"Quando eu morrer quero ir de fralda de camisa, defunto pobre de luxo não precisa"

Hoje li uma notícia que me incomodou bastante: Brasil é o 3º pior em ranking de ‘qualidade de morte‘”. Em outras palavras, entre os 40 países consultados, ficamos em 38º lugar no que diz respeito à qualidade e disponibilidade dos cuidados oferecidos às pessoas no fim da vida. Poderíamos supor que isso se devesse à baixa qualidade da saúde pública no Brasil, mas isso não daria conta do assunto. Acontece que a pesquisa constatou que muitos países com sistemas públicos de saúde de muito boa qualidade têm “uma qualidade de morte ruim, por não haver, por exemplo, cuidados paliativos suficientes para os doentes”.

O que me faz perguntar: por que somos tão desumanos?

Bom, é óbvio que não tenho resposta, ao menos não uma resposta satisfatória. Mas algumas questões correlatas já vi tratadas blogosfera afora. Sobreveio ainda agora a lembrança de um antigo post da Carla Rodrigues, publicado no falecido NoMínimo, com o título: “Sobre as mudanças na morte contemporânea“. Um trecho dele:

… A ‘humanização’ da morte – a idéia de que o doente vai morrer em casa, cercado da família e dos amigos – depende de uma mudança cultural profunda, que ainda não aconteceu. A morte como mais uma etapa da vida, como é tratada pelas equipes de cuidados paliativos, está longe de ser aceita culturalmente por gente que foi criada com medo da morte, tentando manter uma distância segura em relação aos mortos, como se a proximidade fosse uma ameaça, uma constatação inevitável da nossa finitude.

A partir desse trecho, fiz algumas considerações num texto pessoal que trazia esse título aqui de cima, as primeiras linhas do samba “Nego Véio Quando Morre”, do grupo Os Originais do Samba, do qual o saudoso Mussum, do finado Os Trapalhões, fazia parte. Transcrevo então o que disse à época, com mínimas modificações em algumas frases, mas preservando o seu sentido original:

O que me atrevo a dizer sobre o assunto [a humanização da morte] é que os próprios avanços tecnológicos, em particular na área da saúde, aumentaram tremendamente a expectativa de vida do homem, o que em princípio é bom. Porém, um dos efeitos colaterais de tanta tecnologia é, por incrível que pareça, o paulatino desconhecimento de si, algo que não me canso de pontuar. Temos especialistas garantidos para nos falar sobre absolutamente tudo a nosso respeito, seja na figura dos médicos, dos counselors de áreas diversas ou dos personal sei-lá-o-que. E mais do que aprender sobre nós mesmos, em muitos momentos acabamos reféns, fragilizados pelo que seria a imensidão da nossa ignorância, que só com o ‘auxílio luxuoso’ (e de preço nem sempre módico) dos tais especialistas garantidos conseguiríamos aplacar. Por outro lado, com a ideia de uma família há tempos entendida como família nuclear, com poucos membros, muitas das tarefas que antes podiam ser distribuídas entre mais gente agora precisam ficar a cargo de uns poucos: o cuidado com as crianças, o acompanhamento de incapacitados (físicos e/ou mentais), e também dos moribundos, foco de um antigo texto da jornalista Carla Rodrigues do qual destaquei o trecho aí de cima. Quero dizer com isso que ‘antes era bom e hoje não é’? Claro que não! Seria leviano fazer uma simplificação dessas. Jamais trocaria os procedimentos médicos contemporâneos por sangrias, emplastros e orações, enquanto urra-se de dor por conta de algum tipo de câncer, por exemplo. Mas penso no tempo empregado nos cuidados com pessoas totalmente dependentes, inclusive no tempo afetivo, isto é, o quanto cada pessoa consegue dedicar ao adoecer de um ente querido, um padecimento tão grave que chegue até à morte. E nesse sentido, o peso sobre a tal família nuclear tornou-se imenso, família essa que também precisa manter-se trabalhando, até mesmo para cobrir os gastos que as situações anteriormente descritas exigem.
Por último, na toada das transformações sociais, a própria morte vem sendo tratada por muitos como uma doença e não como parte do viver. Sendo assim, cada vez sabemos menos sobre os processos que envolvem a morte — no sentido de ‘termos contato, proximidade, experiência, convívio’, e não no de ‘termos informações sobre’ —, já que ela é encarada (também) cada vez menos como um processo inerente à vida, fazendo com que permaneçamos sempre distantes dela — exceto em situações consideradas excepcionais e ‘não naturais’, tais como acidentes, assassinatos etc. — e, com isso, nos tornemos mais e mais incompetentes para lidar com a elaboração do luto, a assimilação das perdas e a superação das dores, processos fundamentais para seguir adiante com a própria vida.

