O trailer foi bacana

Não tem nem dez minutos que o candidato a deputado estadual em quem pretendo votar saiu daqui de casa. E enquanto ele segue circulando por Copacabana, visitando parte do seu eleitorado no bairro, cá estou matutando sobre a experiência e falando dela aos dois ou três ventos além deste que sopra por aqui.

Eu não o conhecia, nem tampouco me ocorreu perguntar em que momento histórico a equipe dele conseguiu aproximar-se de mim a ponto de agendar essa visita. Se bem que, sabendo o tanto que me distraio, o mais provável é que eu mesmo tenha fornecido esses dados, e nem sei dizer se de bom grado. Mas bom moço (já nem tão moço) que sou, abuso do direito de ser solícito e de mostrar-me disponível para conversas de todo tipo, com os mais variados personagens e nos mais inusitados contextos. Sendo assim, não é de estranhar que eu tenha caído na mailing list de um político, pelo menos aos olhos de “de novo, meu amor?, você não cansa de ser fofo?” da minha mulher.

Mas o que importa desta história não é saber em que momento mais do que remoto da minha estada no Rio de Janeiro forneci meu endereço ao candidato a deputado estadual em quem pretendo votar. Interesso-me mais em contar como nesse intervalo entre as primeiras correspondências que recebi dele, quando ainda era vereador — reeleito duas vezes —, e sua visita a minha casa em busca de votos para reeleger-se deputado estadual, eu mudei. Em parte isso se deu graças a um puro e simples amadurecimento político; em parte em função dos seguidos anos desde a redemocratização do país. E, claro, tudo temperado pela expressiva participação dessa ferramentazinha do demo que é a internet, mais ainda em tempos de redes sociais.

O agendamento da visita se deu por telefone. Uma assessora do candidato a deputado estadual em quem pretendo votar disse que ele estaria em Copacabana entre os dias 24 e 26, e perguntou se não seria do meu interesse receber sua visita. Sem titubear eu respondi que sim. A ideia de fazer-lhe algumas perguntas e conversar sobre questões ligadas à cidade, ao contexto histórico, à própria noção de campanha política e à participação da internet no meio disso tudo me interessava, e mais ainda pelo fato de eu não ter que sair de casa para isso acontecer. E como diz o título do post: o trailer foi bacana. Passadas as eleições, quero ver se o filme estará à altura.

Preciso ser mais claro com essa conversa de trailer e filme, então deixe eu falar um pouco da visita do candidato a deputado estadual em quem pretendo votar. Ele chegou com duas assessoras, todos provavelmente um pouco arrependidos por desconhecer os quatro andares sem elevador que teriam que vencer até chegar aqui em casa. É o preço de estar em campanha, disse a todos ainda na porta, oferecendo-lhes água e café. Como dispensaram o café, se algum deles gosta de expresso, diria sem modéstia que perderam a oportunidade de tomar um muito bom, de café arábica Bourbon moído na hora. Eu é que não dispensei, e fiz sala com meu balde em punho.

Boa conversa ele tem, compatível com o que eu esperava. Como conheço um pouco suas propostas, quis mesmo perguntar detalhes sobre a assembleia legislativa do estado, conversar sobre os dois grandes eventos que vêm por aí — copa do mundo e olimpíadas, porque o Rock in Rio, que de rock parece que não terá muito, quase nada me interessa —, saber de seus futuros planos e interrogá-lo sobre sua relação com a internet. Comecei  fazendo uma observação a respeito de sua conta aberta recentemente no twitter, dizendo que seu perfil acentuava demais a palavra “honesto”. Como entendo que é o que já se espera de qualquer candidato, mais ainda daqueles que têm um perfil político à esquerda, disse que me parecia um apelo à moral pouco relevante, na linha do “mulher, negra e favelada” que a Benedita da Silva usara anos atrás, e que outras características talvez fossem mais importantes. Ele contra-argumentou perguntando se eu levava em consideração grande parte do eleitorado do Rio, que com frequência costuma votar muito mais em pessoas e muito pouco em partidos, e que nesse sentido se importa muito com características dessa natureza. Respondi alegando que o público que maneja o twitter e demais redes sociais costuma ser não só muito mais informado (e aparentemente um pouco mais politizado) do que a média, mas também bastante rápido na aferição de dados sobre o que quer que seja. Em segundos qualquer um poderia saber qual a afinidade política de suas ideias com as dos deputados do Congresso Nacional, por exemplo, usando para isso uma ferramenta como a do CEBRAP, que, mesmo sem ter procurado, aposto ser apenas uma de tantas.

