porque cabe gente dos mais diversos rincões.
      Abraços

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  12. Lembro de um velho filme em que um professor diz para os alunos que a pessoa deve fazer muito barulho na vida, para valer a pena. Pensei assim durante décadas, mas agora, aos 36 anos, o que mais procuro é o sil~encio. A generosidade do silencio. Mas, isso é ambiguo. “Pensar só, eis sabedoria; cantar só seria loucura.” O velho Nietzsce aprontando das suas.

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    • Ricardo C. disse:

      Charlles, com 10 anos mais do que você, só posso concordar em gênero, número e grau.
      E vale um pê esse: já visitei antes o teu blog, mas silenciosamente. Ele vai entrar agora mesmo aqui ao lado entre os meus favoritos, erro grave que precisa ser corrigido.
      Grande abraço.

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  13. Zatonio Lahud disse:

    Ricardo, desculpe, troquei seu nome. acho que são so neurônios- botafoguenses- meio destrambelhados. Abraço!

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  14. Pingback: O Lula, o SUS, a barafunda da internet e a minha promessa de parar por aqui com esse assunto | Ágora com dazibao no meio

  15. Pingback: Tem hora que não dá pra não entrar na conversa | BlogueIsso!

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