Sei não…

Numa caixa de comentários, o Rodrigo Cássio comentou:

A análise da “sensorialidade” que orienta a experiência social neste momento do capitalismo é de grande importância, a meu ver. O cinema hollywoodiano depois dos anos 1970 é altamente sensorial, basta observar a importância dos efeitos especiais ou do impacto sonoro para que os filmes “funcionem”.

Com a recente retomada do 3D no cinema — de que Avatar extraiu o máximo possível até o momento —, os sentidos cinestésico e vestibular somaram-se aos visual e auditivo na experiência de ver um filme. (O paladar já estava fortemente envolvido com a pipoca, o refrigerante e os doces.) Falta só acrescentar o olfato1 para ajudar a achatar de vez a perspectiva do devaneio e da reflexão que muitos filmes ainda provocam em nós, não é?

O que quero dizer com isso? Ora, que o olfato é mesmo o nosso sentido mais primitivo — não é juízo de valor… bom, faça de conta que não é —, mais ligado às nossas emoções básicas, aquele que menos damos conta de controlar, e que também é inebriante, hipnótico. Não é à toa que desde pelo menos a década de 50 do século passado milhões vem sendo aplicados numa área conhecida como marketing sensorial, da qual faz parte o marketing olfativo, e há gente que não acaba mais ganhando com isso, ou melhor, lucrando ou querendo lucrar com os nossos narizes.

“Os cheiros ficam gravados no cérebro humano de um jeito extremamente durável”, explica Aurélie Duclos, pesquisadora em marketing olfativo. “Eles são estocados no nível do sistema límbico, sob a forma de emoções ligadas ao contexto no qual marcaram o sujeito. Se a pessoa sente outra vez um desses odores, ela volta a mergulhar na experiência vivida antes.”2

Bom, e o que o cinema teria a ver com isso? Até onde tenho notícias, não muito ainda — ao menos nada que se pareça com o que a indústria dos jogos eletrônicos parece a caminho de fazer3, essa sim a cada dia mais sedutoramente sensorial e hiper-realista. Mas do jeito que acordei pessimista em relação à espécie humana, algo me diz que essa onda de supervalorização corporal deixará ainda menos espaço para um cinema mais autoral, (eventualmente) intimista, (relativamente) independente, que inquiete, perturbe, sobretudo por não oferecer apenas sensações primárias, soluções fáceis ou “finais fechados”. Salvo honrosas exceções, não duvido que o lucrativo filão do estímulo sensorial mais básico vire regra, com o auxílio luxuoso das TVs logo logo também em 3D. O que não me deixa mergulhar completamente no pessimismo é saber da criatividade humana, essa mesma que surpreende qualquer pretenso futurólogo que tente vaticinar o fim disto ou a morte daquilo.

Ah, ainda no tema dos sentidos, não pensem que esqueci de falar do tato. É que ele já faz parte da sala escura do cinema desde sempre, especialmente quando se vai assistir a um filme bem acompanhado, e nem é preciso que o espetáculo seja bom ou ruim para que ele entre em ação.

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_________

1 Falta não, e não apenas pela sua conexão direta com o próprio paladar. Há em parques de diversões mundo afora salas de cinema onde se sente cheiro de pólvora após explosões, de borracha queimada quando surge a imagem da arrancada de algum carro, por exemplo. Mas isso tudo é restrito, até o presente momento ainda não foi incorporado de forma maciça ao cinema.

2 MAZOYER, Franck. A fábrica do desejo. Le Monde Diplomatique, abril 2008.

3 Idem.

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10 respostas para Sei não…

  1. Ricardo,

    Por ligeira coincidência, o mais recente texto de meu blog menciona algo sobre signos (semiológicos, claro) teatrais e a miséria do panorama teatral na atualidade.

    Como você, acredito que as táticas sensoriais servem como capa para disfarçar a ausência de qualidade artística das produções cênicas, tanto no cinema como no teatro.

    Os recursos tecnológicos, apregoados como avanços no rumo da “obra de arte total” redundam em total ausência de arte.

    Wagner teria ódio ao perceber a apropriação claudicante de seu conceito. Só restou a intenção totalitarista.

