Ruminações (2)

Umas conversas no falecido weblog me fizeram lembrar de algo que me aconteceu há 22, 23 25, 26 anos atrás. (Experiência importante para mim, e que, portanto, não ponho aqui como “verdade” ou “receita” para ninguém, vou logo avisando.)

Estudava eu psicologia, aquela maravilha de universo onde em minha sala éramos dois homens e 54 mulheres, uma realidade bem melhor do que a promessa de paraíso oferecida aos homens-bomba da atualidade. Era no México, e como desde a Copa de 1970 parece que eles desenvolveram uma enorme simpatia para com tudo o que seja brasileiro, posso dizer que eu era uma pessoa razoavelmente popular e muito benquista (putz, ô expressãozinha feia e “do baú” que eu fui arrumar!). Bom, mas como não dá mesmo para agradar a todos, tinha uma colega de sala que sempre dava umas bufadas a cada vez que eu abria a boca para perguntar ou comentar algo. Ela realmente não ia nem um pouco com a minha cara — ia dizer “com os meus cornos”, mas já chega de expressões feias por hoje, não é? —, mas para a minha surpresa, um belo dia aproximou-se de mim e disse:

— Ricardo, gostaria de levar um papo com você.

Achei estranhíssimo, mas a curiosidade sobre o que ela queria me convenceu a conversar com ela. Começamos a perambular pelos belos gramados da universidade e nos sentamos num banco, sob uma bela e frondosa árvore — calma, sei que esses lugares-comuns são para lá de chatos, mas a ideia é essa mesmo: o velho truque barato de piorar as coisas, para que o final, que virá com uma espécie de “moral da história”, não soe tão bestamente infantil quanto as irritantes “morais da história” de Esopo ou La Fontaine… — e uma vez instalados, começou a contar-me alguns dos problemas particulares pelos quais passava. E antes que ela fosse muito longe, eu disse:

— Péra aí, deixe eu entender uma coisa, que agora você está me confundindo todo. Até onde eu sei, eu não estou propriamente na sua lista dos “10 mais”, né?

— É verdade, tem toda razão.

— E apesar disso você insiste em querer conversar comigo sobre essas coisas particulares e super-delicadas?!?

— Bom, só espero não precisar desenhar. [Ela bem poderia ter dito isso.] Acontece, Ricardo, que apesar de ter todas aquelas amigas lá na sala, não acredito que dê para conversar sobre esses assuntos com elas. E tem razão, não dá para mentir e dizer que não te acho um porre. Mas vou te contar duas coisas. Primeiro, que tenho certeza de que o que você for dizer vai ser nem que seja um pouquinho mais proveitoso para mim do que o que minhas amigas diriam, ou pelo menos para o que preciso ouvir. E a segunda, a mais importante: que eu posso confiar em você.

Pois é, vinte e cinco ou vinte e seis anos atrás pude aprender, numa conversa inusitada, que gostar de uma pessoa não implica em confiar nela, e que confiar numa pessoa não implica em gostar dela.

É bem provável que isso tenha sido a coisa mais óbvia que vocês tenham lido ultimamente. Mas devo dizer que eu demorei os primeiros vinte anos da minha vida para aprender.

.

[Mais uma ruminação velhinha, de janeiro de 2008. Uma eternidade, para os parâmetros virtuais.]

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13 respostas para Ruminações (2)

  1. Gwyn disse:

    podemos usar a mesma regra para nos mesmos?

    as vezes, gostar de nos mesmos nao implica que confiamos (totalmente) em nos, e quando confiamos, nao significa que estamos gostando de nos naquele momento.

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  2. Vanessa disse:

    Exato!

    Ainda mais com o acréscimo de Gwyn…

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  3. Ricardo, muito bom texto e acho que eu ainda não consegui aprender esta lição já que, no meu caso, gostar e confiar se confundem. Ainda vou aprender…

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    • Ricardo C. disse:

      Alexandre, entender intelectualmente é uma coisa, mas vivenciar isso é bem diferente. O texto não esclarece que essa aprendizagem não me evitou de quebrar a cara vez ou outra, esteja certo disso.

      Abraços

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  4. Pingback: Ricardo C.

  5. Alba disse:

    belo texto, ricardo,

    não por acaso, a despedida do weblog foi um longo processo de sangramentos, pra ser melodramatica. e, sabe, eu até já aprendi a lição da confiança, o que não me impediu de ser envolvida em disputas que realmente não me diziam respeito. enfim, há tempos que digo que o comportamento de várias pessoas em comunidades virtuais é coisa para os analistas como voce, estudarem.

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    • Ricardo C. disse:

      A esfera virtual potencializa algumas coisas, Alba, infelizmente algumas delas são bastante negativas. Em compensação, o positivo faz com que a gente insista em navegar, né?

      Beijos

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  6. Alba disse:

    é verdade, ricardo. 🙂

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  7. Putz grila, eu ainda tô tentando entender isso e acho que vou demorar mais vinte anos pra sacar por completo.

    É uma baita verdade, Ricardo.

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    • Ricardo C. disse:

      Danilo, a gente costuma fazer associações que nem sempre são as mais verdadeiras. Isso que escrevi de certa forma vai na contramão de como costumamos avaliar as pessoas, né? Por isso de vez em quando é bom perguntar-nos sobre questões aparentemente tolas ou que nos fizemos já faz muito tempo e nunca mais revimos. E é bom fazê-lo antes que as bombas explodam, não depois, não é?

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  8. Gostei muito deste e de outros posts seus que li: reflexões e textos bem escritos. Tão verdade o que pontua aqui! Requer um aprendizado enorme… mas eu chego lá. A propósito, acho criamos fantasias a respeito das reações, comportamentos ou qualidades dos outros. Esperar que correspondam às nossas expectativas não significativa que efetivamente corresponderão a elas.
    Forte abraço!

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