O resgate da brigada de Yuri [El País]

ATUALIZAÇÃO: o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (ICRC, sigla em inglês) pôs no Family Links Website uma seção exclusiva para o Haiti, que atende tanto aos que buscam parentes quanto aos que estão por lá e querem comunicar que estão vivos. Clique no linque: Locate your relatives

Embora não tenha parentes ou conhecidos por lá, repasso a informação.

*  *  *  *  *

São histórias que se repetem com incrível frequência. (São histórias que seguirão se repetindo.)

Alguns resgatam anônimos dos escombros; outros cuidam da própria sobrevivência; terceiros saqueiam. O futuro não existe, só o presente.

Segue abaixo uma reportagem que lembra um pouco do que presenciei no México, em 1985. Traduzo, embora acredite que a maioria entenda o espanhol sem maiores dificuldades.€$$$.

Antonio Jiménez Barca (enviado especial) — Porto Príncipe — 17/01/2010 [El País]

Em meio ao caos das ruas bloqueadas por saqueadores, dos prédios que viraram purê e de milhares de pessoas caminhando para lá e para cá feito formigas buscando água e comida, um velho caminhão russo avança com uma brigada de homens vestidos com macacões de soldador: pertencem a um grupo de resgate anárquico e eficaz, proveniente de Moscou, especializado em tirar pessoas vivas sob os escombros. Sábado à tarde foram vistos circulando por uma avenida de Porto Príncipe e alguém lhes mostrou uma casa partida em dois:

Ei, tem gente viva ali!

São os próprios haitianos que muitas vezes alertam as equipes de salvamento sobre haver gente viva embaixo das casas. Em tese, todas as manhãs ocorre uma reunião no centro de controle de resgate, localizado no aeroporto, em que um determinado bairro é designado a cada equipe de socorro. O grupo russo vai a essas reuniões, mas depois escolhe o seu caminho de um jeito próprio, deixando-se guiar pelos alucinados habitantes da cidade.

– Tem gente viva ali!

A rua é estreita, pequena, um tapete de escombros, prateleiras destroçadas e tijolos. De um lado, uma casa partida em dois, inacreditavelmente inclinada. As pessoas apontam para um buraco estreito que exala um cheiro adocicado de cadáver. Os membros da equipe russa começam a abrir caminho. São quatro horas da tarde. Uma multidão se forma ao redor. Numa casa próxima, achatada como se fosse de papel e alguém tivesse esmagado com uma marreta gigante, três jovens haitianos subiram no telhado inclinado e partido. Carregam um serrote, uma picareta e uma corda. Gritam que ali tem gente viva, mas o fazem rindo.

Enquanto isso, os russos se arrastam feito cobras pelo buraco e entram na casa. O pouco que sobrou virou um labirinto de quase dois andares de escombros, paredes e móveis, que parece sustentar-se no ar por uma linha invisível. A impressão que dá é que qualquer lufada de vento acabará derrubando a estrutura improvisada que mantém aberto o buraco por onde os russos continuam se metendo.

– São duas pessoas: uma moça e um menino, diz um dos salvadores.

– 15 pessoas viviam aí, replica um vizinho.

Na casa próxima, os três jovens sobre o telhado tiram lá de dentro um frasco de xampu e uma panela vazia e mostram a todos os que olham para eles, rindo sem parar.

Com seus macacões de outra época, seus capacetes de operário, seus tênis esportivos ou suas antigas botas de milico, os russos não parecem a equipe de resgate mais moderna ou mais bem vestida do mundo. Não usam distintivos brilhantes, nem logotipos de grife, nem casacos de cores berrantes ao extremo feito muitos dos grupos que vieram ao Haiti de todos os cantos do planeta. Yuri é alto, forte, louro, com um bigode de Asterix e uma ânsia compulsiva de fumar. Tem 45 anos e é de Moscou. Observa seus companheiros esgueirando-se pela caverna em que se transformou essa casa e confirma que dentro dela há duas pessoas vivas. No sábado completaram-se cinco dias desde o terremoto. Em tese, não era para mais ninguém continuar vivo, levando em conta o calor que tem feito em Porto Príncipe nos últimos dias, além do fato de não ter chovido, impedindo que os soterrados tivessem acesso a água.

– São duas pessoas: uma moça e um menino, diz Yuri, jogando o cigarro contra o que sobrou de uma pilastra.

Às sete já é noite. Os caras do xampu e da panela já levaram tudo o que podiam. Os russos continuam lá embaixo. A equipe se agita. Se ouvem gritos em russo, gemidos. Um especialista entra com uma maca.

Subitamente, iluminada por um facho de luz alimentado por um gerador, surge do buraco, estendida numa maca de metal, uma garota de uns 15 anos, olhos revirados, semi-inconsciente, a boca retorcida, o cabelo branco de poeira, a camiseta amarela manchada de barro. Tiram-na daquele beco a gritos empurrões, deitando-a na avenida. A garota se sacode numa convulsión. Yuri grita en inglês “Água!, água!, alguém traga água!”, e milagrosamente aparece una bolsinha de água que alguém rasga, abre y derrama sobre a boca da enferma. Esta se sacode de novo, se contorce, tosse, vomita, se queixa, revive, nasce outra vez: chora e diz num fio de voz, “Graças a Deus, graças a Deus”. Alguém lhe pergunta si há mais pessoas de sua família ainda vivas embaixo da casa e ela responde: “Não, sou só eu”.

Não é verdade. A alguns metros dali, Yuri, exausto, con el macacão de soldador coberto de poeira, diz para seus companheiros, tão cansados como ele:

– Vou fumar um cigarro e a gente tira o outro, tá legal?

Numa cidade normal, a história acabaria aqui. Em Porto Príncipe não; en Puerto Príncipe, estas histórias não terminam nunca. Hoje, um dia depois do resgate, a garota se encontrava deitada sobre um cobertor sujo, num hospital improvisado, sem médicos nem remédios, localizado num lodaçal, cercada de lixo. Uma galinha marrom asquerosa ciscava perto de sua cabeça.

Outra sobrevivente do terremoto definha ao seu lado, cabelos desgrenhados e olhar de louca, e perderá seu pé direito porque o ferimento gangrenou por falta de um antibiótico que na Espanha se consegue quase de graça. A garota resgatada por Yuri mostra aos que a visitam a barriga vermelha de sangue e logo se cobre com um lençol sujo, contorcendo-se de dor. Não há calmantes disponíveis. Ninguém disse a ela que talvez seu irmão esteja em outro hospital, que talvez esteja vivo. Não espera nada. Não sabe nada. Apenas repete una coisa, e desta vez diz a verdade:

– Não lembro de nada. Não tenho nada. Dói muito.

Como esses russos, há também mexicanos, belgas, chineses, canadenses, israelenses e de outras tantas nacionalidades que sempre se lançam assim que surgem notícias de tragédias de grandes proporções como essa do Haiti. Alguns têm apoio explícito dos governos de seus respectivos países, enquanto outros vão por sua conta e risco. Saúdo a todos, respeitosamente.

[Tradução: Ricardo Cabral. Erros grosseiros na tradução (apressada e sem revisar), no português ou, na melhor das hipóteses, na digitação, também são de minha lavra.]

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