“Somos os outros” [do Página|12]

Por Ana María Fernández*

Por que as novas gerações de mulheres não demonstram interesse por ações coletivas que melhorariam suas posições de gênero? Por que ocupam com tanta naturalidade os lugares de onde partem para concretizar seus projetos pessoais? Parecem esquecer que esses lugares são produto de muitas lutas políticas da história das mulheres. Será que não percebem que esse atual retorno ao privado pode gerar novas fragilizações?

Por que, à medida que a academia formava cada vez mais e melhores pesquisadoras especializadas em gênero, elas pouco se interessavam em indagar sobre de que maneira as oportunidades desiguais entre mulheres — geralmente pobres — poderiam relacionar-se aos problemas de outras ‘minorias’ ou a questões político-sociais mais amplas? Por que o avanço na construção do ofício resultava em despolitização?

Agora eu me pergunto se, num mundo onde o neoliberalismo esvaziou de sentido todo tipo de luta emancipatória, seria possível manter ações coletivas de peso no que se refere ao gênero. Por outro lado, as armadilhas produzidas pela radicalidade dos nossos contemporâneos exigiram quanto de prudência, bom senso, pragmatismo e cuidado nos passos a dar destas novas mulheres, nossas filhas? Não se trata de olhar para aqueles radicalismos com nostalgia e fascínio pelo passado. A solidão, a loucura, o charme patético pelo que está à margem não foram questões de importância menor para as pioneiras. Mas diante de tanta irreverência, como poderíamos questionar as habilidades desenvolvidas pelas mais novas para sustentar os territórios conquistados?

As mais novas criarão suas próprias equações; em muitas delas possivelmente faremos parte de sua linhagem, mas não se trata de esperar que elas sejam nossas continuadoras. Este momento histórico lhes pertence. Cabe a elas pensar o que é preciso fazer hoje. De qualquer forma, muitas de nós seguimos por aqui. Estamos à disposição.

Os rapazes também constataram o padecimento, tanto das mães que se liberaram “demais” quanto daquelas que não se animaram a desafiar o mundo que tinham.

Rapazes e moças notaram a falta de compreensão desses homens de gerações anteriores, encerrados em uma masculinidade bastante estereotipada; conquistadores seriais, voltados para o sucesso público, sem se permitir relaxar e desfrutar do que há de mais íntimo, mais cúmplice, mais amigável na relação amorosa.

Diante de tanta afetação e desencontro no universo heterossexual, o olhar se voltou para alguns e algumas que se aventuraram por erotismos e amores com pessoas do mesmo sexo. Diversidade sexual e novas configurações, onde a lógica binária parecia ter se esgotado. Porém, na hora das conjugalidades dos recém saídos do armário, parecem surgir armadilhas semelhantes às que aprisionaram a heterossexualidade. Mas ainda falta muito para que a última palavra sobre o assunto seja dita.

Quando se tenta desentranhar as diferentes lógicas que unem e confrontam homens e mulheres, por onde passam suas diferenças? É possível pensar as diferentes lógicas em que operam os gêneros sem partir de suas desigualdades históricas? Como foram gestados os seus modos de subjetivação, que ainda hoje apresentam tantas diferenças nas formas de individuação, de construção de diferenças e de liberdade de escolha?

Seria possível pensar que as políticas da diferença se esgotaram ou não fazem mais sentido? Seria exagerado afirmar algo assim, mas certamente se pode afirmar que nenhum grupo social que convive com a desigualdade verá as suas reivindicações plenamente atendidas apenas a partir da diferença. Por outro lado, a atual crise mundial das políticas neoliberais gerará mais desigualdade nos grupos sociais já desigualados. De formas diversas, é sobre eles que o peso da crise será maior. Muitas das conquistas e das garantias alcançadas poderão ser perdidas. Mulheres, negros, pobres, etnias, regiões geopolíticas subalternas, orientações sexuais não heterossexuais, jovens, todos poderão piorar de vida.

Se no âmbito acadêmico é possível propor reformulações conceituais para permitir que os excluídos de um sujeito universal essencializado tenham lugar, visibilidade e voz, no âmbito político torna-se necessário articular, em redes globais, as histórias e propostas da diversidade de grupos, sexos, etnias e regiões desigualados. Não num futuro próximo, não amanhã, mas hoje, para que se possa dizer junto com Harvey Milk: ‘Somos os outros. Todos somos os outros’.

* Professora da Faculdade de Psicologia da UBA [Universidade de Buenos Aires]. Texto extraído de Las lógicas sexuales. Amor, política y violencias (Ed. Nueva Visión).

[Página|12, seção “Psicologia”, a respeito das “Lógicas sexuais contemporâneas“. Tradução minha.]

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