A bronca da vez

Eu sei, trabalho bem feito implica em pesquisa — e pesquisa que preste, diga-se de passagem. Mas eu também sei que não tenho tempo sobrando para tal. Então vou direto às (minhas) considerações finais, mesmo sem me deter nos objetivos geral e específicos, deixando o referencial teórico pra lá, sem dar um trato nos métodos e pouco me importando com os resultados; ou seja, tudo capenga.

Bom, o negócio é o seguinte. Passando os olhos por algumas publicações na área médica, acabei encontrando mais de uma pesquisa relacionando espiritualidade, religiosidade e saúde, o que me deixou um tanto quanto surpreso. O interessante foi notar que boa parte delas — as poucas que folheei — apontava para uma relação positiva entre essas variáveis. O resumo de uma, por exemplo, descrevia em seus métodos que usara os bancos do SciELO, LILACS, Medline e PsycINFO como base de sua revisão da literatura, para então afirmar em seus resultados que os

(…) estudos que abordam o tema demonstram uma relação entre maior espiritualidade e maior religiosidade com melhor qualidade de vida, menor prevalência de depressão, maior suporte social, mais satisfação com a vida e mais satisfação com o tratamento (…). Da mesma forma, verificou-se que pacientes (…) que possuíam menor espiritualidade solicitavam mais tratamentos para estímulo de vida (intubação orotraqueal, por exemplo) e que a espiritualidade foi fator de enfrentamento (coping) para os familiares dos pacientes (…). [Grifos meus]

Bacana, há tempos ouço falar disso, e mais bacana ainda ver artigos científicos debruçando-se sobre o tema. Tomado então de certa curiosidade, fui ao SciELO e ao PsycINFO — não deu tempo de ir aos demais — e procurei pelos termos espiritualidade + saúde, espiritualidade + religiosidade + saúde, espiritualidade + religião + saúde, sem falar em algumas especialidades médicas no lugar da palavra “saúde”, mas que agora não vem ao caso mencionar. O chato é que não encontrei exatamente o que eu queria: a clara definição do que seria “espiritualidade” e “religiosidade”. E aqui está a razão do meu preâmbulo: admito que o fato de não ter encontrado definições claras para essas variáveis não implica em que alguns não as tenham feito, e sim que eu é que não as encontrei…

Porém, isso não invalida a minha bronca blogueira. Como é que um estudo médico se arvora a usar esses termos sem defini-los adequadamente? Como é que resolve fazer uma pesquisa pecando por omissão, como se fingisse que se trata de termos claros, que não haveria dúvidas sobre o que significam? Quer saber, eu ficaria satisfeito si tivesse encontrado algo mais ou menos assim: a “religiosidade” de um sujeito refere-se a sua crença em uma entidade que considera superior, imaterial e sobrenatural, crença essa que se alicerça em uma doutrina específica e é compartilhada com outros sujeitos. A “espiritualidade” se diferenciaria da religiosidade apenas na questão doutrinária, isto é, o sujeito que afirma possuir “espiritualidade” não costuma se alinhar aos preceitos e dogmas de uma religião em particular, mas comunga com os religiosos da crença de que existe algum tipo de força sobrenatural que teria poder sobre a sua vida e a dos demais e em certo sentido justificaria a sua própria existência. Ficou comprido, é verdade, mas pelo menos “cerca” razoavelmente os termos, arrisco a dizer.

Trocando em miúdos, não dá para falar desses termos num estudo que se pretenda científico, pois agindo assim qualquer desavisado que lesse e desse crédito ao estudo acabaria entendendo que de fato existe algum ser ou força sobrenatural que dá as cartas no pedaço. E se você que chegou até aqui crê nisso, entenda que há um erro crasso nesse imbróglio. E não, não afirmo que o erro esteja na sua crença, fique sossegado. O erro está, sim, no estudo em questão: espiritualidade e religiosidade não podem ser definidas de maneira a afirmar que alguma entidade imaterial existe. Sua definição deve circunscrever-se ao fato dos sujeitos crerem, sem pretender adentrar na especulativa correspondência entre tais crenças e o mundo. Há sujeitos que creem numa força superior, amparados ou não em uma doutrina religiosa, e há sujeitos que não creem nisso. E segundo algumas pesquisas, crenças em alguma força superior teriam efeitos positivos sobre a saúde e o bem-estar de alguns sujeitos submetidos a tratamentos de doenças graves, crônicas ou não.

Feita a bronca, pesquisem à vontade, mas cuidem bem das suas crenças, pois volta e meia elas ficam soltas por aí e acabam atravessando o samba de seus estudos. Ah, não custa avisar que disfarçar tudo com o formato e a linguagem comuns às pesquisas científicas não resolve a questão, ouviu?

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3 respostas para A bronca da vez

  1. Pingback: Ricardo C.

  2. Chico Cerrito disse:

    Não é científico, é opinativo, não existe relação entre saúde e religião, é puro tro-ló-ló.

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  3. Ricardo C. disse:

    Pois é, Chico, dito nos teus termos, eu também concordo. Mas, por outro lado, entre crença e saúde há alguma correlação. Não digo em todos os aspectos da saúde, mas na questão da dor, por exemplo, há indicadores de que sim. Além disso, o efeito placebo com frequência é potencializado por crenças religiosas.

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