Zum de besouro um ímã

Domingo, 24 de janeiro de 2010, 22:51.

Quarto e último dia do Pré-Caju.
Se o destino, esse em que não acredito, permitir, o último da minha vida.
Ainda há pouco, entrava por tudo que é janela “Simbora ê, Simbora ô… lelelele ôo”, entoado por ela mesma, em carne e osso: dona Ivete.

[De digitar, a azia piora. E não tenho nem um salzinho de frutas por perto.]

Na sexta-feira, segundo dia do evento, imbuí-me do meu melhor olhar antropológico e resolvi assistir algumas horas — que pareceram dias — deste pré-Caju. Confesso que sou um péssimo antropólogo, pois mal começou a festa e capitulei, tratando de escafeder-me do apartamento em que me encontrava, com receio de não conseguir mais sair de lá rumo à casa. Mas não ajudou muito. A localização do prédio onde passo a temporada é privilegiada, e descobri que não apenas para o bem.

[A Ivete já foi embora, mas o massacre segue impiedoso. Creio que não tenho mais azia. Virou úlcera.]

Ontem a atração-mor foi Chiclete com Banana, que deixou grudado em meu cerebelo
Chicleteiro eu
Chicleteira ela
Chicleteiro eu
Chicleteira ela
Chicleteiro eu
Chicleteira ela
Libera, libera
Libera, libera…
(2x)

[Esse 2x é mentira. Foram dezenas, dezenas, dezenas…]

Já na quinta e sexta tocaram (sic) Timbalada, Claudia Leitte e outros tantos, tão violentos quanto. E no sábado, depois do Chiclete e de sei lá mais quantos trios elétricos, alguém descobriu onde me hospedo e só por isso estacionou um carro de som ao lado da minha janela, no décimo-sexto andar, com alto-falantes que mais pareciam saídos do baile do alto da Ladeira dos Tabajaras em dia de festa do chefe do tráfico da vez, tocando funks de alto teor ginecológico. Pararam quando o sol ia alto, lá pelas seis da manhã. Vai ver acharam que os raios solares estragariam o equipamento, ou então se recolheram porque eram vampiros, o assunto da moda. É só o que consigo imaginar.

[A Convenção da ONU para Armas Convencionais deveria ser revista e passar a tratar também de algumas não-convencionais. É sério.]

Por conta de uma espécie de descompensação — que espero termine no máximo à meia-noite —, acabei saindo do prumo e cometi algumas tuitadas. Autoanálise é coisa boa, e o registro se faz necessário para melhor elaborar o que experimentamos. Sendo assim, reproduzo:

“Pré-Caju me matou. Se fui atrás do Chiclete c/ Banana? Pirou? Tô morto por noite em claro: aqui é a sucursal do inferno (a sede é Salvador)”

“Daqui a pouco chega a Ivete Sangalo. Vou fechar as janelas. Não, não é p/ abafar o som: é puro receio da vontade de pular.”

“Começo a achar que Deus existe, e é o do Velho Testamento: o pré-Caju só pode ser um dos seus mais cruéis castigos.”

“Se o mundo termina em 2012 eu não sei, mas se eu presenciar o pré-Caju de 2011, o MEU mundo certamente vai acabar.”

“‘Aquele é o cara q criou o pré-Caju’, me disseram no restaurante. Sorte dele o meu primo segurar meu braço e tirar a faca da minha mão.”

“Concordo q é preciso discutir e combater todo esse ódio q viceja na internet, mas por favor, deixem o pré-Caju de fora dessa campanha.”

“Taquicardia, falta de ar, dor no peito, formigamento, visão embaçada, boca seca, sensação de iminência da morte: Síndrome de pré-Caju”

E para terminar, ponho em anexo um fragmento que mal reflete o massacre a que meus ouvidos tem sido submetidos desde quinta-feira à noite. Não estranhe o som inicial de Franz Ferdinand nesse meu arremedo de plano-sequência. É só para temperar o caos, enquanto as ânsias de vômito começam a refluir com
Eu quero mais é beijar na boca
Eu quero mais é beijar na boca (eu quero mais)
Eu quero mais é beijar na boca
E ser feliz daqui pra frente… pra sempre
(2x) [Esse 2x é mentira. Foram…]

Ivete foi mesmo embora, mas Claudia Leitte voltou, e agora tem alguém cantando essa aí de cima, que é da Claudia Leitte. Meia-noite e trinta e cinco, nem sinal de que o pesadelo vai acabar. Dá licença mas eu vou ali, certificar-me que as janelas seguem bem fechadas.

