Não vai dar não [final]

[Começou aqui]

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– Alô, Fulano?
– Ué, Sicrano, o que houve? Anteontem a ligação caiu e você não ligou de volta e, pra piorar, na conversa da gente você nem chegou me dar o seu número de telefone…
– Foi mal, meu amigo, é que acabou a bateria do meu celular e depois disso não parei nem um minuto, os últimos dois dias foram de pura ralação. Tanto é que tô te ligando hoje, não só pra que você me conte o resto desse seu épico denettiano, mas porque é sábado e tem feijoada lá no Serafim, a segunda coisa que você mais gostava de comer por lá, acompanhada de umas doses daquela cachaça, como era mesmo o nome?, Calor de Virgem, lembra?, e rebatendo com umas Brahmas, só que da Antárctica, como o povão costumava dizer, ha-ha-ha!
– Lembro disso tudo, Sicrano, é lembrança pra lá de boa. E se você me visse agora ia dar de cara com uma pá de dentes, por conta do sorrisão estampado na minha cara. Mas não insista nisso, vai dar não, velho. Deixa eu continuar te contando do Dennett, acho que você vai acabar entendendo os meus motivos. Onde eu parei mesmo?
– Você falou da postura física e da postura de projeto. Ia falar de uma terceira, só não lembro do nome.
– Ah, a postura intencional.
– Porra, tô ficando velho, minha memória anda mesmo uma merda. Se é Teoria dos Sistemas Intencionais eu tinha que ter lembrado que era essa que faltava.
– Não esquenta, você mesmo disse que não estava familiarizado com ela, então queime a mufa com outras coisas mais importantes pra você. Melhor eu continuar logo. Vou começar lendo pra você como o Dennett define a postura intencional. Abre aspas: Primeiro decide-se tratar o objeto cujo comportamento se quer prever como um agente racional; depois, imaginam-se quais crenças esse agente deveria ter, dado o seu lugar no mundo e o seu objetivo. Imaginam-se também os desejos que deveriam motivá-lo, com base nas mesmas considerações, e, finalmente, prevê-se que este agente racional atuará buscando alcançar os seus propósitos, à luz das suas crenças. Um pouco de raciocínio prático a partir do conjunto escolhido de crenças e desejos fornecerá em muitas ocasiões uma decisão sobre o que o agente deveria fazer; é o que conseguimos prever que o agente fará, fecha aspas.
– Não sei se entendi muito bem…
– Ué, basta a gente voltar pro exemplo que te dei da primeira vez, a história do teu telefonema pra mim. Você me ligou e partiu de alguns pressupostos tão entranhados em você que nem precisou pensar na maioria deles. Primeiro, você me ligou do seu celular. E por mais que, se eu bem me lembro do que você pretendia estudar na faculdade, sua área não seja nenhum tipo de engenharia, nem tenha nada a ver com microeletrônica, com informática ou com qualquer ciência envolvida no projeto e fabricação de celulares, você nem piscou na hora de digitar o meu número naqueles botõezinhos, apertar send ou chamad. ou alguma tecla com algum símbolo verde indicando que é ali que é pra chamar, esperou tocar um determinado tipo de som que você aprendeu faz um tempão que corresponde a tá chamando, e aguardou que alguém atendesse do outro lado, né?
– Ufa, quanta coisa só prum telefonemazinho. Fiz isso tudo sim, mas, como você disse, realmente não pensei em nada dessas coisas. Eu apenas te liguei, você atendeu e tá que filosofa comigo, capítulo dois. E não me leve a mal, tô gostando da conversa toda, mas dá pra encurtar e chegar ao que interessa, que é o motivo da gente não poder se encontrar? Você tá doente ou o que? Porque eu tô é preocupado, quase ligando pra Beltrana pra saber melhor de você, que eu nunca te imaginei dispensando nem a rabada, nem a feijoada do Serafim, molhando o bico com umas branquinhas Calor de Virgem e enxaguando a garganta com umas louras suadas…
– Amigo, vou tentar acelerar, só não sei se vou conseguir te despreocupar. Bom, um dos seus pressupostos ao ligar pra mim tem a ver com a postura de projeto, porque diz respeito ao funcionamento do seu celular e do meu próprio telefone. Já o outro tem a ver com a postura intencional. Você deve estar pensando que outro é esse, e te digo logo: refere-se ao fato de eu atender ao seu telefonema, do mesmo jeito que fazia antigamente, e a que a gente acabasse conversando, coisa que a gente tá fazendo. Isso porque você pressupôs aquilo que eu li do Dennett pra você, ou seja, que eu fosse um agente racional, com as crenças e desejos que provavelmente um agente racional como eu deveria ter, tanto em função do que você conhecia de mim, como pelo fato de eu ser tão ser humano como você. E você já tem alguma experiência de vida no trato com todo tipo de gente, né? Então, se eu estivesse em casa, com o telefone funcionando e desocupado, o suficientemente disponível e desimpedido, próximo ao aparelho e seguindo com o velho costume de atender prontamente às ligações que me fazem, pra você seria líquido e certo que acabaríamos papeando, confere?
– Não posso discordar de você.
– Bem resumidinho, essa é a postura intencional. Mas vale dizer que a gente não funciona assim só com gente. Às vezes até com coisas a gente faz o mesmo.
– Rapaz, assim você me complica. Como assim tratar uma coisa como se ela tivesse crenças e desejos? Gente eu concordo; bicho vá lá; mas coisa? Eu não faço isso não, que não sou maluco nem nada.
– Aposto que faz. Vai dizer que quando seu computador dá pau você não xinga ele, se bobear até dá uns tapas no monitor, mas depois de um tempo sem conseguir que ele ligue você acaba pedindo desculpas por tratá-lo tão mal e promete que não vai mais fazer isso de novo e tal?
– He-he, o pior é que você adivinhou, faço assim mesmo. Mas é só um jeito de agir, não é sério de verdade.
– Tem razão. Tanto que o Dennett não fala dessas coisas tendo crenças e desejos de verdade, mas sim que se comportariam como se tivessem, e por conta disso conseguiríamos prever com razoável sucesso o seu comportamento. Afinal de contas, se você, sei lá, está sozinho em casa e resolve jogar uma partida de futebol no PlayStation 3 contra o console, tenho certeza que para você o videogame tem o propósito de ganhar o jogo, inclusive foi desenhado pra isso, e vai fazer de tudo pra você perder, até uma roubadinha aqui e outra ali pra ganhar de você. E tudo bem, eu sei que você sabe que ele não é gente, que é só um programa concebido por gente para funcionar desse jeito. Mas atribuindo a ele esses desejos, esses objetivos inclusive parecidos com os teus, fica bem mais fácil jogar e até mesmo ganhar dele. Claro que você mesmo disse que não é sério de verdade. Mas é uma baita de uma ficção útil, não é?
