Foi quinta-feira passada

Uma quinta qualquer na rotina de um hospital público, meio pobre, meio descascado, meio velho, condição semelhante à de inúmeras instalações hospitalares do país.

Vamos?, disse o doutor P. E lá fui eu assistir à minha primeira intervenção cirúrgica, pela também primeira vez na condição de espectador e não mais na de paciente, coisa que experimentei umas quatro vezes na vida, pelas contas rápidas que fiz ainda agora. Mentiria descaradamente se dissesse que não estava nem um pouco apreensivo com o que me esperava. Mentiria também se contasse de algum tipo de excitação maior, dessas de tele-série ao estilo E.R., com direito ao coração do residente batendo, acelerando a cada minuto e abafando todos os sons ao redor até ser interrompido por um Clear! um pentelhésimo de segundo antes do desfibrilador desferir o primeiro choque, seguido por pelo menos mais dois, e, com tudo dando certo, sem escutarmos time of death, 22’45”, por sorte não desta vez.

O contexto é outro, nada de dramas televisivos no ar. E.R.? Passou longe, só lembrei dele agora. Era perto de onze da manhã quando entrei num cubículo cheio de cabides e com um enorme balde com algumas calças e jalecos usados ocupando um terço do espaço. (Eu não falei que era um cubículo?) Dr. P pegou dois pijamas cirúrgicos devidamente esterilizados e ensacados, cada um contendo também um par de propés, e me passou um. Para minha sorte o que recebi era do meu tamanho; para o meu azar, consegui estourar o elástico de um dos propés na hora de calçá-los, vergonha, vergonha, vergonha. Lá fui eu atrás do dr. P, já com a minha touca e máscara devidamente colocadas, tratando de enfiar as sobras de tecido do propé para dentro do tênis, enquanto chegávamos à sala onde se encontravam quatro pacientes esperando a hora de suas respectivas cirurgias, todos bem acordados e estranhamente tranquilos. Estranhamente para mim, é claro, pois lembro bem do meu nervosismo numa das minhas próprias cirurgias, especialmente por chegar ao centro cirúrgico sem nem sinal do efeito narcótico que a anestesista me prometera, ver toda a equipe ao meu redor se preparando e ter que perguntar, já quase desesperado, ei, não vou dormir não?, enquanto amarravam os meus braços nas tábuas almofadadas que me davam um aspecto nem um pouco agradável de Cristo na cruz… Mas já estou falando de mim e não dos outros, vergonha, vergonha, vergonha, então bora voltar à história.

A senhora E era a primeira das quatro que o dr. P operaria. Digo operaria, porque só tive tempo de assistir à da senhora E mesmo, e nem perguntei ao dr. P como correram as outras três quando me encontrei com ele hoje à tarde, no shopping, o pobre cheio de sono depois de uma jornada de compras com mulher e filha, atividade certamente muito mais exaustiva do que usar o bisturi, pensei cá com os meus botões. (Eu, num shopping, domingo? Mas isso é outra história.)

Saímos daquele espaço e fomos para a sala 2, onde o dr. P operaria. Ao que parece seriam intervenções relativamente simples para ele, durando em torno de uma hora cada uma, se tudo corresse sem nenhuma complicação. A primeira seria a retirada do cateter para diálise peritoneal da senhora E, que não lembro por que motivo parara de funcionar. De qualquer forma o novo acesso vascular estava funcionando bem, e ela já estava fazendo hemodiálise normalmente, três vezes por semana. Só que eu atentei para isso tudo bem depois. Naquela hora, meus olhos estavam passeando por todos os detalhes da sala 2.

As paredes eram enfeitadas por umas carinhas engraçadas, o que me fez supor que costumassem operar crianças nela — dúvida que guardei comigo, diga-se de passagem. O piso parecia bem gasto, mas estava limpo com deveria. Não fiz nenhuma análise bacteriana, então digo que estava limpo pelo menos para os meus olhos, que viram com detalhe as solas imaculadas dos propés na hora em que os joguei naquele balde enorme que ocupava um terço do cubículo do terceiro parágrafo. Os aparelhos também tinham ares cansados, mas pareciam funcionar direito. Desta vez trata-se mesmo de suposição, já que alguns deles nem foram usados. De qualquer forma o básico estava todo lá, como manda o figurino dos centros cirúrgicos.

