Não vai dar não [1]

– Alô, gostaria de falar com Fulano.
– Quem deseja?
– É Sicrano.
– Sicrano? Nossa, há quanto tempo.
– Uns bons vinte anos, né? Mas tô de volta, o bom filho à casa torna.
– Então seja bem-vindo.
– Bom de ouvir, meu camarada. Aliás, a primeira coisa que fiz questão de arranjar foi o teu telefone. O Mengano me deu.
– Mengano, só podia.
– E ele me contou que faz um tempão que não te vê, que você sumiu do mundo e quase não sai de casa. Que história é essa?
– É conversa longa, por telefone é complicado.
– Então tá aí o pretexto pra gente se encontrar. Pode ser amanhã, meio-dia e meia, lá no Serafim? Você gostava muito da rabada de lá. Bóra, aí você me conta essa história. Ah, o Mengano também me falou que nos últimos anos você andou estudando filosofia da mente. Cabeçudo você, hein? Desse assunto eu não sei quase nada, só li uma ou outra coisinha. Conhece um tal de Daniel Dennett? Dizem os entendidos que o cara manda bem.
– Conheço, meu mestrado foi sobre ele. Falei justamente sobre sua teoria dos sistemas intencionais. Por sinal, foi ali que começou o meu bode. Lembra da Beltrana? Aquela que morava no teu prédio e de vez em quando o pai dela dava carona pra gente ir pra escola? Pois a gente casou pouco depois daquela época, pra minha sorte. Eu só consegui defender a dissertação porque ela me enfiou dentro do carro e me levou até a universidade.
– Que doideira, meu amigo. Me conte isso tudo com detalhes lá no Serafim, traçando aquela rabada.
– Rapaz, não vai dar não.
– Ué, se não pode amanhã, então depois de amanhã.
– Tá difícil. E a culpa é do Dennett.
– Como assim?
– Você tá familiarizado com a teoria dos sistemas intencionais?
– Não exatamente. Dá uma palinha?
– Pera aí que eu vou pegar uns fichamentos da época da tese… Pronto. Xô ver… seguinte: tem uma coisa que a gente faz o tempo todo na vida, que é tentar predizer o comportamento dos outros, né?
– Não sei disso não.
– Claro que sabe. Por exemplo, você ligou pro meu telefone na expectativa de falar comigo, provavelmente com a ideia implícita de que se eu estivesse em casa e continuasse sendo o sujeito que você conheceu vinte anos atrás e que por sinal sempre atendeu ao telefone, nós acabaríamos conversando, não?
– Bom, não tinha pensado em nada do gênero, mas seguindo o teu raciocínio, devo reconhecer que isso tudo devia estar mesmo implícito na hora em que liguei, e que de fato esperava conseguir conversar com você.
– E a menos que algo muito esquisito, improvável ou doido tivesse acontecido, você não tinha motivos para pensar diferente do que supunha que iria acontecer, né? Pois é aí que entra o Dennett. Ele diz que pra fazer o que a gente faz implícita ou explicitamente, ou seja, pra tentar entender, explicar e predizer o comportamento de qualquer pessoa, assim como também o de qualquer bicho, estrutura, enfim, qualquer coisa, nós costumamos usar três posturas: a primeira é a postura física, a segunda é a postura de planejamento ou projeto e a terceira é a postura intencional.
– Ahn?!?
– Calma, vou explicar, é só ouvir tudo e você vai entender.
– Tá bom, continue.
– A tal da postura física é quando a gente tenta prever o comportamento de uma coisa em função do nosso próprio conhecimento das leis físicas e das propriedades da própria coisa. E vou logo te dar um exemplo porque aposto que você tá com cara de ponto de interrogação.
– Tô mesmo.
– Hehe. É o seguinte. Imagine que você tá num parque de diversões e quer ganhar um daqueles bonecos de pelúcia pra dar pra sua namorada, e pra isso precisa derrubar uma pirâmide de latas com uma bola de pano. Imaginou? Bom, pra derrubar tudo, você ou qualquer um acaba fazendo uma espécie de cálculo que leva em consideração, além da própria pontaria, o peso da bola, a distância das latas e a força do braço, né?
– Mais uma coisa que eu não tinha pensado… É, acho que você tem razão.
– E o curioso é que serve pra qualquer coisa que você jogue na direção das latas, seja a bola de pano, um gato preto ou a sua sogra, que deve ser igual à maioria.
– Pô, não sacaneia a minha sogra, ela é do bem.
– Tá, que seja, mas você entendeu, né?
– Entendi. Mas continue, que ainda não sei onde é que você quer chegar.
– Bom, a postura física é assim, ou seja, usamos suposições que têm a ver com certos conhecimentos da física, que por sinal a gente nem precisa ter ido à escola para saber sobre, e com esses conhecimentos tentamos predizer o comportamento da maioria das coisas. Só que, por outro lado, pra saber o funcionamento do relógio pra onde você deve estar olhando agora e pensando a que horas eu vou acabar essa explicação toda, provavelmente a postura física não seja a melhor, e valha a pena recorrer à postura de projeto.
– Vou fazer de conta que não ouvi essa gracinha, tá? Vá, explica isso da postura de projeto, eu deixo você usar esse relógio imaginário daí.
– Bom, seguindo com o relógio e supondo que você não queira jogá-lo em alguém, especialmente em mim, imagine que ele seja um desses digitais cheios de frescuras, botões e marcadores de tudo que é jeito e que você nunca viu igual. Talvez você nunca chegue a conhecer todas as funções dele sem ler o manual, mas o grosso do que ele faz garanto que sim. Porque uma coisa é certa: ele é um relógio, então serve pra informar as horas, e por ser digital deve a usar eletricidade de baterias, pilhas ou ser ligado na tomada. Ou seja, ele foi projetado para algo que você conhece, e por isso mesmo espera que ele funcione de acordo com esse projeto, concorda?
– Apesar dos relógios com mil e uma utilidades, ainda não conheci um que tenha se esquecido de informar as horas. Pronto, concordo.
– Então é isso, o relógio vai marcar as horas, o congelador vai gelar as suas cervejas, a campainha vai tocar quando você apertar o botão, tudo de acordo com o que está previsto nos seus respectivos projetos. Você pode não conhecer esses projetos em detalhe, porque provavelmente não vai ler os manuais como a maioria das pessoas. Mas isso não importa, já que pra você todas essas coisas vão se comportar como está previsto para cada uma delas.
– Verdade, nunca liguei o aspirador de pó esperando ouvir um samba do Cartola. Mas continue.
– Falta só a postura intencional, que a gente usa pra entender e predizer o comportamento de seres mais complexos do que a minha torradeira e o seu relógio. Seres humanos, por exemplo, desde que nenhum deles seja o meu vizinho lutador de jiu-jitsu, é claro.

