Onde (ou quando) começa um debate?

Acabei de ler, no ótimo O blog do Guaciara, um post com o título “As pessoas na sala de jantar“, escrito por Walter Hupsel (@hupsel), que trata da agressividade que campeia entre os comentaristas na internet. Recorto e colo cá embaixo boa parte do próprio post:

…duas constatações:
Nós, pessoas da elite cultural/intelectual, criadas dentro dos muros das escolas particulares e das universidades, não conhecemos o povo brasileiro (perdoem minha abstração… povo?)
A segunda, decorrente desta constatação em certa medida até que óbvia, é uma tentativa de entender o que está se passando, ou, “quem é esta galera?”.
Cunhamos (já roubei!!!) a expressão “pessoas da sala de jantar” em referência óbvia à musica dos Mutantes.
Quem são estas pessoas, as da sala de jantar?  São aquelas que sempre existiram, mas nunca tiveram oportunidades de se expressar, que emitiam seus comentários apenas no almoço de família na casa da vó.
Entre iguais, numa caixa de ressonância, suas opiniões reverberavam, a ponto das opiniões virarem verdades inabaláveis. “Ora, como alguém pode pensar diferente?”
Agora, com a internet e uma certa “popularização” da banda larga, elas aparecem, aparecem e soltam suas vozes, suas verdades.  Desacostumadas com o debate (pois nunca o enfrentaram), vêm o outro cheio de ódio, e, tal como crianças, partem para a agressão e desqualificação do “adversário”.
Este fenômeno é interessante e merece mais atenção, coisa que não sou o mais indicado a fazer. O fato é que a internet trouxe microfones pra esta galera, e nosso dever é ouvi-las, até mesmo para nos conhecer melhor, saber o que é de fato o Brasil, saber mais sobre quem é a nossa classe média. Saber um pouco melhor quem são as pessoas da sala de jantar.
Quem são estas pessoas, as da sala de jantar? São aquelas estão ocupadas em nascer e em morrer.

Não sei se distingo tanto esse “nós x eles” de que o Walter fala. Não que eu me identifique com o tal estilo agressivo. Quem já passeou um pouco por este blog ou me viu debatendo em blogs alheios não encontrará vociferações, gritos e impropérios, posso garantir. Porém, isso não quer dizer que eu não seja capaz de algo assim, nem que seja na esfera privada. Porque ando há tempos desconfiado do quão déspotas esclarecidos somos, a depender das circunstâncias…

Mas deixo isso para outra ocasião e volto ao que esse post do Walter me fez lembrar. Trata-se também de um post, só que meu. Escrevi faz tempo, em 2007, e nele expus algumas das minhas modestas reflexões — modestas, limpinhas e de que ainda gosto — sobre um tema que considero ser o pano de fundo dessa questão da agressividade de que o Walter falou. Que tema? O debate. Segue pois o que pensei e ainda penso sobre esse assunto, uma tentativa não de responder ao título lá de cima, mas de discutir um pouco sobre ele. Aí vai.

*  *  *  *  *

Onde (ou quando) começa um debate? Essa é uma pergunta que (me) faço. E para desenvolver o meu ponto de vista, começarei pelo que chamo de as condições que promovem (ou dificultam/impedem) um debate. Não me parece algo fácil de responder, pois as razões certamente são muitas. Falarei de três que me vêm à cabeça.

Primeiro: o lugar onde se debate. Se o tema em questão for debatido na internet e não num auditório, sala de aula, bar, arena, picadeiro de circo ou qualquer outro lugar que implique na presença física dos debatedores (mas sem as feras não-humanas do tal circo, de preferência. Se bem que, hmm… deixa pra lá), o resultado tem boa chance de ser diferente. Mas antes de falar propriamente do resultado, deixe eu pôr o acento num ponto em particular: penso que quando a conversa se dá “ao vivo”, “face-a-face”, com poucos participantes, parte do que acontece em debates virtuais sobre algum assunto talvez nem entre em pauta. Explico. É mais do que sabido que a presença física tem um forte poder regulador nas relações — que, por sua vez, são bastante capengas no mundo virtual. “Ao vivo” tem-se o tom de voz, as pausas e silêncios, atitudes em forma de interrupções, ironias etc., além da linguagem não-verbal — que começa no primeiro olhar escrutinador, nos pré-conceitos estéticos, de classe social, de gênero, geracionais, muitos deles “despertados” pela aparência do outro antes mesmo dele abrir a boca. Nada disso participa do formato virtual — falo apenas do escrito, evidentemente, com emoticons e tudo —, exceto quando os debatedores já se conheciam antes. Aqui entra, portanto, o próprio foco do debate, que pode facilmente ser perdido, já que, no ambiente virtual, o nível de agressividade dos debatedores precisa ser moderado explicita e constantemente, sem o “auxílio” das regulações silenciosas de que falei antes e que se dão involuntária/inconscientemente quando as pessoas estão no mesmo ambiente físico, vendo-se e ouvindo-se. Esse nível de agressividade costuma ocupar, com desmedida frequência, boa parte do debate. E o humor, a ironia, os olhares de aprovação, descaso, reprovação e/ou cumplicidade entre os debatedores, por exemplo, ficam de fora dessa equação ou, no mínimo, dependerão demais da qualidade da escrita de cada um — lembrando que as expressões faciais, por exemplo, são razoavelmente universais e quase automáticas, aprendidas na mais tenra infância e muito mais facilmente decodificadas.

