Comentários esparsos sobre um "dia sem Globo"

São 9:50 do dia 25 de junho de 2010. Ou seja, comecei a digitar isto aqui faltando uma hora e dez minutos para o jogo Brasil vs. Portugal. Atrás de mim há uma televisão ligada, não sei em que canal. (A tecla “mudo”, que apertei minutos atrás, extrapolou as suas funções e silenciou até a minha lembrança. Melhor assim.)  Enquanto teclo, o TweetDeck, ferramenta que comecei a usar recentemente para acessar ao Twitter, fica trinando a cada cinco segundos, anunciando as tuitadas dos cento e cinquenta e poucos usuários que sigo por lá e que surgem e desvanecem em forma de janelinhas na parte superior direita do monitor. Ou seja, a possibilidade de escrever algo que valha a pena anda (convenientemente) prejudicada pela quantidade de estímulos a me distrair.

E sobre o que pretendia falar mesmo? Ah, ainda bem que escrevi primeiro o título do post, que me trouxe de volta à ideia inicial: comentar sobre uma iniciativa que surgiu no próprio Twitter, ao que parece disparada depois de uma coletiva onde o técnico Dunga foi grosseiro com um repórter da Globo — rede de televisão que dispensa apresentações, mas não opiniões. (Aliás, sobre as grosserias do Dunga, cá entre nós, chamar alguém de cagão é tão calça curta, tão te pego lá fora, passa dessa linha se tu é ômi, é a mãe, é a tua… Faz tempo isso, não?) A iniciativa tem nome: Dia Sem Globo (ou #diasemglobo, como aparece no Twitter), a ideia de não acessar o referido canal hoje, mas que na prática é muito menos “dia” e muito mais “horas”, no caso, ver o jogo Brasil vs. Portugal em outro canal, na internet, qualquer lugar que não o principal da emissora.

[Os rojões aumentam, a hora do jogo se aproxima.]

A iniciativa tem algo de pilhéria, algo de revolta adolescente. Mas não só. Há gente graúda, cãs sobrando, estimulando a iniciativa. Não sei se assistirão ao jogo, e, se assistirem, se o farão em canais que não sejam da rede em questão — como seria o caso do SportTV, por exemplo —, ou se só abrirão mão do canal em que um determinado locutor narrará a contenda. O que sei é que é inegável, à raiz da internet, a sensação de influir sobre os meios de comunicação, em particular sobre as ações de conglomerados midiáticos verdadeiramente Quarto Poder, caso da Globo. E fazê-lo sem pegar em armas, em casa, sentados de pijamas diante de telas de todos os tamanhos, usando apenas os dedos das mãos e gastando muito pouco, apenas a luz e o acesso à internet, em certo sentido é mesmo revolucionário.

[10:47. O ritmo da escrita deste post é de alguém que apenas está aprendendo a escrever. Telefonemas e outras tantas atividades nada lúdicas arrastaram ainda mais o ritmo. Paciência, termino depois do jogo.]

O jogo acabou — chatíssimo, por sinal. Desliguei a televisão faz tempo, para voltar a escrever só agora. Então antes de seguir com o tema da campanha tuiteira propriamente dita, começo por um aspecto técnico da transmissão: no lugar em que assisti ao jogo de hoje, o tal do delay não foi só entre quem tem TV à cabo e quem não tem, mas também, no caso da transmissão à cabo, entre os canais que transmitiram o jogo. A Globo teve menos delay em relação aos “sem cabo”, vindo depois o SprotTV, a Band e, por último, a ESPN. Além do mais, a qualidade da imagem, como de costume, foi muito melhor na Globo, seguida de perto pelo SportTV e bem atrás pela ESPN, com a Band fechando a raia. Como não estamos mais na era do rádio, imagem melhor tem peso, não é?

