"Não se Nasce Heterossexual" [ou um (enorme) extrato às terças]

Texto do psicanalista Marcelo A. Perez, no Página|12 de cinco dias atrás (dia 20 deste mês), do qual traduzo alguns trechos para vocês. Embora eu não seja psicanalista, as questões “Édipo & Complexo de Castração” não tenham a minha inteira simpatia e nem Lacan esteja no rol dos estudiosos que mais me interessem, o texto é muito bom, especialmente pelo momento atual, onde se discute intensamente a sexualidade em inúmeras instâncias: jurídica, ético-moral, religiosa, biológica etc. Para os conhecedores da psicanálise, sugiro que se dirijam à versão completa em espanhol, pois os trechos que cortei são de fato centrais para a sustentação teórica do que o autor diz. Mas penso que o que sobrou dele continuará a fazer sentido, especialmente para os não psicanalistas, e seguirá sendo uma argumentação importante. (Ao menos essa é a minha esperança.) Aí vai o texto:

“Não se Nasce Heterossexual”

Como alguém se torna heterossexual? A pergunta começa tentando aproximar essa primeira ideia que, formulada assim, pretende matar dois pássaros com um tiro só.1 Primeiro disparo: a sexualidade do sujeito é contingente; o mesmo ocorre com o vínculo que existe entre o significante e o significado; idem para a relação de contingência que a pulsão mantém com o objeto. Segundo tiro: ser heterossexual é algo que se alcança. Ambos disparos incluem uma obviedade dedutiva: a sexualidade do sujeito é um ponto de chegada, não de partida; “constrói-se”, independentemente do sexo anatômico, e essa produção inclui os avatares da lógica fálica, do caso a caso. A essa fábrica Freud denominou Édipo & Complexo de Castração, e a sua matéria-prima pulsional é a linguagem (…).

A sexualidade passa a existir a partir dessa linguagem furada, e é um conceito cultural que não pode mais ser confundido com a anatomia genital dos seres falantes. E se é cultural, equivale a perguntar: como é possível que uma jovem oriental alta e se apaixone por um rapaz baixinho e caucasiano? Ou então: como alguém se torna histérico em vez de psicótico?

Como? Uma resposta pontual pode ser esta: “Falando”, gerúndio que vem a ser o caminho para que o sujeito chegue à sexualidade (…) [que] longe de poder ser interpretado como um conjunto de códigos comuns para o entendimento mútuo, é tão somente o representante do gozo sexual. Este enlaçamento é problemático, porque o sujeito já não sabe o que diz quando fala, pois – repetimos – não se trata de “fazer-se entender”, mas de gozar.

Estamos dizendo, pois, que existe algo chamado falo, que ata o real – anatômico, sexual – ao significante. Essa contingência determinará a escolha sexual do objeto. Quer dizer, portanto, que ser heterossexual é um acidente (…).

Então não se nasce heterossexual? Não só não se nasce, como sequer se é. A sexualidade, como o corpo, é algo que se tem, é adquirida, conquista-se; como dirá Lacan, “é um presente da linguagem”. (…)

Vemos hoje em dia , mais do que nunca, pacientes (amantes da precisão científica) duvidando da potencial escolha sexual de seus filhos; sobretudo porque em muitos casos eles mesmos se divorciaram para poder viver com alguém do mesmo sexo. Quando se trata do inconsciente, não existe uma maneira consciente de garantir um não-acidente de percurso, assim como no existe método para definir um objeto único para a pulsão: se houvesse, estaríamos no campo da natureza e não do ser falante.

Em uma sociedade bem mais tolerante e informada – o que não é pouco –, podemos acompanhar nesses tais avatares lógicos o devir de cada experiência subjetiva para – embora não respondendo sempre – ao menos perguntar-nos a partir de um lugar onde se esteja não com um, mas com dois pássaros na mão: o desejo e o amor. Ou seja, administrando o gozo de uma maneira mais produtiva.

Marcelo A. Perez, psicanalista. Extraído do artigo “¿Cómo se llega a ser heterosexual?”.

