Cadê Honduras que estava aqui? O rato comeu! Lá vai o gato atrás do rato…

Este é o blog de um sujeito assumidamente desmemoriado. Consequentemente, é grande o esforço para, vez ou outra, diminuir o prejuízo dessa característica. Resolvi que hoje é um bom dia para isso.

As notícias se sucedem, são esvaziadas por outras mais novas, e ao final ninguém lembra sequer sobre como se posicionou em relação a este ou aquele evento. Basta ver que nem faz tanto tempo assim que o assunto na mídia e o acalorado debate na blogosfera giravam em torno do golpe em Honduras. Pena que pouquíssimos se lembrem disso. Na memória também vai longe o terremoto do Haiti, país que voltou ao limbo que o mundo costuma lhe reservar. Tomou-lhe o lugar o terremoto do Chile, aquela tripinha que foi capaz de produzir um Allende e ao mesmo tempo um Pinochet. E no meio do caminho houve uma visita de Lula a Cuba e a morte de um preso cubano em greve de fome, preso esse que foi chamado de dissidente pelos contrários ao regime e por outros de bandido comum que que teria pegado carona na história da dissidência. E assim a vida vai passando, um evento jogando o outro para escanteio em nossas mentes, as reações indignadas sendo rapidamente substituídas por outras condoídas, por mais algumas cheias de perplexidade et cetera et cetera et cetera…

Ainda bem que tem gente atenta, que se encarrega de enxergar aquilo que já não interessa tanto, mas que precisa ser resgatado e se bobear esfregado em nossa cara. Celebro esses caras, e o da vez é Santiago O’Donnell, que publicou um texto no Página/12. Aqui vai uma apressada tradução para os não hispanoparlantes.

Um pato é um pato

Santiago O’Donnell

Se caminha feito um pato e faz quac, deve ser um pato. Para além de algumas formalidades importantes, o governo de Porfirio Lobo em Honduras parece demais com uma ditadura. Ou pelo menos ao que muitos argentinos entendemos como ditadura.

Há duas semanas, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos publicou um relatório lapidar. “Deplora assassinatos, sequestros e agressões em Honduras” já no título e descreve situações que soam bastante conhecidas.

“A CIDH condena e lamenta o assassinato de três membros ativos da resistência ao golpe de Estado, registrados no último mês em Honduras. Da mesma forma, a CIDH deplora os sequestros, prisões arbitrárias, estupros e buscas ilegais de que foram vítimas pessoas que resistiram ao golpe de Estado e os seus familiares. A CIDH expressa também a sua profunda preocupação diante da informação de que filhos e filhas de ativistas estão sendo ameaçados e perseguidos, e que em dois casos foram assassinados.”

O relatório passou despercebido pela mídia que naquela ocasião divulgada notícias sobre Orlando Zapata Tamayo, que morrera em greve de fome na prisão em Cuba. Não se pode defender que um prisioneiro morra de fome em sua cela, seja ele um prisioneiro de consciência ou criminoso comum. Mas isso é outra história.

A questão é que na mesma ocasião, não muito longe de Cuba e quase em silêncio, um grupo de repressores, esquadrões da morte criados por um golpe de Estado, inventava um novo método para reprimir o protesto social: usar crianças.

“A Comissão observa com consternação que os filhos da Frente de Resistência estariam sendo assassinados, sequestrados, agredidos e ameaçados, na tentativa de silenciá-los. Neste sentido, no dia 17 de fevereiro de 2010, Dara Gudiel, de 17 anos de idade, apareceu enforcada na cidade de Danlí, estado de Paraíso. Dara Gudiel era filha do comunicador social Enrique Gudiel, que dirige um programa de rádio chamado Siempre al Frente con el Frente, onde transmitia informações sobre a resistência. Dias antes de aparecer enforcada, Dara Gudiel fora solta depois de permanecer sequestrada durante dois dias, ocasião em que foi maltratada fisicamente.

Por outro lado, no dia 9 de fevereiro de 2010, cinco membros de uma família que militava ativamente na resistência foram sequestrados por sete homens fortemente armados, trajando uniformes militares e com os rostos cobertos por gorros de alpinismo. Um dos sequestrados era uma jovem que denunciara, em agosto de 2009, ter sido violentada por quatro policiais que a prenderam durante uma manifestação contra o golpe de Estado de 29 de junho. No dia 9 de fevereiro os homens armados interceptaram o veículo em que estavam a jovem, o seu irmão, a sua irmã e outras duas pessoas. Tendo-lhes oferecido as chaves do carro, ouviram dos encapuzados que o que queriam era a jovem, ‘para ver se desta vez ela os denunciava’. Os cinco foram obrigados a caminhar montanha acima, onde duas das mulheres foram estupradas, a terceira foi roubada e ameaçada de morte e os dois homens foram submetidos a torturas físicas.”