Voltemos ao tal movimento “Dia Sem Globo”, que talvez devesse chamar-se “Jogo Brasil vs. Portugal Sem Globo”. As prévias sobre a audiência registraram mudança, com alguma perda da Globo em relação a Band — mesmo com a primeira mantendo larga vantagem —, como informa o Jornal Direto, embora análises mais consistentes só possam ser feitas quando os números finais aparecerem. Mas não creio ser o mais importante, e sim o movimento em si. Afinal de contas, todo esse barulho foi válido? As partes envolvidas, suspeito, devem estar satisfeitas. Cada uma vai cantar vitória, e em certa medida, ambas terão razão. Por um lado, a inexpressiva mudança nos números da audiência e o ar de não é comigo da Globo parecerão um já-ganhei-como-sempre. Por outro, a turma interneteira, em particular a tuiteira, vai dizer que só o fato do “#diasemglobo” ter entrado, nem que por um momento, nos trending topics brasileiros, valeu a pena. Sobre os primeiros, direi: não é bem assim. Como empresa de comunicação, a Globo está certamente de olho em todos os segmentos. E o Twitter, que recentemente gerou o movimento “Cala a boca Galvão”, brincadeira de repercussão mundial, certamente não ficou de fora. Tudo repercute, para o bem ou para o mal, e interessa aos anunciantes que financiam boa parte da mídia. Por isso me arrisco a interpretar o pedido feito no Jornal Nacional da noite anterior ao jogo — que se levasse alimentos não perecíveis aos locais públicos onde a Globo transmitiria o jogo, que serão entregues às vítimas das enchentes em Alagoas e Pernambuco — como uma estratégia que também serviria para neutralizar a campanha no Twitter. Exagero meu? Teoria conspiratória? Pode que seja, mas não creio. Aposto mais numa forma de unir o útil — a ajuda aos necessitados, que melhora a imagem — ao agradável — sustentar os números da audiência.

[Você dirá que ir aos lugares públicos não muda o resultado da audiência, pois não é lá que ela é medida, o que invalidaria a minha linha de raciocínio. Embora esse seja um argumento mais lógico, ainda acredito que a campanha pró-vítimas das enchentes possa ajudar na manutenção dos índices de audiência — embora eu não tenha como prová-lo —, já que a própria televisão costuma funcionar como veículo para informar sobre como ajudar os desabrigados e onde fazê-lo, o que significa manter-me ligado na emissora…]

Em relação aos que se engajaram na campanha, volto ao dito antes. Teve um certo tom de revolta adolescente, de “a partir de agora não tomo mais iogurte de pêssego, só de morango, viu?”. Poderia ter sido mais consistente, embora eu não tenha ideia sobre como essa consistência poderia ser alcançada. Entretanto, vale ao menos pelo princípio do boicote, bastante frequente em outras paragens, como no exemplo expresso pela blogueira-tuiteira Denise Arcoverde:

Há 20 anos, participo da campanha contra Nestlé. Não abala as vendas a curto prazo, mas atinge a credibilidade a longo

Esse tipo de movimento, embora muitas vezes mais ligado a nossa posição de consumidores e menos ao nosso papel de cidadãos quanto seria desejável, é algo mais positivo do que negativo. Nesse sentido, embora o alvo do “#diasemglobo” não necessariamente tenha sido o conglomerado midiático tupiniquim e a sua cota de absurdos para a história do país, teve lá o seu valor. Só gostaria que não parasse por aí, na mera expectativa de aparecer no trending topics Brazil.

Termino dizendo que as leituras mais maniqueistas não são bem-vindas, por pouco representativas do que ocorreu — e segue ocorrendo, já que o dia ainda não terminou. Fato é que há algumas mudanças, se não no jogo, ao menos no modo de jogá-lo. E, como cidadãos, dá para afirmar que hoje em dia temos a impressão de sermos mais protagonistas e menos espectadores passivos. Mas não custa ressaltar que não é um jogo só, sequer uma única modalidade. E que somos muito diferentes uns dos outros, nossos interesses variam, muitas vezes até o de cada um em relação a si mesmo no decorrer de uma partida, segundo o andar da carruagem e o que se estiver perdendo ou ganhando.

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13 respostas para Comentários esparsos sobre um "dia sem Globo"

  1. Pingback: Ricardo C.

  2. Monsores disse:

    Ricardo,

    Pra variar é um ótimo post. Concordo quando dizes que parece revolta de adolescente. E das bem bestas. A Globo é lider de audiência porque é melhor, fato comprovado no seu próprio post – o delay foi menor.