Noves fora a questão do gozo como inerente ao sujeito, o que me interessa nesse texto é como o autor aponta para a multiplicidade, a diversidade e, por extensão, à questão da escolha, da liberdade e do que cabe de responsabilidade a cada sujeito em relação a elas, um argumento que vai na contramão de um suposto “destino” biológico tão cultuado nos dias de hoje, destino esse onde curiosamente muito da moral religiosa busca se apoiar — embora não o admita, já que a esfera divina é que deveria ser o seu terreno —, o que não deixa de ser irônico.

Liberdade e destino e o inato ou o aprendido. Já falei sobre isso antes, mas pelo visto ainda há muito o que reiterar.

.

P.S. Problemas na tradução são de inteira responsabilidade minha. Podem puxar minha orelha.

_________
1 O equivalente em português seria “matar dois coelhos com uma cajadada só”. Mas ficar falando em cajadadas ao longo do texto não pareceu uma boa solução, menos ainda quando pouca gente se vê portando cajados por aí…

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13 respostas para "Não se Nasce Heterossexual" [ou um (enorme) extrato às terças]

  1. Pingback: Ricardo C.

  2. daniel disse:

    É… Parece que serei o último libertário do planeta a não acreditar nessa conversa :-p

    Jogos de palavra fora, é claro que se nasce heterossexual ou homossexual, es decir, é claro que se nasce com atração apenas pelo sexo oposto ou pelo mesmo sexo. A maior parte da humanidade é assim, desde sempre. Da mesma forma que existe em centenas de outras espécies animais relacionamentos entre seres do sexo oposto (mais numerosas) e do mesmo sexo (menos numerosas). E elas, as outras espécies, ainda nem desenvolveram a teoria do construto social.

    Abs.

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  3. Ricardo C. disse:

    Daniel, reconheço que há uma radicalidade no título do texto do psicanalista, só que eu trato mais como provocação. E quem discorda agora sou eu sobre a questão que vc coloca: nasce-se hetero ou homo (e bi, não tem?). Ela é mais frágil do que muitos gostariam, e ao mesmo tempo mais densa do que os que advogam pela simples primazia do cultural. O ponto que defendo é evidentemente bem mais próximo do cultural, mas não nega o biológico. Corresponde, por um lado, ao entendimento do que dizem os psicanalistas, de que a pulsão não tem um objeto determinado; e por outro, de que há um espaço de decisão dos sujeitos em relação aos seus desejos e mesmo ao que haveria de fortemente biológico — no sentido de universal, próprio da espécie —, espaço esse que em alguns aspectos pode nem ser muito grande, mas que certamente pode ser “ocupado” e manejado de inúmeras formas.
    (Agora deixe eu desligar, volto mais tarde.)

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  4. daniel disse:

    Ricardo, não sou da área da psicanálise (ou de qualquer outra). Mas leio uma coisa aqui e outra ali.

    Somos seres biológicos e sociais. O fato é que a maioria das pessoas é heterossexual. Até por questões de evolução, tinha que ser assim. Da mesma forma, a homossexualidade sempre esteve presente na nossa espécie, como o é atualmente e sempre foi em diversas outras. Se fosse algo presente apenas entre os humanos, poderíamos dizer que o fator predominante era a influência do meio cultural. Mas não é (por que os homossexuais iranianos correm o risco de morrer por enforcamento, se seria muito mais fácil seguir a cultura iraniana, que a pelo menos 3 décadas está saturada de homofobia?).

    É claro que, por termos já uns milhares de anos de cultura, somos influenciados de alguma forma pelas instituições e comportamentos à nossa volta, mas acredito, junto com um bocado de gente, que hormônios, cérebro e genes são mais influentes para a sexualidade de um indivíduo do que uma parada gay, por exemplo.

    Entendo seu ponto e o do autor do texto. Meu medo é daí cairmos na negação da biologia. Andei lendo um livro dia desses, de um militante pelos direitos dos homossexuais, totalmente amparado em teorias pós-modernas radicais, que negam “qualquer traço natural” na sexualidade humana. Isso é muito perigoso. Daqui a pouco o Silas Malafaia vai citar esse pessoal pra sustentar sua tese de que ninguém nasce gay, apenas é fruto de uma sociedade “pervertida”.

    Em breve vou escrever sobre as teorias pós-modernas sobre sexualidade, no Amálgama. Tu tá convidado desde já a ler.

