Perspectiva

Tenho um amigo, que tem um primo, que tem um vizinho… e é desse telefone sem fio que vem a história.

Década de setenta. Um garoto de classe média, com seus quatorze anos, precisa passar por uma cirurgia. Hospital público, nenhum luxo, exceto pela equipe que o opera, liderada por um dos mais renomados ortopedistas do país, e mais sorte ainda por ter ficado num quarto só para ele. Operação bem-sucedida, um belo parafuso abaixo da patela, três meses de gesso e muletas, outros três de fisioterapia, até a nova internação para enfim retirar o dito parafuso.

As contas dizem: seis meses se passaram. E o desânimo do garoto aparecia no andar, nos sorrisos bissextos, na perspectiva de voltar ao hospital, ao gesso e às muletas, o que não melhorava o cenário. Fazer o que, lá se foi ele. E o quarto? Nada feito, todos ocupados, só tinha enfermaria, droga. Outra anestesia, tudo escuro. Acorda, já com o joelho livre do parafuso, numa das camas da ala masculina onde ficaria por uma noite, mais dois ou três meninos também operados fazendo-lhe companhia. Queixava-se entre dentes da dor, da vida paralisada, da interrupção da carreira de atleta, da incômoda falta de privacidade daquela enfermaria, embora ninguém ali estivesse sequer olhando para ele. Até que a noite chegou e quis alguma distração para que o tempo passasse depressa. Que tal ver televisão? Ali não havia, só na ala feminina. Destravou a sua cama de rodas e tratou de manobrá-la rumo ao fundo do corredor. Foi só passar pelos biombos que separavam os meninos das meninas e pronto, começou o bombardeio. A garota da primeira cama à direita, duas pernas engessadas, chamou a atenção das outras: “olha lá, que gatinho!”, e a gargalhada foi geral. “Chegou o meu remédio!”, disse outra, o tronco completamente imobilizado, mal podendo virar o rosto e ainda assim mostrando todos os dentes do tanto que ria. O menino foi do sem-gracismo ao raivismo num pulo só, e mais ele se enfurecia, mais elas caçoavam dele. Especialmente uma magricela, a perna direita com um daqueles ferros para alongamento ósseo, suas duas mãos saindo do tronco por conta da falta de braços, decerto Síndrome da Talidomida, mas com a língua e o humor em ótima forma, afiadíssimos. Minoria que era (e menino-objeto que se sentiu), o garoto saiu de lá bufando, dirigindo sua cama a toda velocidade em direção a sua ala, os braços ágeis compensando direitinho a falta de mobilidade nas pernas. Estacionou sua cama na vaga que lhe cabia. Ao longe, as gargalhadas diminuíram, substituídas pouco a pouco pelo som de algum programa de tevê. A raiva sumindo, também pouco a pouco. Uma outra vergonha aparecendo, pouco a pouco de novo, ocupa o espaço da anterior, a de ter sido objeto de troça, daquela forma de sedução que na hora lhe pareceu disparatada, inconveniente. Vergonha nova, vergonha de nem ter lembrado que tinha dor, graças àquela menina que nunca andaria com as próprias pernas, àquela outra sem braços, a uma terceira, presa a uma cama de hospital por boa parte da vida, e a outras tantas que lhes seguiram nas gargalhadas. Todas juntas, com quadros um zilhão de vezes mais graves do que o dele e um tom debochado que desmantelava qualquer tragédia, acabaram levando-o a esquecer de seus queixumes, a dar-se conta que dali a algumas horas ele sairia daquela enfermaria, em algumas semanas se livraria do gesso, faria nova fisioterapia e retomaria a vida de antes, quase igual, apenas com os novos desafios impostos a alguém que interrompera suas costumeiras atividades ao longo de mais ou menos um ano.

Mais ou menos um ano. Antes daquela noite, com jeito de sua existência inteira. Agora, não parecia mais grande coisa.

O tal vizinho do início do post de vez em quando se lembra dessa história. Perspectiva, lembre-se da perspectiva, ele diz ao primo do meu amigo sempre que se encontram. E de sentir as vergonhas certas, especialmente aquelas que resultam em sorrisos bem-humorados, acrescento, só para não deixar a ligação do telefone sem fio cair.

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3 respostas para Perspectiva

  1. Pingback: Ricardo C.

  2. Marcelo disse:

    “Depende do ponto de vista
    Depende do ângulo certo”

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