Talvez a denúncia não tenha chamado a atenção por não ter ido na contramão dos últimos acontecimentos em nível regional. No mês passado, na Cúpula de Cancún, o Brasil deu sinal verde para a volta de Honduras à Organização dos Estados Americanos. Não é um fato irrelevante. Além de ser o país mais poderoso da América Latina, o Brasil foi quem mais se comprometera com a continuidade democrática em Honduras, a ponto de abrigar o presidente destituído em sua embaixada de Tegucigalpa, durante vários meses, com a esperança de que o golpe fosse revertido.

Na semana passada, sob o olhar atento da secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton, em viagem pela região, os países da América Central, incluída a Nicarágua sandinista, aceitaram o retorno de Honduras ao organismo regional, SICA,  e prometeram apoiar sua volta à OEA. Horas mais tarde, o flamejante presidente salvadorenho e referência da frente Farabundo Martí, Mauricio Funes, foi recebido por Obama no Salão Oval, uma conquista que líderes de países mais importantes e governos mais alinhados ainda esperam alcançar. Ao sair da reunião, Funes defendeu a reinserção de Honduras na comunidade internacional.

O isolamento acabou. As eleições hondurenhas de 29 de novembro promovidas pelos Estados Unidos foram razoavelmente participativas, embora ainda hoje não se saiba muito bem quais os níveis de abstenção, já que não foi monitorada por nenhum órgão internacional de prestígio. O tempo passou, Brasília e Washington resolveram suas diferenças e Manuel Zelaya, o presidente deposto, caiu no esquecimento. Salvo honrosas exceções, é o que ficou claro.

Mas, como qualquer fruto de árvore envenenada, o governo eleito do Porfirio Lobo continuou certas práticas da ditadura que são mortais para a saúde de qualquer democracia digna desse nome.

A persistência do terrorismo de Estado em Honduras não é acidental. Neste governo o ditador Goriletti [o apelido de Micheletti] ocupa uma cadeira de deputado vitalício, e o líder do golpe, o general Romeo Vasquez Velasquez, foi premiado com um cargo gerencial na estatal de telefonia.

Para piorar, a área de segurança está nas mãos sobrinho e amigo íntimo do militar que levou a Honduras, em 1979, torturadores da ditadura argentina para que ensinassem seus métodos terroristas.

De fato, o secretário de Segurança de Lobo é Oscar Alvarez. Ele vem a ser sobrinho do general Gustavo Alvarez Martinez, que se formou na Academia Militar de El Palomar, na década de 70, foi chefe das forças armadas hondurenhas entre 1982 e 1984 e é o mais notório violador dos direitos humanos de seu país, confesso admirador do ditadura na Argentina, e hóspede, em Palmerola [base aérea norte-americana], do destacamento do Batalhão 601 enviado à América Central para dar aulas sobre torturas e desaparecimentos.

O atual secretário de segurança é também o arquiteto da política de mão de ferro contra as “maras” ou gangues enquanto ocupava o mesmo cargo no governo do presidente Ricardo Maduro (2002-2006). Em sua cruzada contra a “delinquência” de jovens sem futuro, acrescentou um novo inimigo, os “subversivos” que sobreviveram à campanha de aniquilação do seu tio Gustavo.

É no âmbito da sua política de segurança que surge uma nova forma de terrorismo de Estado. Já não se ataca diretamente os alvos escolhidos, mas sim o que essas pessoas mais amam: seus filhos. Para serem mais eficazes, o ataque é feito de maneira gradual, que vai das ameaças de morte à violência física e ao assassinato puro e simples, buscando atingir os pais de forma a fazê-los desistir de suas atividades políticas.

Como costuma ocorrer em casos como este, a repressão tem fins tanto políticos quanto econômicos, já que os líderes da resistência também são, em muitos casos, líderes comunitários e sindicais, especialmente do grupo dos professores, o mais ativo da resistência. E os mesmos empresários da mídia e grupos econômicos que apoiaram o golpe são os que agora se beneficiam do clima de terror semeado pelas gangues gestadas por Romeo e Goriletti, que hoje agem à sombra do manto de legalidade que Alvarez e Lobo receberam.

