Para quem não leu, que tal ver uma boa aula de história?

Já fui contrário às cotas raciais e favorável às cotas sociais. Passados alguns anos tornei-me favorável a ambas — e argumentos de pessoas como Alex Castro e a Mary W. contribuíram para isso —, mas advogando também por uma política de melhoria do ensino fundamental e médio que vá muito além da construção de escolas e instalação de computadores nas mesmas, algo que para alguns governantes parece ser o suficiente. Essa política correria paralela às cotas, e acredito que em algumas décadas — talvez duas gerações, não sei — ela permitisse que ao menos as cotas sociais pudessem ser progressivamente diminuídas, entendendo que um ensino público universal e (finalmente!) de qualidade permitisse uma competição um pouco menos injusta entre filhos de classes mais favorecidas e os mais pobres do que a que ainda ocorre nos dias de hoje. Estou sendo superficial, é claro, pois falta-me maior base sobre o tema. Este tem sido discutido em vários contextos, com gente muito mais habilitada do que eu. Acontece que o contexto em que mais temos notícia é justamente o mais enviesado ideologicamente: o debate que acontece na mídia tradicional.

Pensando no acalorado debate sobre cotas raciais que já chegou até ao STF, nada como retomar a bela resposta que o historiador Luiz Felipe de Alencastro deu aos comentários infelizes do senador Demóstenes Torres sobre a escravidão brasileira, com este último ancorado não por acaso ao senhor Demétrio Magnoli, figurinha carimbada quando se trata de dar voz ao que há de mais reacionário hoje em dia.

Com a palavra, Luiz Felipe de Alencastro:

.

P.S. A recente e elogiadíssima entrevista que o Luiz Felipe de Alencastro deu para o jornal Valor Econômico foi feita pelo competentíssimo Diego Viana, meu vizinho de condomínio aqui do OPS, do fantástico Para Ler Sem Olhar. Imperdíveis, a entrevista e o blog do Diego.

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11 respostas para Para quem não leu, que tal ver uma boa aula de história?

  1. Pax disse:

    Caríssimo Ricardo,

    Passo para agradecer a Santo Expedito pela graça alcançada de te seguir no Twitter. Não fosse isso talvez não tivesse lido uma das melhores análises da situação política nacional produzida nesta entrevista primorosa do Diogo Viana com o Luiz Felipe de Alencastro.

    Quando se vê um cara como esse analisando o Brasil, os partidos e seus movimentos, a situação atual da nossa política, tem-se uma certeza absoluta de quanto não vale a pena ler um bom bocado destes analistas políticos (ou pseudoanalistas) que hoje berram histerias por aí. São, como diz amigo meu, subs do subs. Alguns por falta de competência mesmo e outros por interesses bastante esquisitos.

    Obrigado, caro Ricardo. Por valer a pena.

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    • Ricardo C. disse:

      Também achei uma bela aula, Pax, e um enorme prazer que fosse o meu “vizinho de condomínio” Diego Viana a ter feito essa entrevista.
      Que bom que você leu, melhor ainda que a sua opinião tenha sido essa.

      Grande abraço, é sempre bom te ler por aqui

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  2. Monsores disse:

    Caríssimoíssimo Ricardo,

    Reitero o que o Pax disse porque se eu for repetir fica melação demais para você haha

    Hoje, prometo – aliás, vou fazer agora, a sua testeira nova. Desculpe, amigo, mas toda vez que parei pra fazer isso fui interrompido por algo menos interessante e importante, mas mais urgente. O que é um absurdo.

    Abraço,
    André

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  3. Luiz disse:

    Ricardo,

    Beleza rever a enquadrada que o Alencastro deu no Demóstenes…

    Quanto ás cotas raciais em si, tenho sérias dúvidas quanto à aplicabilidade delas no formato proposto.

    Sou defensor ferrenho de cotas sociais bem administradas, porém admito que algum mecanismo deve ser aplicado para atender a população afro-descendente. Só não sei qual seria…

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    • Ricardo C. disse:

      Luiz, dê uma lida nos argumentos da Mary W. (tem um link no post) e também nos vários posts que o Alex Castro já escreveu sobre o tema. Faz pensar. Além disso, preciso achar logo os primeiros indicadores sobre o desempenho dos cotistas, que soube serem muito bons. Se a gente tiver algumas gerações de negros ocupando melhores cargos em função de melhor titulação — claro, com todos tendo um bom desempenho acadêmico uma vez dentro das universidades —, teremos uma sociedade finalmente menos injusta.

      Abração

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      • Luiz disse:

        Ricardo,

        Primeiro, obrigado pelas dicas, especialmente o blog da Mary W.

