Links para o que li sobre Avatar na blogosfera brasuca

Assisti na semana passada, e passei os olhos por vários posts que trataram do “filme do ano”, na opinião de trocentos entusiastas. (Só pelo trocentos você já sabe que não estou entre esses entusiastas. Mas se você viu e gostou, não se preocupe, também não me enquadro na turma que detestou e nem estou aqui para ser estraga-prazeres… acho.) Entre os posts, destaco os de alguns blogueiros que aprecio e leio regularmente, enquanto os de outros eu tive acesso graças a links de terceiros. Seguem abaixo os que li, sem ordem predefinida:

A Revista Fórum publicou uma crítica do André Lux intitulada Crítico-Spam: “Avatar”, que cai de pau no filme, só que na base do

[…] o que está por trás desse tipo de mensagem aparentemente edificante em nível subliminar? Algo que ninguém parece perceber (ou prefere fingir não perceber): a necessidade de nublar a mente das pessoas e deixá-las acomodadas aos valores morais mais torpes e hipócritas que existem, já que podem ver realizados na tela do cinema todos os sonhos e desejos de redenção e vitória que nunca se realizariam no mundo real, deixando-as assim alienadas e entorpecidas. Ainda mais quando tudo vem reforçado com louvor a crendices sobrenaturais (que alguns chamam de “religião”), do tipo “reze bastante que um dia você será atendido”!

Ou seja, “contra burguês, vote 16“. Meus amigos simpáticos ao PSTU que me perdoem, mas a esta altura do campeonato achar que um filme do James Cameron vai fazer papinha das nossas mentes é ser pré-punk demais, para dizer o mínimo. (O autor que também me perdoe, mas não vou me alongar na análise de sua crítica. E se quiser ver na recusa deste pouco expressivo blogueiro a simples confirmação de suas teses, fique à vontade.) Uma pena, porque há sem dúvida muitos pontos a criticar no filme, inclusive seu suposto apolitismo e suas pretensas críticas (curiosamente políticas) ao modelo intervencionista norte-americano, à sociedade de consumo e à desatenção com a ecologia, que certamente pecam pela superficialidade e primarismo, marcas constantes do diretor. Mas daí a acreditar num projeto de “[…] ludibriar e entorpecer mentes a fim de deixá-las conformadas e amorfas frente à dura realidade que as cerca” , é chão que não acaba mais. Aliás, é ser tão clichê quanto o próprio diretor do filme. Só para contrabalançar, lanço mão de um trecho da crítica de Ana Al Izdihar (colunista d’O Pensador selvagem) que saiu publicada no Amálgama (e também foi reproduzida na própria Revista Fórum):

O estilo de Cameron é sempre eloqüente, um tanto exagerado e segue a narrativa clássica hollywoodiana: mocinhos e bandidos bem definidos, com discursos cujas mensagens denotam ideias que resvalam no clichê (vide David Bordwell). Muitos outros diretores fazem o mesmo, como Steven Spielberg ou Mel Gibson, e ainda assim os filmes, pelo menos em minha opinião, não deixam de ser bons. Sejamos francos, hoje em dia não há mais espectadores bobinhos que acreditam em tudo o que o cinema diz, e conseguem curtir um filme, mesmo que o enredo soe como uma tremenda marmelada. Também espectadores já não mais saem correndo do cinema quando vêm um trem vindo em direção à câmera, pensando que o mesmo vai passar por cima deles (como aconteceu nos primeiros dias do cinematógrafo)! Se bem que com a geração 3D até temos essa sensação. Na sala de cinema eu ouvi muito mais “ohs!” e risinhos do que manifestações de medo. (Grifo meu)