Certo. O que está feito está feito. Os hondurenhos escolheram, e é compreensível que não queiram voltar atrás. O tempo passou. Mas, na pressa de Washington e de Brasília para encerrar este desagradável capítulo, não faria mal exigir que, em vez de preparar uma festa de boas-vindas, eles cobrem de Honduras um mínimo de respeito pelos direitos humanos fundamentais.

Porque um pato é um pato, e já sabemos o que fazem os patos. Fazem o que fazem porque não sabem fazer oura coisa, e também porque não podem parar.

Página/12 – domingo, 14-03-2010

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15 respostas para Cadê Honduras que estava aqui? O rato comeu! Lá vai o gato atrás do rato…

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  4. Luiz disse:

    Ricardo,

    Obrigado por tocar no assunto, ainda muito mal resolvido em nossa latinoamérica…

    (Pensando bem, que vergonha… Tem um certo blogueiro pra lá de preguiçoso que já podia ter escrito alguma coisa sobre o tema. Aliás, devia ter escrito qualquer coisa nas últimas semanas…)

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    • Ricardo C. disse:

      Luiz, desculpe a demora em responder. Aliás, só o faço a esta hora do dia porque hoje é feriado em Aracaju, hehe.

      A discussão mesmo está acontecendo lá no NPTO. Pena que não em tão alto nível quanto outrora, por conta de uma certa reaçada que resolveu dar as caras por lá. Tirando o Vilarnovo, que costuma sempre ter algo importante a dizer e que vale a pena pensar sobre, a galera mais à direita que vejo por lá é mesmo bovina. Uma pena, né?

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      • Luiz disse:

        Ricardo,

        Estou acompanhando o debate lá no NPTO. E a reaçada realmente resolveu aportar lá com força. Se bem que, reparando com cuidado, são no máximo uns três insuportáveis. O que mais do que suficiente para levar o nível de debate para algo perto do pré-sal…

        Aproveite o feriado (aqui vai ser na sexta-feira, oba !!!).

        E quebrei o silêncio, como você deve ter notado…

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      • Ricardo C. disse:

        Vi e comentei por lá!

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  5. Alba disse:

    ricardo,

    desculpe a ausencia de maiusculas, mas é que quebrei o punho num acidente domestico e ando abusando da patinha esquerda, em funçao de ficar em casa mais do que queria, sem falar dos outros incomodos, que pode imaginar.:-(

    seu post é magnífico, exatamente porque mostra que há uma esquerda não soterrada junto com os escandalos do pt.

    e essa esquerda precisa se manifestar. sempre.

    grande abraço

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    • Ricardo C. disse:

      Alba, não tem de que se desculpar, só de querer participar das conversas já vale e muito! Pensar as questões latino-americanas do ponto de vista dos direitos humanos, por exemplo, deveria esvaziar um pouco a questão esquerda Vs direita. Violência perpetrada pelo Estado deve ser sempre bem amarrada do ponto de vista legal, a ponto de não mais poder ser chamada propriamente de violência. Mas abusos disfarçados de “defesa do regime”, seja ele qual for, não devem passar nunca em branco.

      Beijos

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  6. Ricardo,

    Pois é.O que ocorre era previsível.

    Quando o governo brasileiro adotou atitudes firmes contra o golpe dos selvagens, boa parte dos ingênuos e grande parte da mídia criticou duramente a posição. Você deve se lembrar que, por exemplo, no blog de Pedro Doria, comentários apaixonados defendiam que a situação em Honduras e a deposição do presidente não constituiam golpe.

    O resultado da “bordaberryzação” de Honduras, com a providencial e costumeira ajuda dos USA, é a institucionalização da farsa de democracia que encobre a barbárie.

    Governos democráticos agem segundo as correlações de forças da sociedade e a atuação brasileira é resultado do embate dessas forças.

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    • Ricardo C. disse:

      Eu apoiei a atitude do governo brasileiro naquele então, nsca, e muito me desagrada essa sutil capitulação brasileira em nome de sei lá o que. Acho que a cobrança do O’Donnel em relação aos EUA e ao Brasil é o mínimo que se pode fazer, pois como diz o autor, de fato, “o que passou, passou”.

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