    É fato que deixamos de ser meros espectadores passivos para nos tornarmos receptadores ativos. A internet está aí para isso. O que me preocupa, no entanto, é como usamos esse poder. Repare que as “campanhas” brasileiras no twitter que mais vingaram foram irrelevantes. Cala a boca Galvão e quetais não contribui em absolutamente nada para a sociedade, senão para o entretenimento de alguns.

    No único post que escrevi sobre a Copa lá no Eclesiácido, fiz votos de que o brasileiro seja ao menos dez por cento tão exigente quanto é com a seleção brasileira, especialmente o Dunga – com a produção cultural, o governo, etc.

    Um abraço,
    André

    PS: Ainda não escrevi o e-mail por falta de tempo. Mas de amanhã não passa. O sinal, vai abrir… vai abrir…

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    • Ricardo C. disse:

      De fato, André, o lado lúdico e também infantil fala mais alto. Só não jogo fora de todo o movimento, entendendo que há mudanças em curso e as mídias sociais podem ser um instrumento acessível para as mesmas. Enfim, sou crítico, mas não vejo que as perspectivas sejam “variações do mesmo tema”, ou “mudanças que nunca passarão de cosméticas”. Há o que fazer, e há gente fazendo.

      Grande abraço

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  3. Guil Kato disse:

    Olá Ricardo,

    Ainda precisamos marcar um café. Desde sua volta a terras cariocas que não nos vemos!

    Eu concordo com o André acima e ainda alimento uma outra esperança. A de que, mesmo com todas as conspirações ou não, o governo, a produção cultural do país, etc… procurem agir com a mesma qualidade de produção que a Rede Globo de Televisão. Eu não me sentiria tão ridiculamente afrontado pela corrupção brasileira se pelo menos a qualidade do serviço prestado fosse muito bom. Não ligaria tanto se há desvio de dinheiro em licitações, se as construções, asfalto urbano, serviços de transporte público, etc, etc, etc… fossem de boa qualidade.

    Mas não. Temos tudo ruim e ainda nos sentimos roubados… eita!

    Alagoas e Pernambuco são o símbolo mais recente disso tudo.

    Bjs!
    Guil

    P.S. Por que o boicote à Nestlé?

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    • Ricardo C. disse:

      Verdade, Guil, esse café precisa sair, né? Quanto à qualidade da Globo, não posso falar muito, já que pouco assisto. Sei que a empresa é bastante correta com os seus funcionários, embora não faça mais do que a sua obrigação. Sei que há apuro em muitas de suas produções, mas não posso abstrair de todo a sua atuação política, que além de não ser pouca, é e sempre foi nociva para o país, o nosso país.
      Mas entendo a tua linha de raciocínio, e vejo sentido nela.

      Abração

      P.S. A Nestlé é boicotada por muita gente, sobretudo por suas ações em países pobres e emergentes, sobretudo por suas campanhas em favor do seu leite em pó. Esse boicote tem até verbete na wiki: http://en.wikipedia.org/wiki/Nestl%C3%A9_boycott

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  4. Luiz disse:

    Ricardo,

    Concordo com quase tudo.

    A exceção é quanto à qualidade da imagem: aqui em casa a da Globo não é a melhor, e nem mesmo fica em segundo.
    Deve ser por obra e graça da minha operadora de TV por assinatura: ESPN e Band ficam pau-a-pau como melhores. E aí o quesito qualidade de conteúdo desempata fácil para a ESPN…

    E haja trios de arbitragem deploráveis…

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    • Ricardo C. disse:

      São as diferenças regionais, meu amigo. A questão é que aqui no Rio o principal provedor de tv à cabo é a NET, que até onde sei continua sendo majoritariamente da Globo. Por isso não me espanta que se dê essa diferença de qualidade, embora não possa garantir que o ônus seja todo dela e não dos próprios canais citados.

      E a arbitragem… melhor nem comentar, né?

      Grande abraço

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  5. Camila disse:

    Assim como os comentantes acima, concordo com o post. As “campanhas” brasileiras pelo twitter acabam sempre sendo marcadas por um tom pueril, e é declarada uma vitória só de elas aparecerem nos TT. Talvez seja pelo uso que grande parte das pessoas faz do site, eu inclusa,hehe, de ir mais pelo lado da brincadeira do que de comentar assuntos sérios. Não que eles não sejam comentados, mas acabam se perdendo na bagunça. O que não tira do twitter o poder de ferramenta capaz de dar uma voz ativa aos que antes tinham apenas o papel de espectadores, e a própria Globo já viu o impacto que isso pode ter, mesmo isso sendo o caso do Galvão levado a repercussão internacional. Creio que seja uma questão de tempo, o amadurecimento da relação entre o twitter e as outras mídias para que esta amplificação da voz dos internautas tenha um resultado mais eficaz do que um simples lugar nos TT. É como o caso do boicoite à Nestlé: imagine o poder que teria se encontrasse espaço numa rede como o twitter.