.

httpv://www.youtube.com/watch?v=qxn105rupwI

Anúncios
Esse post foi publicado em vídeos e marcado . Guardar link permanente.

22 respostas para Zum de besouro um ímã

  1. Pingback: Ricardo C.

  2. Pingback: Gwin

  3. Nhé disse:

    Texto delicioso!
    Rolando de rir aqui na sala!
    E morrendo de pena de você.
    😉

    Curtir

  4. Luiz disse:

    O que eu tinha de falar sobre esse tipo de desgraça já falei lá no Hermê.

    Venho apenas constatar que o seu caso foi, como você mesmo sugeriu, de exposição a armas não convencionais de variados tipos e sem nenhuma proteção.

    Talvez seja o caso de chamar a 82nd Airborne, que está no Haiti…

    P.S. Meu moleque é doido: vai passar 15 dias em Salvador, incluindo o Carnaval.
    O que o amor não faz…

    Curtir

    • Ricardo C. disse:

      Luiz, foi o cão. Estou sonado, talvez me recupere só daqui a 3 dias. E você ainda tem o Fortal? Se for como o pré-Caju, só posso te dizer meus pêsames…

      E deixe o teu moleque ser exposto a todo tipo de experiência, inclusive algumas nefastas. Ele vai sair fortalecido 😛

      Curtir

      • Luiz disse:

        Ricardo, o pior do Fortal, de algum tempo pra cá, nem é tanto a barulheira (a área é mais isolada), mas o massacre que ocorre na mídia local durante mais de 1 mês. Você procura fugir mas não tem jeito, é Fortal e seus “destaques” a torto e a direito.

        Como sempre é na penúltima semana de Julho, venho procurando nos últimos 2 anos ajustar minhas mirradas férias para mesma época, e me exilo fora da cidade.

        Quanto ao moleque, reafirmo, o amor é f…

        Curtir

  5. Guil Kato disse:

    Como eu não posso deixar de implicar… quem mandou ir para o Nordeste? rs
    Mas eu sei bem que tortura é essa, pior que aquela que os chineses inventaram das gotas na testa. Por aqui, no 44º andar do Swissôtel (assim mesmo com essa grafia), com as janelas hermeticamente fechadas por causa da poluição chinesa, a única coisa que se ouve – além de uma musiquinha cacete toda vez que ligo a TV (Swissôtel, Swissôteeeel…) – são muito distantes fogos de artifício já antecipando o ano-novo chinês que, para brasileiros morrerem de inveja, tem um feriado que dura duas semanas direto.
    Eu ainda vou permanecer nessa terra por mais uma semana e não aguento mais ver chinesinho pulando na minha frente para ser gentil. Só para mostrar que todo excesso vira tortura. Pelo menos estou sendo bem pago pela minha…

    Curtir

    • Ricardo C. disse:

      Nordeste é ótimo, Guil, deixe de ser invejoso você! 😉

      E fica por aí até quando? Vá começando a escrever sobre as experiências, porque só fotografar não vale, viu?

      Abração

      Curtir

  6. Alba disse:

    Ricardo,

    Meus sentidos pêsames. Mas sobra um mistério. Por que será que estrangeiros são tão fascinados pelo baticum do axé ? Descobri isso há muitos anos numa viagem em que havia um grupo de italianos.

    No mai, te mando um link que achei bacana, de um blog que descobri hoje:

    http://blogs.estadao.com.br/sinapses/jazz-loucura-e-criatividade/

    Música da melhor qualidade.

    Salve, conterrâneo. Tava bem divertido aquele debate no Hermê.

    Curtir

    • Ricardo C. disse:

      Esse baticum é contagiante pra quem só tem aquelas musiquinhas insípidas da idade média como base cultural, Alba. Aquelas danças ficam bem bonitas em filmes, mas eram tão tediosas que aguçavam o desejo dos nobres por conspirações palacianas. 😉

      Curtir

  7. Kleyton disse:

    É (quase) tudo mentira!
    Ele comprou um abadá do Nana Banana e foi atrás do Chiclete.
    Não satisfeito de estar morando a 200m do corredor da folia, mudou-se para um prédio na avenida principal no período da festa para ver tudo de cima (o vídeo magnífico que acabamos de assitir é a prova disso).
    E o melhor de tudo… ganhou um autógrafo do ‘rei da noite’ em pleno almoço do domingo e foi curtir a última noite no camarote oficial do evento. O guardanapo rabiscado está agora guardado a sete chaves.
    A verdade fica por conta da Ivete, já que ele prefere a Margareth Menezes.