A senhora E era veterana. Assim que entrou na sala e mudou da maca para a mesa cirúrgica, pude ver algumas de suas cicatrizes, aquelas que permaneceram aparentes ao longo do processo. Uma negra retinta, cabelos curtos puxados para trás, de quem não arrisco dizer a idade, se pouca ou muita. Vou chutar uns 45, imaginando-a coetânea minha. Mas pode que tivesse menos; os renais crônicos costumam envelhecer mais rápido que a própria idade.

Dr. P estava em casa, nadando de braçada. Mesmo antes dele falar do assunto com todas as letras, deu para ver como ele gosta de operar. Mas é bom deixar logo claro uma coisa: ele opera pessoas, não doenças. A senhora E, chamada por ele pelo nome, era avisada a todo instante sobre uma ardência ali, uma queimação acolá, uma sensação gelada, tudo para que não fosse pega de surpresa. Reclamou pouco, mais no finalzinho, mas saiu contente por livrar-se daquele tubo que saía do seu abdome. Afinal de contas, não já tinha posto um novo no pescoço?

E eu? Vi tudo, com detalhes. Vi a mim mesmo, ora olhando para os movimentos do dr. P, ora para o rosto da senhora E: quando fechava os olhos, quando olhava para a parede, para o teto ou para o nada. Vi o primeiro corte, depois das várias picadas da anestesia local. Vi a gordura, o sangue, a gordura, o músculo, o sangue de novo, e a fumaça do bisturi elétrico cauterizando os pequenos vasos, algumas fagulhas eventuais quando a corrente elétrica era passada através de uma das pinças, e o cheiro de carne queimada, por essa eu não esperava. Dr. P explicando tudo, conversando com a senhora E, elogiando a enfermeira que ficara para ajudar, mesmo não sendo a função dela naquele dia, e a parede do peritôneo logo ali, e o cateter finalmente solto, sem nenhuma das possíveis complicações em procedimentos como aquele, e a primeira sutura, pronto, não tem mais buraco no peritôneo, e mais uma cauterizada acolá, barulho de líquido borbulhando feito cafeteira de expresso na hora de ferver o leite para um macchiato, mas não se preocupe, senhora E, só me ocorreu isso agora e não na hora em que era o seu abdome sendo costurado mais uma vez, uma laço de um lado, um laço do outro, pontos invisíveis, daqueles de cirurgião plástico, a cicatriz não deve ficar muito aparente mesmo com a pele negra tendendo a cicatrizações bem altas, volta e meia queloides.

Olhei mais uma vez para a senhora E, arrisquei passar a mão sobre a sua cabeça. Não cheguei a me arrepender do gesto, mas vi que era por mim e não por ela, que nem pareceu dar bola. Talvez ela nem tivesse se importado caso eu tivesse pedido para fotografá-la “por dentro”; mas nem cogitei fazê-lo. Também já fui paciente, e fiquei indignado, ainda adolescente, com uma equipe de residentes acompanhando o médico que me operara e que me pedia para andar de lá para cá, apontando para o meu joelho. Apontando não,  reduzindo-me a um joelho. Eu não faria isso com a senhora E, tomando a mim mesmo outra vez como referência… (droga.)

Despedi-me do Dr. P, da enfermeira elogiada por ele, e agradeci por aquela oportunidade, por poder assistir àquela intervenção aparentemente descomplicada, por estar ao lado de uma paciente que vi tão cuidada e respeitada naquele hospital meio pobre, meio descascado, meio velho e com menos um propé no estoque, avariado pela minha imperícia. E se eu levar um novo para lá, será que eles aceitam?

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9 respostas para Foi quinta-feira passada

  1. Pingback: Ricardo C.

  2. Monsores disse:

    Só você pra conseguir fazer d’um tema como esses um texto tão bom de ler.

    Não tem parque de diversões por aí? Cinema? Boteco? Sinuca? Dominó? Pião? Cachoeira? Praia tem.

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  3. Pingback: Rafael Reinehr

  4. c* disse:

    ei rc…entrou em recesso carnavalesco ?

    esse “foi na quinta assada” é primoroso, belle plume…:)

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  5. c* disse:

    “passada” claro !

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