        Eu não tenho problemas com a ideia das ações afirmativas. Sem dúvida algo precisa ser feito para minimizar (ia dizer corrigir, mas é muita pretensão…) os efeitos da discriminação da qual os negros brasileiros são vítimas (com viés claramente racista). E tenho certeza que os efeitos (inclusive o desempenho acadêmico dos cotistas) é claramente positivo.
        A minha dúvida é sobre a praticidade da implementação das cotas, que teria de ser feita de modo a minimizar eventuais distorções, de tal forma a negar argumentos para os que são contrários a elas de forma absoluta.
        Quando a Mary W. diz que cotas sociais são necessárias mas não suficientes porque os negros não estão se aproveitando devidamente delas (o que eu concordo), voltamos ao que eu disse no primeiro comentário, que as cotas sociais precisam ser “bem administradas”, o que parece ainda não ser o caso.

        Abração.

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  4. André Egg disse:

    Mais lenha na fogueira.

    Tenho escrito sobre estes temas no meu blog, não tanto quanto eu gostaria.

    Sou totalmente favorável às cotas raciais, e também às sociais.

    Mas tem outra questão importante. Não considero que a “competição injusta” entre os filhos das classes favorecidas e os pobres se dê por diferença de qualidade nas escolas.

    Pelo contrário, o que é fácil demonstrar, a qualidade da escola pública só é ruim porque pega os piores alunos. Ou seja, o problema está na falta de estrutura familiar e de oportunidades de usufruir bens culturais – aí está a maior diferença. De modo que não adianta investir em escola pública – este investimento já está feito.

    E as particulares brasileiras são uma bosta (conheço de perto as daqui de Curitiba). Em grande parte por que é isso mesmo que os pais querem.

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    • Ricardo C. disse:

      “Pelo contrário, o que é fácil demonstrar, a qualidade da escola pública só é ruim porque pega os piores alunos. Ou seja, o problema está na falta de estrutura familiar e de oportunidades de usufruir bens culturais – aí está a maior diferença. De modo que não adianta investir em escola pública – este investimento já está feito.”

      Não concordo de todo, André. Quando penso em escola pública de qualidade, refiro-me a professores mais bem preparados — e não apenas que tenham uma remuneração maior, embora isso seja fundamental para atrair para a área bons profissionais (e mantê-los nela) —, de preferência que não estejam na profissão por falta de opção melhor. Além disso, ela pode ser a ponte e mesmo a provedora de alguns dos bens culturais que fariam boa parte da diferença, algo que você tão bem apontou.

      Minha mulher me contou como alguns professores fizeram diferença em sua vida, ela que estudou tanto em escola pública (de ótima qualidade) quanto em particular. Eram professores que relacionavam de maneira criativa literatura, cinema, música e teatro, só para dar alguns exemplos, de maneira a que uns potencializassem os outros, com a escola dando todo o apoio para tal. Isso não é custoso de operacionalizar, mas é preciso um investimento intenso nesses profissionais da educação, levando em consideração que sua formação exigem mais do que dinheiro: demanda sobretudo tempo, sendo algo que acontece magicamente em um curso de atualização de 20 dias de férias ou em 4 sábados por ano, com direito a diploma…

      Enfim, não quero desconsiderar o que você falou sobre estrutura familiar, mas penso que precisamos é de mais integração social, onde, por um lado, pais aflitos, pais sobrecarregados, pais “nem aí” e tantos outros tipos de pais não deleguem à escola uma série de incumbências que nem sempre dizem respeito a ela; e por outro, que essa mesma escola seja bem mais do que um lugar onde as crianças ficam algumas horas por dia e fazem algumas refeições, permitindo que os pais dos alunos possam sair para trabalhar, formal ou mesmo informalmente, ou ao menos procurar trabalho.

      Enfim, é isso.

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  5. andreegg disse:

    Eu sei, entendo e concordo com teu ponto de vista.

    Acho que a escola no Brasil está muito aquém do que deve ser.

    Digo “a escola está muito aquem do que deve ser” incluindo pública e privada. As particulares servem mais como um escudo para os filhos da classe média não conviverem com “pobre”. Por que qualidade melhor não tem não, seja pedagogicamente, seja das instalações – mas, principalmente, pela qualidade dos professores.

    A grande questão no Brasil é que uma parcela muito significativa da população corresponde à primeira geração que foi à escola. Universalizamos o ensino fundamental na década de 1990. Os índices de escolarização dos pais são assustadoramente baixos.

    O índice dos avós mais ainda.

    Acho que isso faz muito mais diferença hoje do que o tipo de escola que o aluno freqüenta.

    As ecolas deveriam ter ótimas bibliotecas, serem centros de prática esportiva e de atividades culturais. Isso é tão importante quanto, senão mais, que o conteúdo. E nesse ponto as escolas brasileiras são muito ruins – igualmente, as públicas e as particulares. Como sociedade, seja nossa fração rica, seja nossa fração pobre, damos muito pouco valor à educação e à cultura.

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