Conversamos de outras coisas também, mas tanto ele precisava seguir com sua programação de campanha quanto eu precisava trabalhar e, antes disso, ainda por cima começar a escrever  este post (e terminar logo, que já está ficando comprido-demais-da-conta-mesmo). disse a ele que esperava sua reeleição, mas que só depois dela entraria em contato com ele para sugerir alguns dos caminhos e dos interlocutores que conheci na esfera virtual, seja no twitter, seja na blogosfera, e que estou certo que turbinariam não propriamente a sua candidatura, mas sim a sua já positiva atuação parlamentar, graças à troca de informações com pessoas de circuitos alternativos desta cidade que estão fortemente conectados, trabalhando com um dinamismo e uma efervescência que muito pouca visibilidade tem na mídia tradicional, de um jeito que ele talvez nem suspeite. E ainda terei que lembrar de dizer, é claro, que sou apenas um cidadão comum, e que como eu há no mínimo milhares, certamente caminhando para milhões.

A mim importa é que essa proximidade inaugural e o fato de ter dialogado com o candidato a deputado estadual em quem pretendo votar deram um outro tom ao meu futuro voto, uma perspectiva diferente sobre o papel que me cabe nesse processo, qualitativamente muito mais relevante do que em outras eleições. E esse é o tal filme de que faltou falar. Ele só estreará depois das eleições e, muito em função do movimento que ocorre (e do qual participo) na internet, talvez tenha a mim como um dos seus inúmeros participantes, alguns felizes como eu por conciliar uma boa dose de anonimato e um importante protagonismo.

Gostei disso.

.

P.S. Já disse algumas vezes em quem pretendo votar nas próximas eleições, mas não era esse o mote do post. Mas se alguém ainda não souber, repito: Dilma (presidente); Sérgio Cabral (governador, sem nenhum parentesco com ele, folgo em dizer); Lindberg e Milton Temer (senadores); Alessandro Molon (deputado federal); e Fernando Gusmão (deputado estadual, o candidato que deixou de tomar um bom café expresso no dia de hoje).

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15 respostas para O trailer foi bacana

  1. Nat disse:

    Coincidência… Semana passada eu conheci o Molon e o meu candidato a deputado estadual… Partidos diferentes, situações diferentes, mas também me fez perceber que após 6 eleições sem votar, escolha essa que fiz racionalmente – não por circunstâncias adversas – resolvi fazer direito dessa vez.

    Aliás, o Molon me deixou deveras impressionada…

    p.s: (nossos votos só divergem no dep. est. – interessante!)

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    • Ricardo C. disse:

      Não fico lá muito feliz de votar no PMDB do Cabral, Nat, mas entre a continuidade do contexto atual — com um horizonte que parece ainda mais positivo — e a sobrevida do DEM do clã dos Maia — através de uma candidatura fraca como a do Gabeira —, não vejo alternativa.
      E também considero o Molon um bom quadro do PT no Rio, coisa rara.

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  2. Pingback: Ricardo C.

  3. El Torero disse:

    Ontem apareceu aqui pela farmácia um dos muitos candidatos a deputado estadual em quem não votarei. Trabalha como propagandista de medicamentos junto a médicos e está enviando uma mala direta às farmácias ditas de bairro, como a minha, dando a entender que conhece as dificuldades relativas a nossa atividade.
    Atrás do seu ‘santinho’ está um ‘Não reeleja ninguém’ e a foto dele abraçado com Angela Amin, candidata ao governo daqui de Santa Catarina e esposa do candidato a Dep. Federal Esperidião Amin, que dispensa apresentações.
    Me disse que o ‘Não reeleja ninguém’ é um Não aos corruptos-um Não a politica ultrapassada, clientelista, de compra de votos?-quis completar eu, e na maior desfaçatez, ele concordou. Vi que dali não sairia coelho, se seu partido, PP, já me deixa com dois pés atrás, o discurso do ‘rosto novo’ mas aprendendo com o ‘velho’ fica sem o menor cabimento.
    Por aqui meu desanimo quanto aos candidatos é inversamente proporcional ao animo pelo processo eleitoral, que eu gosto e muito.