– Bola dentro, meu camarada, só pra seguir no papo de futebol. Aliás, nem uma ida ao velho Maraca com a turma de antigamente? O Mengano tá afinzão de ir no Fla-Flu amanhã e se você for ele vai ficar felizaço. Se anima, rapá.
– Cês são doidos, não vai dar não.
– Pera lá, assim também não dá. Você já me explicou essa história toda do Dennett, entendi até o fato da gente usar ficções úteis como a de atribuir racionalidade, crenças e desejos, enfim, essa tal de intencionalidade às pessoas, aos bichos e a coisas como o PlayStation que eu nem tenho, ou até ao seu vizinho lutador de jiu-jítsu, e não vem falar de novo da minha sogra que eu vou ficar chateado. Mas ainda não entendi o motivo de você não sair de casa de jeito nenhum, esse teu papo sobre sistemas intencionais não deu conta de explicar teu próprio comportamento.
– Você já foi mais esperto do que isso, Sicrano, e não se ofenda com a minha observação. Achei que fosse ver nas entrelinhas, especialmente quando eu falei de ficções úteis.
– Por que haveria de?
– Ora, pense bem. A humanidade vem avançando a passos largos para entender, prever e controlar cada vez mais nem que seja uma parte do universo em que vive, e já inventou uma cacetada de coisas a partir de suas observações, além de se basear em algumas ficções úteis, certo?
– Hmm.
– E algumas dessas observações, dessas ficções úteis, com o tempo foram se mostrando menos úteis, limitadas ou até erradas, não é? Primeiro, que a terra era plana; depois que era o centro do universo; depois disso, que o movimento dela ao redor do sol era um círculo perfeito e não uma elipse; que o átomo era a menor partícula. Sem falar nas ficções que são úteis só porque têm utilidade instrumental, que nem os centros de gravidade na física, ou os meridianos e a linha do Equador, por exemplo. Aliás, até o Eu não passaria disso, uma ficção útil…
– Pó pará!
– Tá, deixo essa pra outra hora. Mas indo logo aos finalmentes, pense numa coisa: úteis ou não, não passam de ficções. E eu não consigo mais viver assim, cara, ignorante da minha própria ignorância, satisfeito com o eu só sei que nada sei. Meu chapa, como é que você pode imaginar que dá pra gente se encontrar amanhã pra assistir o Fla-Flu? Isso é delírio, a mais pura pretensão!
– Ahn?!?
– Você tem ideia da quantidade de variáveis que a gente precisaria conhecer e ainda por cima controlar para garantir que nós dois e o Mengano estivéssemos juntos na torcida do Mengão amanhã às cinco da tarde? Tem? Te digo, nem com todos os supercomputadores do mundo inteiro funcionando em rede você daria conta disso.
– Como assim?
– Pra começar, onde está o Mengano agora, na rua ou no apê dele? E se estiver fora, chegando em casa, passando por aquela rua de sempre cujas estatísticas de violência apontam para uns trinta por cento de chances dele ser assaltado à mão armada a esta hora da noite, e que se estiver à pé essa estatística sobe pra quarenta e cinco por cento? Isso imaginando que as estatísticas sobre a violência no Rio de Janeiro fossem confiáveis, e você e eu estamos carecas de saber que não são… Mas vou dar uma chance maior a ele imaginando que tá em casa, sozinho como de costume. Lembre que o Mengano já tá na faixa dos quarenta, tem histórico de pressão alta e de infarto na família, comia e ainda come muito pior que a gente, só tranqueira, continua sem ter feito nem um check-up na vida, aliás pra ele check-up parece ketchup e vai bem com pizza, e os únicos exercícios que faz são apertar os botões do controle remoto, acender um cigarro depois do outro e amassar as latas das seis cervejas que costuma traçar sozinho diante da tevê? Ou seja, será que o Mengano passa desta noite e consegue chegar à porta do estádio amanhã? E eu só falei do mais genérico, nem entrei em questões como a idade da tubulação de gás do velho prédio dele, o fogão tão velho quanto e que eu sei que ele nunca mandou nem limpar, o aquecedor que fica dentro do banheiro e a janela que ele teima em deixar fechada porque é friorento pra caramba e só gosta de entrar no banho depois de meia-hora de água pelando e o banheiro com cara de fog londrino… Sabe a quantas andam as estatísticas de mortes por gás?
– Cara, você tá me assustando!
– Você queria saber, agora aguente. E se com sorte, mas com muita sorte e providência divina, duas coisas em que eu não posso me dar ao luxo de acreditar, inclusive porque crença não é palavra que caiba no meu vocabulário, pois então dizia eu da sorte de que nada aconteça nem comigo, nem contigo e nem com o Mengano esta noite, e que os três estejamos vivos amanhã de manhã, que a gente acorde sem nenhum problema de saúde prestes a explodir no nosso peito, nem coma qualquer iogurte vencido ou alguma coisa que nos dê no mínimo uma diarreia e no máximo um choque anafilático, que não morra ninguém da nossa família, nem mesmo o vizinho mala do meu prédio que costuma fazer umas festinhas regadas a pó, funk e travecos que ele pega lá na Praça Onze, já vai tarde, meu camarada, só leve embora logo esses policiais que agora vão querer tomar depoimento de todo o mundo do prédio e deve demorar bem umas seis horas e meia no mínimo, e isso porque seriam dez da manhã, daria tempo de sair de casa antes do jogo. Mas não acaba aí não, eu só iria ao Maracanã de ônibus, tô numa dureza só e não dá nem pra pegar um taxi. Você sabe a idade média da frota de ônibus do Rio? Sabe a durabilidade dos pneus recauchutados que a maioria usa? Sabe quantas revisões de verdade eles fazem na parte mecânica, quanto canibalismo com outros ônibus, e a velocidade de fórmula um com que eles circulam, a qualidade irregular do asfalto e o atrito em relação aos tais pneus provavelmente recauchutados? E a temperatura desse verão senegalense que andou na cidade, piorando todo o conjunto da obra e ainda por cima fodendo com o humor dos motoristas, estressados de tanta hora extra e medo de serem demitidos? E a Raça Rubro-negra, uma cacetada deles entrando no ônibus até chegar no estádio? E se algum mané tricolor passar pelo trajeto e o povo resolver enfiar a porrada?…
– Chega, Fulano, por favor, chega!
– Desculpe, Sicrano, mas isso tudo o que eu falei é só a pontinha do iceberg de possibilidades que ficam rondando na minha cabeça, só a pontinha. E o pior, boa parte delas é composta de ficções úteis que se baseiam em outras ficções úteis. Minha vida virou isso, é uma miséria só. E a culpa não é só do Dennett não. Você já leu Borges? Sabe aquele conto, Funes, o Memorioso?
Tum tum tum.
– Alô? Alô? Não, Sicrano, a história da bateria do celular de novo não. E se for mesmo? E se não for, e se naquele dia você só usou como desculpa pra desligar?
E se…
E se…
E se…

