Zazen

Andar pela babélica Copacabana. Faço isso com alguma frequência (não muita), já que nela habito. E tenho sorte, meus pés ainda não carecem do equilíbrio necessário para evitar entorses, por mais que as calçadas de pedras portuguesas os ponham à prova. Contudo, se pés detém alguma sabedoria, a minha rinocerôntica distração redobra o seu trabalho. (Bom seria ter olhos nos pés.)

Recapitulo. Pedras portuguesas em Copacabana, olhos distraídos, pés com trabalho em redobro. Em boa hora vem o auxílio do pescoço, inclinando a cabeça e forçando o olhar ao ângulo de quarenta e cinco graus, a coluna vertebral como eixo. (Dizem ser o ideal para a prática da meditação zen; o ângulo do olhar, não o do pescoço.) Toda essa complexa operação faz-se necessária não por culpa das pobres pedras lusas, mas dos perigos sobre elas depositados. Porque se há algo de que não se fala tanto sobre Copacabana é da quantidade de cães que nela perambulam. Digo isso sem vê-los tanto assim, vá lá que por culpa dos olhos distraídos do início. Mas com o auxílio da supracitada inclinação do pescoço, presto uma tensa atenção aos seus despojos. (Em miúdos, há que se reparar muito bem por onde se pisa nas mercadopérsicas calçadas de Copa. Começava nisso o que queria falar hoje, embora as voltas já sejam muitas.)

Habituado assim a andar, certo dia, não sei bem como, o pescoço insubordinou-se e resolveu alinhar-se à coluna, seguindo-lhe os passos o olhar. E para minha surpresa, tive o que mais se aproxima de uma experiência mística, improvável para quem se diz agnóstico. Refiro-me, marejando, ao mundo novo que antes se escondia em ângulos fora do meu alcance. Brotou ali, no deserto costumeiro, uma delicatessen, há mais de dez anos instalada; uma padaria das que dão gosto, hospedada há não menos tempo; um sebo, que só por ser do ramo há de me superar na idade. (A lista é enorme, envergonha-me.)

Não sei se há vida depois da morte. Mas em meio às escatológicas calçadas de Copacabana, certa vez bastou um pescoço desobediente e um olhar que lhe foi cúmplice para me fazer ver que há vida antes da morte: pelo menos mais trezentos e quinze graus. Preciso lembrar mais disso.

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5 respostas para Zazen

  1. Vanessa disse:

    Só uma observação:

    Pior do que caminhar ante os dejetos é caminhar sobre a areia grossa de Copa.

    Tive caimbras, qndo aí estive, caminhando pela areia.

    🙂

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  2. Pingback: Ricardo C.

  3. Nhé! disse:

    Ora, ora, o que será que um providencial torcicolo poderia proporcionar? 😉

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