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    • Ricardo C. disse:

      Esse discurso de pseudo-renovação é antigo feito o sol, Torero, e torce pela continuidade do analfabetismo político de boa parte da população. É uma pena que ainda seja tão comum, embora eu esteja vendo uma molecada até que bastante antenada com o atual processo eleitoral, especialmente aqueles que navegam regularmente na internet.
      E achei muito interessante que o teu desânimo pelos candidatos em Sta. Catarina não tenha diminuído o teu interesse pelo próprio processo eleitoral. É fato raro, geralmente um contamina o outro e é desse sentimento que se aproveitam os “não reeleja ninguém, todos são iguais, mas eu sou sangue novo” da vida.

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  4. Luiz disse:

    Estou seguindo uma velha mania: só fecho a chapa cerca de uma semana antes da eleição.

    Já escolhi um senador e o deputado federal (é aquele citado nos comentários do post anterior…). Presidente e o outro senador estão bem encaminhados, mas não sacramentados. Governador e deputado estadual são as maiores dúvidas.

    Mas assim que fechar eu explico tudo, incluindo os detalhes sórdidos.

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  5. Guil Kato disse:

    Eu estava até gostando do post, mas quando você decide dar nome às intenções de voto torna-se parcial e estraga o ponto. Temperou demais a salada, Ric.

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    • Ricardo C. disse:

      Entendo a tua queixa, Guil, mas não poderia de colocar esse pê esse porque o meu posicionamento político já foi explicitado em muitos cantos. Além disso, por ser uma experiência pessoal em relação ao processo político em curso ele é obrigatoriamente parcial, não é? 😛

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      • Guil Kato disse:

        Tudo bem que seja parcial o voto em si, mas o post, ou melhor, o texto do blog em si não precisava.
        É que estava tão bom que não precisava desse pê esse.
        Foi como explicar uma piada… perde a graça.

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  6. Guil Kato disse:

    Ah.. e só para completar: Não tenho cereteza em quem votarei para Presidente, mas sei que, independente de quem ganhar, tudo continuará na mesma. O que pode até ser bom por um lado…
    No entanto acho que estamos ferrados mesmo é no quesito Senador. Os outros todos (com exceção da presidência) eu já tenho bem definidos na minha intenção. Mas para o Senado pelo Rio a coisa está meio sem graça. Voto no Temer por uma questão de coerência, mas como terão que ser dois a coisa fica mais difícil…

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  7. Raí Sabino disse:

    Rapaz, navegando na internet achei o seu blog por acaso, lendo o mesmo escrevo apenas para compartilhar com seu voto para Deputado Estadual, como alguns aqui reclamaram por você ter explicitado o mesmo não repetirei o erro.
    Apenas gostaria de dar um pequeno depoimento sobre este rapaz:
    Eu o conheci há alguns anos ainda quando ele era Vereador do Rio de Janeiro, depois de batermos um longo papo vim para casa com o objetivo de me aprofundar no mandato dele, fiz minucioso levantamento, pois não costumo votar em qualquer um, e vi que é um rapaz que tem um passado sério, nunca se envolveu com nada errada e se qualquer um aqui fizer um levantamento de seus Projetos de Lei vai ver que mesmo com 10 anos de mandato, não se encontra um projeto sequer que não seja mais do que justo e de uma inteligência impar.
    Portanto fecharei com você, só não votarei no Molon, apesar de achá-lo um senhor parlamentar, pois também tenho outro que além de tudo conheço pessoalmente e o mesmo é muito parecido com o Gusmão, o nome dele é Kike Carvalho, procure saber sobre este rapaz e depois me diga.
    Abraços e parabéns por saber votar, o que hoje é bastante raro, pois parece facil, mas da muito trabalho escolher.

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  8. Pingback: Um enorme ponto de interrogação | Ágora com dazibao no meio

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