Engana-se, deputado, a Argentina é um exemplo virtuoso

É um exemplo danoso, muito próximo de nós.

Quem disse essas palavras foi o deputado Jairo Paes de Lira, do PTC-SP (e tem blog), coronel da reserva da Polícia Militar, a propósito da louvável aprovação, pelo Senado argentino, do matrimônio civil de casais homossexuais. O parlamentar brasileiro, na contramão dos argentinos, é autor de uma excrescência em forma de projeto de lei, o de número 5167, que pretende alterar o Código Civil para tornar explícito que “nenhuma relação entre pessoas do mesmo sexo pode equiparar-se ao casamento ou a entidade familiar” (UOL Notícias).

Uma curiosidade infeliz: Paes Lira ocupa a vaga deixada pelo falecido Clodovil Hernandes. Este também propôs um projeto de lei que segue tramitando na Câmara, mas que caminha na direção oposta: propõe reconhecer a união homoafetiva.

Ao ser entrevistado, o deputado Paes Lira disse mais:

O casamento existe para perpetuação da espécie humana; até por percalços naturais, não há perpetuação com pessoas do mesmo sexo. (Id.)

Tenho algumas perguntas, nobre deputado, e para chegar a elas, começo dizendo que vivo em união estável com uma mulher, e lá se vão doze anos; que nenhum dos dois temos problemas físicos de caráter reprodutivo; e que, a despeito disso, não tivemos filhos porque não quisemos. Agora, as perguntas:

1) Existe algum lugar para pessoas como nós no seu modelo de casamento e de sociedade?

2) Como é provável que não exista, o que o senhor propõe? O paredão, talvez?

Em tempo: o exemplo de uma união estável entre pessoas de sexo diferente que escolheram não ter filhos foi usado de forma anedótica, é claro. No máximo eles podem ser considerados um par pouco comum — algo que acontece, apesar de estarmos em pleno século XXI —, mas ambos seguem amparados por lei, com os mesmos direitos de qualquer outro que escolheu casar-se no civil e no religioso, e quis ter uma penca de filhos.

Ah, o primeiro casal espera viver o suficiente para ver o Brasil estender esses direitos a casais do mesmo sexo.

[Leia uma matéria simples da BBC Brasil falando da questão no Brasil.]

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6 respostas para Engana-se, deputado, a Argentina é um exemplo virtuoso

  1. Pingback: Ricardo C.

  2. Bosco disse:

    Mas isso é um absurdo! Cidadãos terem que procurar a justiça para tomarem posse de um direito básico!

    Esse é o nosso congresso.

    Mas deixa esse idiota pra lá.

    Também sou casado a mais de vinte cinco anos com uma mulher. Fizemos um pacto antes de casar que não geraríamos filhos.

    Não queríamos ter filhos gerados por nós.

    No entanto, tivemos três filhos, todos feitos por esses cristãos heteros que fazem e não assumem o que fazem. Somos felizes com eles e eles são felizes conosco.

    Tenho um primo em Fortaleza que é casado com um Francês a trinta anos. Um casal homosexual. Eles criaram e educaram uma menina também feita por cristãos heteros. Desses que também não assumem o que fazem.

    Pelo visto, os cristãos são mesmo uns velhacos desalmados.

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    • Ricardo C. disse:

      Bacana esse teu pacto, Bosco, e o fato de ter adotado 3 filhos. Há mesmo inúmeras possibilidades de configuração familiar, muitas delas bem mais recentes, auxiliadas inclusive por avanços nas técnicas de fertilização, e todas essas famílias deveriam ser respeitadas, sobretudo n âmbito dos direitos civis. No Brasil ainda precisamos avançar muito nessa área, não é?

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  3. Ateísta Capixaba Netto disse:

    E para incrementar o número de idiotas que votaram no Clodovil sem saber que o seu Suplente era um Reacionário de primeira.
    É bom saber quem são os suplentes de seus Candidatos porque o que oTitular defende o Suplente recusa.

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    • Ricardo C. disse:

      No que me diz respeito, Ateísta Capixaba, não nutria muita simpatia pelo deputado Clodovil, mas visado por algumas declarações curiosamente preconceituosas e pelo seu trato caricato com a mídia do que por seu desempenho parlamentar. Entretanto, na questão do reconhecimento da união homoafetiva, tinha o meu apoio.

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      • Ateísta Capixaba Netto disse:

        Mais uma razão para conhecer seu suplente e saber se este encampa as mesmas diretrizes do titular, porque o que sempre vemos é uma luta interna de quem “faz mais e melhor”.
        E a ARGENTINA está de Parabéns!

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