Os críticos também amam

Estava eu tentando responder ao comentário que o Theo Dreamer deixou no post sobre Avatar, quando vi que o troço foi ficando tão comprido que resolvi transformá-lo no meu segundo post de 2010.

A conversa em torno do papel da crítica, em particular da crítica de cinema, começou com o Theo falando da ojeriza que esta lhe causa:

Geralmente odeio críticas. Não sei, tenho sério preconceito com essas pessoas que citam Godart e Fassbinder como se fossem filósofos e citam Adorno, Nietzsche e Platão, como se eles tivessem feito uma teoria do cinema. (ok, o Adorno faz um pouco disso) Essa mania pseudo-cult de relacionar isso a aquilo (ex: Essa cena tal faz uma referência clara ao que Nietzsche chamou de “eterno retorno”) contribui para que eu mantenha meu eterno ar blasé. Críticos me dão nos nervos, porque geralmente idolatram um cineasta e odeiam todos os outros, além de falar as mesmas coisas de sempre, contra a indústria cultural, contra isso, contra aquilo… E sempre procurando um defeito.

Antes de me alongar, deixe eu começar explicando uma coisa. A avaliação que farei é ingênua, primitiva mesmo, porque 1) é a primeira vez que a ponho no papel; e 2) não tem base teórica, é mera experiência pessoal, associada a uma preguiça atroz de pesquisar e aprofundar-me sobre o assunto, sobretudo pela quantidade de interesses e obrigações prioritários para mim e que nada têm a ver com o tema. Outra coisa: se achar que há muita bobagem no que segue, as críticas seguem obviamente franqueadas. Essas explicações e o meu amadorismo não servem como desculpa para desviar-me das críticas, estamos conversados? (Cesar Kiraly e Rodrigo Cássio, dois dos meus vizinhos de condomínio e excelentes críticos de arte, por favor, pelo menos vocês não me trucidem, tá?)

Dito isto e voltando ao comentário do Theo, eu também me aborreço com críticas que mais parecem exibição de pretensa erudição — ou erudição exibicionista, o que não é muito melhor — do que análise criteriosa de um determinado objeto. Mas quero deixar claro que não compactuo com uma espécie de anti-intelectualismo que anda imperando por aí — que não vejo no comentário do Theo, ok? —, onde qualquer texto/crônica/ensaio/post que apresente referências distantes daquelas consumidas no presente instante ou que não seja escrito de maneira totalmente coloquial, pimba!, seu autor automaticamente vira pseudo-intelectual, pseudo-erudito, enfim, um rematado mala pseudo-filosófico. Só uma coisa me intriga nesses rótulos. Com que base intelectual/filosófica as pessoas avaliam os demais para julgá-los falsos? Como diferenciam um intelectual de um pseudo-intelectual? Juro que gostaria de saber.

Volto-me agora aos próprios críticos, passando pela avaliação que o Theo fez deles, que admitiu ser atravessada pelo preconceito — um clube de que também sou sócio, é claro (carteirinha número 1964). De minha parte, ao refletir sobre um objeto cultural qualquer — filme, peça de teatro, livro, obra de arte etc. —, volta e meia me flagro pensando no papel de cada um nessa engrenagem. E por cada um, leia-se: a obra, o autor, o público, os críticos e o contexto cultural onde tudo isso se insere. Pressuponho que o senso-comum (que, obviamente, também me inclui e em parte é base disto que escrevo agora) entenda que a relação mais importante entre todos os citados seria a da obra com o público, vindo o autor logo atrás, colado neles, e cabendo ao crítico um papel secundário, satélite mesmo, uma espécie de molho (às vezes de pimenta) que não seria fundamental para o prato, mas proporcionaria novas “sensações” sobre ele. (Ah, pressuponho também que vocês e eu compartilhemos dessa visão. Não? Então façam-no nem que seja de forma provisória, suficiente para completar o meu raciocínio.)

Do pressuposto acima, ocorre-me uma série de variações:

1) o autor ser uma reconhecida estrela (até mesmo pela sua história, mas não necessariamente por causa ela, já que ele pode ser uma estrela circunstancial, uma instant celebrity qualquer) e brilhar mais do que a obra, ou influir, para o bem ou para o mal, na percepção do valor que todos dão a uma obra em particular (um valor não apenas estético, mas também econômico);

2) Os interesses mercadológicos, com grana a rodo para campanhas de marketing a favor da (e às vezes contra a) obra e/ou o seu autor, às vezes chegando ao cúmulo de pouco importar se a obra e/ou o autor tem um mínimo de consistência*;

