Cura

Itabuna, Bahia, década de 40, trinta anos antes chamada Vila de Itabuna que, por força da Lei n° 807 de 28 de julho de 1910, elevou-se à categoria de cidade, quando nesse então restavam à Rua J.J. Seabra não mais que vinte anos a carregar esse nome, expropriado no rebatismo para “Avenida do Cinquentenário”, por pura falta de imaginação e do que fazer de seus governantes.

Mas isso desimporta. Vale saber é que em certa manhã, ou vá lá que tarde, uma senhora de cabelos brancos, talvez nem tão brancos assim, bateu à porta de um consultório médico, um dos poucos da balzaquiana cidade, pedindo para falar com o doutor — já calvo, embora aos trinta e algo. Dotô, o sinhô pode me ajudá?, e o escalvado dotô, de ouvidos atentos, a senhora me diga o que tem e verei o que posso fazer, para então escutar perplexo a revelação: tô c’uma aranha no cocuruto… E sem dar chance ao jovem médico de pensar em perscrutar-lhe a alva (talvez nem tão alva) cabeleira, sua dona arrematou: que entrou pela aqui, apontando para a orelha esquerda.

Surpreendentemente sereno, nosso alopécico protagonista não teve dúvida. A senhora venha amanhã de manhã, que eu vou operá-la e tirar esse aracnídeo da sua cachola, mirando-lhe a cabeça e deixando-a quase tão serena quanto ele, sobretudo por fazer-lhe entender que o tal de araqueninho nada mais era do que o bicho que andava aranheirando-lhe os miolos.

Não se sabe ao certo a hora do dia, mas o acomiado médico tratou de rumar para casa, onde pediu ao segundo dos seus três filhos, pode que tenha sido ao terceiro, que lhe desse a aranha de borracha a ele presenteada por ocasião das festas natalinas, ou quem sabe em seu aniversário, ou mesmo sem razão festiva nenhuma, com a promessa, tampouco se sabe se cumprida mais tarde, de que seria logo substituída por outra ainda mais bela, se é que existe aranha assim, embora seja bem sabido que o brilho dos olhos dos meninos criados soltos em casa com quintal tende a aumentar diante de formigas, centopeias, lagartixas, sapos e bichos de todas as espécies, por conta das malvadezas e torturas que eles, os meninos é claro, costumam fazer com eles, os bichos é claro.

Feitas essas considerações, deixemos de delongas, pulemos alguns detalhes e voltemos à cirurgia marcada e à senhora que, já no consultório, depois de recostada na maca pelo doutor, é avisada por este da necessidade dum ambiente penumbroso, evitando assim que a aranha se assustasse e resolvesse fugir para outra parte do corpo, bem longe da orelha esquerda, tornando inútil toda aquela empreitada. E a trêmula senhora que, como foi dito, seguia recostada na maca e naquela penumbra que lhe parecia macabra, mesmo sem saber o que macabra quer dizer, aguardou ansiosa pelos procedimentos do jovem dotô. Até que este, com um brilho nos olhos parecido ao dos seus filhos quando fazem peraltices e malvadezas com os tais bichos, e que por sorte não se pôde ver no escuro — sigo falando do tal brilho —, munido que estava de um desses instrumentos médicos que parecem de tortura, começou a cutucar a orelha esquerda da dorida paciente, não a ponto de causar-lhe mais dor, mas o suficiente para que ela soubesse que a cura logo chegaria, enquanto com uma pinça na outra mão batia nos frascos de vidro na mesa ao lado, assustando-a só mais um tiquinho, para então dar um salto, acender todas as luzes, mostrar rapidamente à padecente um chumaço de algodão tingido de carmim, gritar pronto, está aqui a aranha! e jogar tudo no lixo, diante dos olhos primeiro aparvalhados e logo agradecidos daquela senhora não mais sofredora. Dotô, o sinhô curô eu. Como posso li pagá? A senhora não se preocupe, que essa operação é de graça, disse o dotô. Só trate de pôr um algodão em cada ouvido antes de dormir, já se prevenindo das formigas, centopeias, lagartixas, sapos e bichos de todas as espécies que pudessem atacá-la das ideias da próxima vez.

Daquela senhora, o jovem dotô nunca mais soube. Mas deu para perceber, em meio aos largos sorrisos que dava enquanto narrava o acontecido, uma ponta de orgulho, só não lembro se dele ou minha. Pode até não ter sido assim, mas parecido eu sei que foi.
.
[Da série “ando sem ter nada que valha a pena contar”. É de novembro de 2007. Esqueci o dia.]

Anúncios
Esse post foi publicado em histórias, memórias e marcado , . Guardar link permanente.

11 respostas para Cura

  1. confetti disse:

    pq esse post caiu no ostracismo ? nada disso, vou cravar unzinho aqui..“Tô c’uma aranha no cocuruto…”.

    Curtir

  2. Ricardo C. disse:

    Deixa comigo, Confetti, tratamento especial pra você, grátis!!!Bjs

    Curtir

  3. Pingback: Ricardo C.

  4. Marcelo disse:

    Opa, de aranha entendo e gosto eu. 🙂

    Curtir

  5. Colafina disse:

    Puis, de bicho aranha mantenho distância por, digamos, precaução. Mas um texto como este, aprecio e peço bis!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s