    Curtir

    • Ricardo C. disse:

      E o que é que eu posso responder depois de uma dessas? Pronto, me desmascararam, esse meu queixume foi tudo gênero!

      Mas primo, obrigado por me salvar da cadeia. Se não tivesse tirado a faca da minha mão, provavelmente não estaria respondendo o teu comentário. Se bem que talvez o pré-Caju deixasse de acontecer… Não, melhor parar de pensar nisso e ficar alguns dias longe de instrumentos perfurocortantes.

      😛

      Curtir

  8. c* disse:

    estou me sentindo anormal por curtir axé e outros ritmos tipicamente nossos !

    ivete nem em sonho, mas batucada, timbalada, afoxés, pagodes e outras etnias, adoro !!

    falando em ritmos brasileiros, aqui japoneses curtindo pagode…nao deixem de ler a “traduçao” :

    Curtir

    • Ricardo C. disse:

      Não se sinta não, c*, de longe talvez eu curtisse. O problema é o volume, a gritaria, o cruzamento de sons de diversos trios competindo pra ver quem tem o equipamento mais potente, cujo resultado fica zumbindo no nosso ouvido durante dias. Sem falar em como as músicas se parecem, além das danças serem as mesmas, com alguma micro-variação só pra justificar um novo nome. Mas só estando direto por aqui pra no mínimo relativizar a alegria da festa. No meu caso, na palavra “alegria”, pegue a letra r e coloque antes do g. Tô me coçando até hoje, hehehe!

      Curtir

  9. c* disse:

    rc, seu titulo é uma obra prima

    “zum de besouro um ima” !

    kkkkk

    Curtir

    • Ricardo C. disse:

      O Colafina também se lembrou dessa música do Djavan, e me diverti bastante colando essa frase no post. Quando comparado ao meu tormento, o título é nonsense puro, né?

      Curtir

  10. Colafina disse:

    confetti*, o que o Ricardo não disse é que branca é a tez da manhã! 😀

    Curtir

  11. c* disse:

    pois é cola e rc, como nao reconhecer o estilo tao pessoal de djavan !

    gosto dele, muito ! lembro de ter passado meses ouvindo “eu te devoro “:

    “Teus sinais me confundem da cabeça aos pés
    Mas por dentro eu te devoro
    Teu olhar nao me diz exato quem tu és
    Mesmo assim eu te devoro
    Te devoraria a qualquer preço
    Porque te ignoro, te conheço
    Quando chove ou quando faz frio
    Noutro plano
    Te devoraria tal Caetano a Leonardo di Caprio

    um milagre tudo que Deus criou pensando em voce
    Fez a Via Lactea, fez os dinossauros
    Sem pensar em nada fez a minha vida e te deu
    Sem contar os dias que me faz morrer
    Sem saber de ti, jogado solido
    Mas se quer saber se eu quero outra vida, nao, nao

    Eu quero mesmo viver
    Pra esperar, esperar devorar voce ”

    lindo né ?

    Curtir

  12. c* disse:

    ( rc, seu celular ta fora de area né…:-((

    Curtir

  13. Alguém aí sabe explicar o verdadeiro sentido dos “versos”:

    “Ele não monta na lambreta
    Ele não monta na lambreta
    Ele não monta na lambreta
    Ele não monta na lambreta”

    Deve haver um significado oculto, uma verdade insofismável, uma revelação nessa pérola do nefasto Chiclete com Banana (devia ser de dinamite). Custa-me crer que tais palavras signifiquem apenas “ele não sobe na motocicleta”.
    Enquanto isso, músicos como o pianista Hélvius Vilela morrem sem que a mídia canhestra e imbecilizante dê uma nota de rodapé ao menos!

    Curtir

    • Ricardo C. disse:

      Érico, só posso concordar contigo. Quantos como o Hélvius já não se foram sem direito a um obituário sequer, enquanto essa porcariada fica arrebentando os ouvidos da gente…

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s