3) O lugar da(s) crítica(s) nessa engrenagem, que muitas vezes está(ão) 100% à serviço do item 2 (e, por extensão, atuando de maneira favorável ou desfavorável à obra e/ou ao autor), algumas vezes em menor porcentagem, mas sempre cumprindo um papel qualquer, que em certos casos chega a ser o de protagonista, recebendo mais crédito do que a própria obra avaliada;

4) o tal contexto cultural, que engloba os valores comuns e a posição que cada um desses valores ocupa num dado momento, fazendo com que uma obra, digamos, tecnicamente muito apurada (um livro, uma música, um filme), possa passar totalmente despercebida em função de não versar sobre aquilo que esteja em evidência — como é o caso, hoje, de tudo o que gira em torno de vampiros… haja saco!;

5) a obra ser mesmo fantástica (por motivos para além dos até aqui expostos) ou inapelavelmente uma merda (por n outros motivos também).

5.1) O fato da obra ser uma merda** com frequência leva-a ao estrelato, movimentando fortunas. E refiro-me a esse “uma merda” não apenas como avaliação dos que torcem o nariz para ela e sim da grande maioria, independente de classe social, gênero, geração ou credo. Nos dia de hoje não dá para negar o lugar privilegiado alcançado por tudo o que é considerado trash pela maioria, e a indústria cultural há tempos tem feito uso (e abuso) disso.

Ou seja, são inúmeras as combinações possíveis, e muitas vezes só a distância nos permitirá avaliar de maneira mais justa o valor de um produto cultural qualquer.

Quanto ao papel crítico em particular, de minha parte reconheço o valor do seu ofício. E digo mais: considero que ficar falando que se trata de “artistas medíocres e frustrados” que por isso mesmo destilariam veneno e fel contra aqueles que, no fundo, apenas invejam, é uma apreciação rasa e mesquinha. (Não que alguns deles não sejam assim, até porque maus profissionais existem em todo ofício e não poderia ser diferente com os críticos.) Quando penso no papel de um Cahiers du Cinéma, por exemplo, com seu caráter inclusive pedagógico, não posso querer que os críticos desapareçam. Quantas vezes um filme recém visto e quase esquecido não se transforma completamente depois da leitura de uma crítica bem escrita, dessas que iluminam partes da obra que sequer tínhamos percebido, que fazem pontes com outras obras para ilustrar, contrapor, enfim, para fazer-nos refletir sobre aquilo de que muitas vezes não tínhamos nem mesmo noção? Uma boa crítica dialoga com a obra, com o autor e com o público, é com entendo. E inclusive pode ser capaz de tirar leite de pedra, fazendo com que obras medianas ou medíocres gerem discussões fertilíssimas, ou que outras que caíram no esquecimento possam ressurgir do limbo não merecido em que foram postas.

Claro que nem tudo são flores. Há críticos que viram estrelas e invertem a ordem dos fatores, tornando-se o foco principal e levando as obras a um lugar secundário. E o pior é quando desse lugar eles são capazes de orientar o olhar de boa parte do público — claro que com os meios de comunicação e as demais engrenagens da indústria cultural ao seu lado —, de tal forma que muitas vezes as pessoas acabam por não ver e já gostar (ou detestar), o que em tempos de eu tenho pressa e tanta coisa me interessa pode matar muitas obras que mereceriam ser apreciadas, enquanto algumas verdadeiras excrescências acabam levadas às alturas.

Apesar de tudo, peço a vocês: deem uma chance aos críticos. De vez em quando eles têm dias ruins, acordam de mau humor, e concordo que alguns ainda em começo de carreira abusam do latim para mostrar serviço (e outros em fim de carreira idem). Mas um pouco de boa vontade com eles pode retornar para o público — vocês, eu — em forma de informação, de orientação, e sobretudo reflexão, palavrinha que vale muito, muito mesmo, e vocês sabem disso.

.

______
* Supondo que dê para retirar toda a roupagem midiática e mercadológica e que ainda sobre alguma coisa que chame a atenção de maneira positiva para algum inadvertido espectador. Se isso não é possível na prática, tome ao menos como teoria, feito aquelas descrições das fórmulas de física que sempre descontam o atrito, por exemplo.

** Aqui o que vale é a consideração da grande maioria, a aceitação de que ela é de fato ruim e que é isso que se quer dela, de modo a poder sobretudo rir, debochar dela, achincalhá-la, feito um palhaço no circo ou um Judas a ser malhado no sábado de Aleluia.