Segundo, e em paralelo a isso: a vontade de diálogo. Aqui vejo um problema sério: às vezes, o que pareceria genuíno interesse em conversar, é apenas interesse em falar sem ser interrompido, com o outro servindo de plateia. É claro que vale ter opiniões diferentes, caso contrário não seria debate. Mas não vale ter intenções diferentes em relação ao ato de debater, não é? Daí a pergunta: quantas vezes você vê isso acontecer realmente?

Terceiro: o crédito que os debatedores dão uns aos outros. E aqui fico pensando em aspectos como: um é “doutor”, o outro “nem estudo tem”; um é “bonito” (aos meus olhos), o outro é “feio que dói” (também aos meus olhos); um é “pobre”, o outro é “rico”; um é “branco”, o outro é “preto (ou-pardo-ou-amarelo-ou-furta-cor)”; um é “mulher”, o outro é “homem”; um é “heterossexual”, o outro é “homo (ou-bi-ou-multi)ssexual”; um é “um senhor”, o outro é “apenas um rapazote” etc…

Pois é, bastante do que foi dito no primeiro e no terceiro pontos ocorre antes mesmo do debate começar! É por isso que muito me admira que alguém consiga realmente discutir o que quer que seja, exceto se os participantes tenham algum tipo de relação afetiva — que não seja ódio… — e, portanto, tenham a intenção de estreitar, aprofundar, ou apenas preservar essa relação — algo que, por um lado, pode neutralizar o poder destruidor dos eventos que circundam o debate, mas por outro, pode tornar-se uma “ação entre amigos”, a mera ratificação de opiniões mais ou menos estabelecidas em cada um dos participantes desse mesmo debate.

Enfim, são as minhas reflexões iniciais sobre o assunto, e reflexões sem base filosófica — sei que os estudiosos sobre comunicação e linguagem, assim como vários filósofos (um tal de Jürgen Habermas entre eles, que fala de um certo “agir comunicativo”, bastante criticado por muitos, mas posto aqui pelo menos como um desses tais  teóricos), já se debruçaram sobre isso, mas não quero estudá-los durante anos apenas para poder escrever com embasamento um simples post. Até porque, em se tratando deste blog e dos seus visitantes, prefiro preservar essa amizade, apesar dela pouco ter acontecido fora do universo virtual — pelo menos não tanto quanto eu desejaria.

É isso. E, por enquanto, no que diz respeito ao conjunto de ideias que pus aqui, não vou me dar ao trabalho de revisar. Já em relação à revisão de erros de português e à forma de algumas frases, duvido que eu consiga cumprir…

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8 respostas para Onde (ou quando) começa um debate?

  1. Pingback: Ricardo C.

  2. Pingback: tiago mesquita

  3. Pingback: Walter Hupsel

  4. Ricardo, muito legal. Vou postar o seu comentário lá

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  5. Pingback: Tweets that mention Onde (ou quando) começa um debate? | Ágora com dazibao no meio -- Topsy.com

  6. Guil Kato disse:

    retweetei também, mas acho que esse assunto deve continuar a ser debatido…rs!

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  7. Alba disse:

    Ricardo,

    Eu talvez não frequente assim tantos blogs, mas à exceção de diálogos como no Fiuza, tenho reparado que os termos se tornaram mais civilizados. Nada como aquela autofagia agressiva que acabou marcando o fim do Weblog.

    Por outro lado, o post é bom, soberbamente escrito como sempre, e sim, onde não houver controles, a zona se instala..:-)

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