E para terminar, o simpático samba Nego Véio quando Morre:

Os Originais Do Samba – Nego Véio Quando Morre

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5 respostas para "Quando eu morrer quero ir de fralda de camisa, defunto pobre de luxo não precisa"

  1. Marcelo disse:

    Brilhante, seu post. O que me chamou mais a atenção no seu texto foi o trecho em que você cita os especialistas em tudo. Eu me peguei pensando nessa questão há alguns dias, folheando uma Vip ou revista semelhante. Incrível como estamos sendo tutelados, cara. Pra qualquer coisa que se faça há um modo certo, uma “etiqueta”, e consequentemente um expert na área pra nos ensinar. Eu cheguei até a ver uma resportagem sobre a “etiqueta da geladeira”… Será que somos uma geração debiloide, que precisa ser pega pela mão e conduzida em tudo?
    Foi mal cara, sei que esse não é o assunto principal do post, mas po, isso tem me intrigado.

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    • Ricardo C. disse:

      Marcelo, só pra constar, eu me interesso mesmo é pelas leituras que a seu modo cada um faz sobre o que eu digo, incluindo derivações, parênteses, discordâncias etc., então nem venha com pedido de desculpas, combinado?
      Quanto às regras para tudo, concordo, só sublinho que não vejo como algo novo. Aprendizado é assim mesmo, regras de comportamento são estabelecidas coletivamente. O problema maior é 1) a dosagem e 2) o acúmulo de informações e como estas são veiculadas.
      1) Hoje somos bombardeados por informações que acabam nos gerando uma angústia danada, posto que apontam para a nossa infinita ignorância a nosso próprio respeito. Pior: acabamos desvalorizando alguns saberes que possuímos mas que costumam permanecer inconscientes…
      2) Pense na questão da ciência. Para os que a fazem, as verdades definitivas, as certezas, tudo o que tenha cara de “só pode ser desse jeito” é exatamente o que não é! Entretanto, quando os achados científicos são comunicados pela mídia aos leigos, geralmente vêm despidos tanto do “sob condições normais de temperatura e pressão” (hehe!) quanto da ideia de tratar-se de um saber provisório — e aqui penso em Popper. Além disso, essas informações são veiculadas com o selo “comprovado cientificamente”, como se isso significasse verdade absoluta e definitiva, quase um dogma cristão (muitos hehehes!)
      É isso… provisoriamente. 😀

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  2. c* disse:

    ” Quando eu morrer quero ir de fralda de camisa, defunto pobre de luxo não precisa”

    adorei essa frase !

    pq o morto tem que passar por aquele rito do banho, da barba,do terno com camisa branca engomada, do sapato brilhando, o cabelo penteado ! nunca vi isso na realidade, mas em filmes, em literatura…
    naquela serie maravilhosa ” six feet under”, o embalsamento que apagava as marcas de violencia ou do tempo, de pobreza…

    deve vir de crenças religiosas, embelezar o defunto pra ele chegar no paraiso de calça culotte e paletot almofadinhaaa…

    mas que ranking dos infernos hein rc : o brasil ser o terceiro pior em qualidade de morte…

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    • Ricardo C. disse:

      Como digo no post, a frase é de um sambinha simpático do grupo Originais do Samba.
      Eu gostava de six feet under, c*, justamente por essa aproximação que a série operou a respeito da morte e o seu entorno, que costumam ser totalmente distantes de nós — o que é ruim, pois aprenderíamos mais sobre a condição humana caso fôssemos expostos a esse tipo de experiência, em vez de sermos cem por cento poupados dela.

      Ah, acrescentei o sambinha no final do post pra que vc pudesse escutar, c*!

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  3. Olhar Saturno disse:

    Oi, Ricardo,
    Comentário novo em post “antigo”:
    1) sobre o teu comentário (1) acima (“…somos bombardeados por informações… e acabamos desvalorizando saberes que acabam permanecendo inconscientes”): o que termina por gerar a famigerada inautenticidade da qual vc fala sempre, né? Acho interessantíssima essa ligação que vc vem fazendo, e que eu percebo igualmente, entre as técnicas e o que elas geram (ou destroem) em nós mesmos enquanto indivíduos e enquanto sociedade. Me pergunto até que ponto conseguiremos nos estupidizar, twittando no momento de sentar frente-a-frente e “discutir a relação” prá valer (qualquer relação!), ou mudar de “perfil” de acordo com a situação…
    2) quanto aos dogmas “científicos”, acho que a gente poderia dar uma certa afrouxada: a ciência enquanto ciência procura, não delimita; o que delimita e define é a técnica, porque sua maior finalidade é homogeneizar para melhor “invadir e dominar”. A gente não pode esquecer que na ciência tudo é um modelo, uma forma (ok, formal e técnica) de se ver e uma maneira de interpretar o que se vê a partir da forma como foi visto. (espero que nenhum cientista me vare com um feixe de íons bem aqui no hiperespaço rsrsrs)

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