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__________

Estava ficando longo demais e acabei terminando às pressas, sem nem revisar. Desculpem. Um dia eu retomo, enxugo e ponho um final melhorzinho. Um dia.

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6 respostas para Não vai dar não [final]

  1. Pingback: Não vai dar não [1] | Ágora com dazibao no meio

  2. Muito bom Ricardo, o seu conto ficou com um sotaque carioca muito gostoso e contemporâneo, principalmente a parte do vizinho com as “festinhas regadas a pó, funk e travecos ” e o “verão senegalense”!

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    • Ricardo C. disse:

      Aceito a parte do sotaque, Alexandre, e a do vizinho e do verão também. Mas tenho total consciência de que não é nem um pouco literatura, é só um post feito às pressas misturando ficção e não-ficção, que poderia ser feito com mais cuidado, isso com a autocrítica na medida certa, sem exageros. Gosto da ideia, gosto do humor acariocado, mas falta muito pra ser bom de verdade.

      Abração, contente pela tua visita

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  3. Pingback: Ricardo C.

  4. Nhé disse:

    Ficou muito bom o desabafo paranóico do rapaz!
    Mas será que ele nunca atentou às estatícas que apontam um cresecente número de pessoas que morrem sem ar ao falar tanta coisa sem uma pausa??
    😀

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