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7 respostas para Os críticos também amam

  1. Acredito válidas ambas as posições tratadas no post.

    Mas entre “críticos de cinema” de jornais, um caso extremado de inépcia vale ser mencionado. Um dos principais encarregados da área no jornal ‘O Estado de São Paulo’ abusa de suas prerrogativas e desconhece os requisitos elementares da crítica e a capacidade dos leitores. Aquele indivíduo imagina que crítica de cinema consiste em contar o enredo do filme e geralmente inicia seus textos pobres com a exposição do argumento, inclusive sobre filmes da programados nas TVs.

    Esse é um caso exatamente oposto ao deste post, mas merece nota, porque talvez exprima a qualidade das colunas do gênero. A falta de substância de analistas em todas as áreas da mídia (economia, artes, política, etc.) é notável.

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    • Ricardo C. disse:

      Verdade, nsca, volta e meia leio os enormes textos dele, e tirando a ponta de inveja por vê-lo sendo pago para viajar a festivais, ver cinema e conversar com ícones da sétima arte, dá impressão que todo aquele blá-blá-blá encobre um simples “gostei/não gostei” do filme em questão, o que é lamentável, não?

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  2. andreegg disse:

    Eu tendo a relevar ainda mais o papel da crítica.

    Acredito que ela faz uma necessária ponte entre obra e público. Especialmente nos casos daqueles criadores que não dispõem de muito poder financeiro para lançar obras no mercado.

    O crítico tem que ser alguém com ampla cultura geral, histórica e domínio técnico do tema.

    Sua opinião não é definitiva, mas do debate entre os críticos surgem os cânones das grandes obras. São a bússola que nos ajuda a navegar pelos mares superpovoados de obras.

    Afinal, quem poderá acompanhar e fazer seu próprio juízo de tudo que acontece?

    A crítica torna-se uma mediação necessária.

    Eu só lamento que nossos jornais não tenham críticos para quase nada: literatura, cinema, música, artes, teatro. Limitam-se a reproduzir textos de acessoria de imprensa ou fazer entrevistas mequetrefes.

    Bons tempos aqueles em que gente como Mário de Andrade, Sérgio Milliet, Mário Pedrosa, Oto Maria Carpeaux, entre outros, propunham-se escrever sobre o mundo da cultura cotidiana? O que seria da cultura brasileira sem esses críticos?

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    • Ricardo C. disse:

      André, subscrevo cada uma das linhas do teu comentário. O post tem esse tom de súplica a favor do crítico justamente pela mediocridade do que aparece para a grande maioria, onde há cada vez menos críticos de peso e mais copiadores de releases mal-escritos, como você mesmo comentou.

      Abraços

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  3. Ricardo,
    Concordo com a sua exposição. Incomoda-me o anti-intelectualismo, também.
    A crítica tem um papel fundamental em certas instâncias da arte. Na lógica das mercadorias culturais, contudo, ela não tem função nenhuma, pois não existe reciprocidade entre o pensamento sobre as obras e aquilo que é entregue aos consumidores como pretensa “obra de arte”. Há uma separação decisiva, aqui, que acaba direcionando o grande público para uma aversão aos críticos.
    Quando o grande público vai ao cinema, por exemplo, quer se divertir. Quando lê sobre os filmes que assiste, quer também o máximo de leveza. Procura os boatos de bastidores, as informações sobre custos, sobre a personalidade das estrelas etc. Quando muito, querem uma opinião rápida sobre o filme (é bom ou ruim?), que se consuma em considerações muito limitadas sobre “roteiro”, “interpretação”, etc.
    Esse comportamento tem a ver com um longo condicionamento da arte e da experiência dos homens com ela, intensificada no século XX.
    O exercício da crítica é exigente, e isso assusta: muitos se contentam em ser resenhistas de jornal. É claro que também há críticos chatíssimos e arrogantes por aí, que justificam a aversão do público. Mas há pessoas sérias e dedicadas também. Se o público conseguir se desprender dos limites que a indústria cultural lhe impõe, talvez consiga perceber o valor da crítica.
    Abraços!

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    • Ricardo C. disse:

      Pensamos de maneira semelhante, Rodrigo. Só reforço dois pontos. Primeiro, que além dos pseudo-críticos — tanto os que não passam de meros resenhistas quanto os que se contentam em sê-lo — e dos críticos chatíssimos e arrogantes, há os que simplesmente estão disfarçada ou descaradamente à serviço da indústria, ajudando a vender os produtos desta. E segundo, que é uma pena ter que admitir que muitas vezes o grande público entenda que diversão implica em suspender a atividade de pensar, de refletir, e que o prazer deve ser sempre primário, de preferência exclusivamente sensorial, “límbico”. Acho muito pouco, muito pouco.

      Abraços

      [Off-topic: você costuma ser chamado de Rodrigo ou de Rodrigo Cássio? Como prefere?]

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