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    • Ricardo C. disse:

      Pois é, nsca, tenho essa percepção mesmo. Lembro até do debate, tempos atrás, sobre aquela versão do Mel Gibson sobre a história de Jesus Cristo, caracterizada sobretudo pelo jorro de sangue e tripas com zero sutileza, bem diferente, por exemplo, da adaptação do Scorcese do livro A última tentação de Cristo, do Kazantzákis (que nem achei essa coca-cola não). O impacto sensorial mais básico pode até ter suas dificuldades tecnológicas para ser levado à tela hoje em dia, tempo em que qualquer criança já nasce com videogame na mão, imerso em universos digitais. Mas com os 300 milhões de dólares gastos pelo James Cameron em Avatar, tudo é possível. (E o que não for, a parcela desses milhões a ser gasta com marketing se encarregará de dar conta.)

      O que considero lamentável é o descaso para com a sutileza, e tudo aquilo que demanda reflexão e um mínimo de cultura geral — o espectro inteiro, do popular ao erudito, vale dizer —, questões que exigem tempo e dedicação, ou seja, cultivo (de onde não por acaso deriva a palavra cultura).

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  2. Pingback: Ricardo C.

  3. Ricardo, né por nada não, mas me lembro muito mais claramente (de forma visual, inclusive) dos locais (pousadas, restaurantes, consultórios, residências, lojas) em que recebi bons estímulos olfativos. Bons cheiros e memórias visuais… Confere aí em Aracaju?

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    • Ricardo C. disse:

      Confere, RR, inclusive o fato de Aracaju ser muito mais limpa do que o Rio, por exemplo, apesar de ter muito menos lixeiras nas ruas e garis varrendo-as.

      Aliás, você me fez lembrar a falta que sinto do cheiro da feira na praça do Bairro Peixoto — menos da parte onde ficam os caminhões que vendem peixe —, que me faz sentir em casa. Ou seja, a xepa é a minha madeleine, hehehe!

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  4. andreegg disse:

    Acho que logo vamos chegar ao cinema imaginado por Huxley em Admirável Mundo Novo.

    O cinema autoral continua firme, ajudado também pela tecnologia que barateia a produção e a distribuição.

    Eu continuo esperançoso.

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    • Ricardo C. disse:

      No fundo eu também, André. Só que a perspectiva de ver esses filmes em amplas salas de cinema, com som de qualidade, é cada vez menor.

      Parece que esses espaços estarão cada vez mais reservados aos blockbusters, e os cineclubes daqui a pouco serão tão somente a sala de estar da casa dos amigos, com aquele home-theater comprado em 30 vezes nas Casas Bahia fazendo o papel de projetor. E, convenhamos, não tem o mesmo charme, né?

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  5. andreegg disse:

    Restam as fundações culturais, as salas de instituições como o Goethe Institut, as salas Unibanco (se o Itaú não fechá-las), as mostras e festivais.

    Já faz muito tempo que o bom cinema vive disso.

    Os cinemas de rua acabaram no tempo do vídeo-cassete. Sobraram os de shoping.

    São uma merda.

    Minha experiência cinematográfica é uns 50% em casa mesmo (que medíocre, né?)…

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  6. Pessoal,

    Os cineclubes estão em um momento de revitalização no Brasil. Estou acompanhando isso de perto, como cineclubista responsável por oficinas do Programa Cine Mais Cultura, do MinC, em Goiás. Há um novo contexto de associação entre o Estado e os cineclubes. É difícil dizer o que vai resultar disso, mas há transformações em vista. A luta contra a hegemonia das majors é complexa e difícil, mas fatores como o perecimento da noção de direitos autorais são promissores.

    É difícil prever os caminhos do cinema hegemônico em aspectos minuciosos, mas eu sempre aposto no aumento do realismo e de tudo mais que torne insaparável a sensibilidade estimulada pelo cotidiano da sensibilidade estética. A equação é a seguinte: nossas vidas urbanas cada vez mais fragmentadas e velozes, a publicidade cada vez mais agressiva, e os filmes acompanhando tudo isso. É a subjetividade do consumidor que orienta a indústria do cinema.

    Abraços!

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    • Ricardo C. disse:

      É difícil dizer o que vai resultar disso, mas há transformações em vista. A luta contra a hegemonia das majors é complexa e difícil, mas fatores como o perecimento da noção de direitos autorais são promissores.

      Eu gostaria de apostar na pulverização estética, no pluralismo, no cinema periférico e de qualidade — e para isso a tecnologia atual só ajudou. Mas ao mesmo tempo não posso deixar de notar que o tempo das grandes salas acabou, e que eu gostava delas da mesma forma como gosto dos cineclubes em que apurei o meu gosto cinematográfico. Pelo menos que estes últimos não morram, Rodrigo e André, é o que desejo.

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