(Continua…)

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22 respostas para Não vai dar não [1]

  1. c* disse:

    continua quando ???

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  2. c* disse:

    vai demorar ?

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  3. c* disse:

    puxa, so agora vi que o post data de ontem…vai demorar né ? :(((

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  4. c* disse:

    bem, ja que vamos esperar, da tempo de descobrir a hp do prof dennett :

    http://ase.tufts.edu/cogstud/incbios/dennettd/dennettd.htm

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  5. c* disse:

    rc, eu ia te ligar mas desisti…vc deve estar ai esperando o primeiro telefonema pra torturar a tal pessoa com posturas de projeto…=))

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  6. Muito bom! Agora fiquei curioso para saber a continuação da postagem e ler mais sobre “Daniel Dennett!

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  7. Monsores disse:

    Ricardo, que chegue sábado.
    Se possivel, me passe o numero do telefone novo também. Tentei te ligar hoje e não consegui. Baita coincidência entrarmos nesse assunto.

    E se possível, me diga um horário adequado pra te ligar as well. Mas não se preocupe, acabou se resolvendo o que queria ver com você. Depois te conto com calma.

    C*, saudade!!!

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  8. Monsores disse:

    E antes que você se engane, eu não consegui porque EU não tive tempo. Dia corrido. Abraço!

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  9. c* disse:

    puxa, so sabado ??? :((

    drezin, vem ca querido !

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  10. gugaalayon disse:

    Nem me dê seu telefone que não vou ligar não. Filósofo só em bar, por telefone é fueda.
    ahaha
    abç

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  11. Nhé disse:

    Maldito seja, seu Cabral! Quando vai ter essa continuação?
    E se eu morrer antes?
    E se eu ou você ficarmos digitalmente excluídos até lá?
    Por que vc brinca com o sentimentos das pessoas dessa maneira??

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  12. André Egg disse:

    Vou engrossar a choradeira. Não devia começar o negócio e deixar os leitores esperando tanto tempo assim…

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    • Ricardo C. disse:

      Tem razão, André, devia ter guardado e lançado um depois do outro, talvez com no máximo 24 horas de intervalo. Agora, só na próxima. De qualquer forma, tá lá, mal ajambrado. Mas as ideias que eu queria pôr no post estão todas lá. Só achei o final mal acabado, fruto da pressa e da falta de saco de revisar.

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  13. Hoje é sábado! E aí? Han?

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  14. Pingback: Ricardo C.

  15. Pingback: Não vai dar não [final] | Ágora com dazibao no meio

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