    Ah, tem bastante informação e links externos aqui: http://en.wikipedia.org/wiki/Biology_and_sexual_orientation

    Abs.

    —–
    PS: continuo esperando uma ou duas linhas de crédito pra entrar no final do teu texto no Amálgama.

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    • Ricardo C. disse:

      Você lê muito, Daniel, é difícil acompanhar os seus feeds, os textos que traduz e os que você mesmo escreve. Meu ritmo é muito mais lento do que o seu!

      Vou confessar uma coisa: tenho pouco saco para lacanianos, os mais radicais nessa questão da linguagem como criadora de tudo, uma linguagem quase deificada 😉 . (Embora tenha ótimos amigos entre eles, todos muito gente boa, especialmente por não terem os cacoetes da turma.)

      Somos mesmo seres biopsicossociais, e não creio que aqui se trate de negar a biologia, nem de falar em liberdade de escolha num nível absoluto. Tanto que em relação à sexualidade há tempos que já não se fala em opção, mas em orientação sexual, o que faz toda a diferença. (Já falei desse assunto em outros cantos também, como por exemplo num reparo que fiz a uma crônica do Calligaris — e ele foi gentilíssimo, me privilegiou com uma resposta por e-mail concordando com o reparo que fiz.)

      E sobre essa questão de biológico vs. cultural, tratei do assunto em outro post das antigas, intitulado organicismo, diferente de determinismo. Acredito que nesses links todos (incluindo os que coloquei no próprio post) fique claro que não fecho com a ideia de “ou um ou outro”.

      Abraços

      P.S. Depois eu mando uma linha por e-mail pro texto do Amálgama.

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  5. Ricardo,

    Ótimo post e tema. Não verifiquei o texto original por falta de tempo agora, mas voltarei mais tarde em busca do link. De todo modo, confio na sua tradução.

    Diferente de você, sou lacaniano e, a cada dia, mais convencido das propriedades e ‘essencialidades’ da linguagem. A lembrança da analogia saussureana das significações é muito pertinente e instiga a busca de outras relações.

    Em outras e mais simplórias palavras, a linguagem é o motor essencial do que chamamos de cultura e, ao mesmo tempo, combustível e “vítima” das sazonalidades culturais.

    Sem desfazer da essência biológica de nossa espécie, que é a que permite nossas (humanas) faculdades específicas (pensar, falar, etc.) e as demais habilidades ou habilitações (sexo, alimentação oral, mobilidade, etc.), resta relativamente claro e definido que as primeiras (específicas) da espécie assumem preponderância, justamente pela sua natureza distinta das características biológicas primárias (habilidades).

    A distinção específica do Homem frente aos demais mamíferos e sua respectiva linguagem articulada promovem perspectiva que, simultaneamente, exalta as qualidades puramente biológicas (pela sofisticação) e distancia os fatores fisiológicos da consumação (pela autonomia e descolamento promovidas pela linguagem).

    A linguagem articulada é sede de unidade e de superação, de reprodução e destruição, de criatividade e extinção, como de evolução e decadência. É força vital essencial mas, pelo seu conteúdo crítico e versatilidade, capaz de construir sua própria superação ou substituição.

    Quando se discute a heterossexualidade, claro que suas “irmãs” de expressão sexual estão colocadas na “mesa”. Não é surpresa que as características do que chamamos de cultura ou até de civilização (especialmente a ocidental) se encontram, atualmente, em fase de destruição ou ao menos de profunda mudança, sejam “patrocinadoras” fundamentais das discussões acerca da sexualidade e estas, alçadas à condição de cruciais temas em debate.

    Voltarei mais tarde, com mais tempo, para atar o link e, talvez, escrever algo mais.

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  6. Camila S. disse:

    É uma reflexão interessantíssima, talvez não levada em conta com muita frequência devido aos nossos padrões culturais. Freudianidades à parte, a questão da escolha, da liberdade de buscar o que quiser, seja no outro ou no mesmo sexo, ilumina no sentido de afirmar os direitos e o controle que o homem têm sobre a própria vida,o próprio caráter.