    Enfim, acredito que o twitter seja sim um potencializador de opiniões e de ações, além de mero site de relacionamentos, e há um grande potencial de, com o tempo, esse poder aumentar.

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    • Ricardo C. disse:

      Camila, como você, também vejo o twitter como uma ferramenta que tende a amadurecer, embora o próprio uso comercial dela também tenderá a se profissionalizar, sempre com o propósito de deixar as coisas mais ou menos como estão, isto é, que quem tem poder continue a tê-lo, mesmo que ao preço de um país fortemente injusto e desigual.

      Beijos e é sempre bom te ler por aqui, viu?

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  6. Alba disse:

    Ricardo,

    Bom post sobre o desenvolvimento das novas (?) tecnologias, o público que faz uso dela e o episódio Dunga X Globo, que já li por aí, rendeu muito mais reação “patriótica” contra a hegemonia da globo, com toda a sua história de manipulações, desde o tempo da ditadura. Só isso já é interessante, acho.

    Tecnicamente, sem dúvida, a Globo é melhor. E ainda tem a hegemonia, embora cada vez mais ameaçada por outras emissoras, o que eu considero muito bom.

    Da mesma forma, TODAS as mídias que trabalham com informação sabem que os tempos estão mudando e algumas estão condenadas, embora não se saiba o prazo.

    Porém, como disse a Camila aí em cima, o twitter ou o que mais venha a ser inventado, tende a tornar muito mais visível uma parcela cada vez mais importante de brasileiros, embora por enquanto seja tratado como “curiosidade”, algumas muito engraçadas como o “Salvem o Galvão”. Esperemos porque vai aumentar o peso e a qualidade dessa voz, acho.

    Por outro lado, e encerrando, é preciso pensar que tudo isso está emoldurado numa situação em que a FIFA impõe o que quer aos países escolhidos como sede. Como exemplo, a piauí publicou uma reportagem maravilhosa no número anterior http://www.revistapiaui.com.br/edicao_44/artigo_1317/A_Copa_do_Cabo_ao_Rio.aspx

    Fiquei realmente assustada, sabe?

    Abraço

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    • Ricardo C. disse:

      Alba, concordo contigo. Tudo isso é muito novo, há espaço para mudanças que não sejam a mera substituição de um cacique midiático por outro. Essa pulverização da informação é boa, embora a maioria siga buscando informações de maneira análoga a de antigamente, via versões digitais de organizações midiáticas. Muda o meio, aumentam algumas fontes, mas muitas vezes a notícia é bem parecida.
      Enfim, temos o privilégio de estar assistindo, vivendo e às vezes até influenciando esse conjunto de mudanças.

      Beijos e deixe eu correr para o consultório, depois leio o link que vc deixou.

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  7. Nat disse:

    mudando de pau pra pica, ou O que tem a ver o cu com as calças?, se o apelo dos alimentos pros desabrigados foi estratégia de marketing ou não, eu não sei, só sei que o Bonner só começou a fazer a cobertura do desastre lá no NE depois que foi avisado pelo twitter. Eu vi, estava online nesse dia. O pessoal começou a pedir a ajuda dele assim que a chuva começou (e justiça seja feita, o cara prontamente atendeu com uma chamada no mesmo dia, mas ainda sem cobertura em tempo real da tragédia).

    Pra esse tipo de mobilização o Twitter serve que é uma beleza… Pra algumas outras, bem, eu acho desperdício de tempo…

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    • Ricardo C. disse:

      Como ferramenta, Nat, o Twitter tem muito a oferecer. Se de fato é bem aproveitada são outros quinhentos. E cá entre nós, tem muito a ser feito ainda, já que hoje em dia o desperdício de tempo empregado nela certamente é bem maior do que os benefícios que pode trazer.

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