Três murmúrios com o tempo no meio

Noto que hoje em dia, ou melhor, há pelo menos dois ou três anos, graças em grande parte às (ainda) novas tecnologias da informação prevalece a valorização de um tal de “tempo real”, seja lá o que isso de fato quer dizer. Por conta dele, suspeito que boa parte das reflexões sobre o tempo andem relegadas aos livros e artigos de história, de filosofia e de física. Mesmo não sendo versado em nenhuma dessas disciplinas, me arrisco a caraminholar uma ou outra coisa sobre. Certas peculiaridades, por exemplo. Destaco algumas.

A primeira: com excessiva frequência é um tempo regido pelo fígado e pelos pulmões.

A segunda: caso não se fale de forma sintética, de preferência com frases de efeito, poucos escutam. Não por acaso quase sempre prevalecem as primeiras impressões a respeito do que é dito, com o fígado da peculiaridade anterior tendo importante papel sobre o que acaba sendo (ou não) compreendido.

A terceira: embora todos pareçam saber que o mundo ficou mais complexo, com muitas cores intermediárias, impera o maniqueísmo. A lógica dominante é a do “quem não está comigo está contra mim”.

Diante disso, alimento uma enorme dúvida: como, apesar do anterior, as pessoas conseguem se entender minimamente sem enganar-se de todo? Reformulando: por que insistem em tentar se entender?

* * * * *

Cinco minutos atrás vi uma velha crença balançar. Tenho heróis, sim. É que são tantos e tão discretos que nunca pensei neles como tal. Trata-se de um heroísmo diário, feito da soma de pequenos gestos cotidianos, razão pela qual eu não os via como algo digno de nota. (Some-se a isso uma histórica má vontade com a própria ideia de herói, um sujeito que de tanto ser instrumentalizado a torto e a direito ainda me dá urticária, levando-me a preferir gastar, digo, perder meu tempo cultivando anti-heróis.)

Acredito ter apenas uma coisa em comum com boa parte desses heróis até então anônimos para mim: o desejo de um mundo onde o berro se restrinja aos bons cabritos e aos que por conta da própria passagem do tempo já não escutam muito bem (vide a primeira peculiaridade do murmúrio anterior). Fora deles, só em situações extremas e com cotas individuais mínimas. (Gastou os gritos? Agora, só no ano que vem.) De resto, a diferença entre a gente é uma só: eles são muito melhores do que eu. Mais generosos e mais justos, no mínimo. Ou de humanidade mais calibrada, por assim dizer.

* * * * *

Sou do tempo em que ninguém dava bola para os que começavam uma conversa dizendo sou do tempo em que.

Uma frase dita sábado passado. Há milênios, pois. De alguém de uma geração que seguia os passos daquela outra que não confiava em ninguém com mais de trinta anos. Um farsa, portanto.

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5 respostas para Três murmúrios com o tempo no meio

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  5. André HP disse:

    Sobre o tempo, há um excelente livro do célebre & célere Borges, se minhas conexões neurais não falharam o nome do livro deve ser A História da Eternidade. Se não conhece vale a pena a corrida.

    E sobre o maniqueismo, só reforça que nenhum sistema teórico ou mais básico e cotidiano de crenças e valores fica livre das angústias humanas. Não é mais o que defendemos, mas porque defendemos – penso.

    Abraço!

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