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    • Ricardo C. disse:

      Mas a armadilha contemporânea, Camila, é o fato de que delegamos demais boa parte dessa liberdade a “elementos exógenos”, por assim dizer. Há uma série de ferramentas de que dispomos que acabam nos aprisionando, sobretudo pela dependência que elas nos trazem. Geringonças eletrônicas, fármacos, inúmeros produtos absolutamente dispensáveis acabam tornando-se o pote no fim do arco-íris que buscamos sofregamente.
      Livres, nós? Nunca estivemos. Só mudamos o endereço e a decoração das prisões.

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  7. Ricardo,

    Ontem, quando escrevia o comentário, tive de sair às pressas e fui obrigado a suspender a escrita. Segue uma breve continuação.
    ________________

    A linguagem, chave essencial da cultura, seja oralizada ou transmitida por vias simbólicas, expressa aflições, dramaticidade, tensões, emoções, (quase) todas as faces do comportamento, além de carregar o ônus de estabelecer relações e explicações que a própria cultura, sede principal e fonte sistêmica da linguagem, não consegue responder.

    Vivemos algo que pode ser simplificadamente apresentado como uma espécie de “dislexia” civilizacional. É razoável, portanto, que essa condição inédita, que conforma encruzilhada sem sinalização e sem bússola, apresente variações e atitudes humanas proporcionalmente inexplicáveis dentro do contexto civilizacional em crise de superação. Crises nunca são explicáveis por seus próprios fundamentos ; modelos e métodos explicativos são, sempre, formulados externamente, desde que com prospecção da realidade interna.

    As versões explicativas das capacitações genito-sexuais e suas aplicações específicas variam ao sabor da crise principal e, como costuma ocorrer em situações semelhantes, geram dicotomias e incompatibilidades construidas ao sabor das preferências de cada estudioso ou grupo interessado em formular explicações formuladas apriorísticamente.

    O humano é, em síntese talvez apressada, a conjunção e conjugação permanente (porque dinâmica) das condições biológicas (no sentido físico) e de suas faculdades culturais, estas derivadas de sua sofisticação biológica. No entanto, conter suas aptidões linguístico-culturais e decorrentes expressões às características puramente fisiológicas consiste em reducionismo, porque cultura e linguagem, irmãs siamesas inseparáveis, promovem “autonomia” perceptiva, intuitiva, sentimental e racional, para emprestar categorias de Jung ao tema e agregar complexidade à questão.

    Existe severidade e complexidade no “corpus” da linguagem, suficientes para provocar a superação, por seus próprios meios, dos problemas e conflitos por ela mesma formulados. No entanto, “escrava” e rebelde do aparelho biofisiológico, suas expressões são, não raro, exóticas e inesperadas, especialmente nos momentos críticos.

    Sexualidade é construção nunca terminada, projeto versátil e lúdico, que permite variações e adaptações arquitetônicas múltiplas em utilidade e funcionalidade. O aparato físico, os andaimes, colunas, vigas e tubulações sustentam salões e cômodos passíveis de utilização em festas, debates, jogos ou velórios, conforme a realidade se aprisione ou se liberte de regulamentos prefixados.

    Uma prisão pode ser transformada em centro cultural ou biblioteca e uma sala de massagens pode ser convertida em masmorra. A funcionalidade das habilidades físicas é formulada a partir de suas propriedades, mas sua qualidade consiste nas suas múltiplas possibilidades. Poesia é transposição da realidade e sexo é transposição das potencialidades.

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    • Ricardo C. disse:

      NSCA, estou em dívida com você, faz tempo. Um comentário extenso, denso, mas nem um pouco hermético e sem cacoetes lacanianos — o que muito me agradou hehehe!

      Ele deveria estar no seu próprio blog, pois vale muito mais do que o meu post, que não passou de uma citação do trabalho de terceiros. Obrigado por prestigiar esta casa com as tuas reflexões, meu caro.

      Abraço

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  8. Ricardo,

    Fui ao link e confirmei sua ótima tradução. Parabéns, também, por ter trazido o link e o tema.

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  9. c* disse:

    nadaaa ! afe maria, que letra linda !!

    “Poesia é transposição da realidade e sexo é transposição das potencialidades.”

    seu lacan, com certeza teria adorado…

    :-))

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