Aliás, a Ana Al Izdihar é certamente muito mais generosa com Avatar do que eu fui. O seu post vale uma leitura, sobretudo por conta dos extras que ela juntou: informações sobre o diretor — sua relação com os animes e também com Star Wars, o fato dele ter criado a stereo imaging camera etc. —; referências a Jung, Campbell e até aos irmãos Vilas-Boas, e à origem da palavra Avatar, entre outros. Mas se por um lado falei antes das sérias reticências ao maniqueismo do texto do André Lux, devo dizer que também torci um pouquinho o nariz para o que a Ana diz no final de sua resenha: Avatar é um filme lindo tecnicamente falando e simpático tematicamente. Não se impressione com pessoas auto-intituladas ‘cult’ que exigem que toda narrativa seja contada de modo obscuro, inescrutável e entediante” (grifo meu). Sei não, Ana, juro que não conheço alguém que se auto-intitule cult. E no que me diz respeito, gosto muito de filmes que, a levar em consideração o seu comentário, você acharia entediantes. Será que não tem outras opções não?

O texto do crítico Fabrício C. Santos, publicado no blog do Lisandro Nogueira, é tão favorável ao filme quanto o da Ana Al Izdihar, mas vai um pouco mais longe nas associações com outros filmes e referências culturais, ainda por cima as recheia de humor, como quando diz que

[…] o planeta Pandora tem em seu tropicalismo neônico algo de capas de discos do Santana, e uma árvore sagrada parece tirada do show do Radiohead. É tudo lindo, lindão, lindonérrimo nas lentes abertas e escancaradas, mas algo parece dizer que em 20 anos ou menos vamos olhar pra trás e achar tudo uma breguice exagerada. Até lá, essa papagaiada carnavalesca e despirocada de ácido e algum misticismo diverte, de verdade.

Ou ao falar que “os Na’Vi são um povo maculelê hipponga natureba, mas com cabelos-USB”. (Achei essa de “cabelos-USB” ótima.) Mas o Fabrício não deixa de dizer que de fato a história é batida, simples e carrega demais nos clichês. Se bem que ele vê vantagens nessa simplicidade, imaginando a confusão que não seria se o roteiro fosse escrito pelo Charlie Kaufman, por exemplo. É um argumento bacana, mas no caso específico de Avatar não assino embaixo não. Poderia até ter sido uma história simples, mas essa daí foi mesmo simplória. (Preciso ser justo, o Fabrício também usou essa palavra.) A impressão que me deu é que depois de 15 anos envolvido nas questões técnicas do filme, o Cameron lembrou, provavelmente enquanto tomava uma chuveirada, que precisava de um roteiro. Saiu do banho, olhou pro rolo de papel higiênico e disse não, assim também já é demais, então pegou a caixa de lenços de papel junto à pia e rascunhou o roteiro inteiro em 12 minutos e 33 segundos, cronometrados. Deve ter dado tempo de um(a) estagiário(a) digitar, só não sei se sobrou algum para fazer outras versões do roteiro.

Bom, o texto do Fabrício C. Santos é bastante completo, além de extremamente bem-humorado e também elogioso ao filme, sobretudo ao que ele considera “a experiência” de vê-lo no cinema. Falta então mencionar mais três posts: um d’O Hermenauta, outro do Mauricio Santoro e um terceiro, do Rodrigo Cássio. (Pera aí, vou correndo ali almoçar e já volto, que o tempo para escrever um post e ainda comer antes de voltar ao trabalho é curto.)

(Voltei do almoço e já tomei um copo de café. Deixe eu correr antes de enfiar a cara nas obrigações.)

Na verdade, o Hermê escreveu dois posts. O primeiro não aprofunda tanto quanto o segundo, mas, como de costume, oferece links para os assuntos mais diversos, desde o quanto o filme não seria uma drug trip, até as aparentes pretensões econômicas do diretor na área de jogos. É mesmo no segundo, A ciência de Avatar, que aborda questões super-interessantes (ao menos para mim) sobre o viável e o criticável no filme, em termos de ciência e tecnologia. Só pelo exemplo da Máquina de Anticitera, de que nunca tinha ouvido falar, já valeu o post. (Se ele resolver parar de blogar como tanta gente fez ao longo do ano, isto daqui ficará mais sem graça ainda. Quem vai me divertir desmontando as bobagens do RA?, quem??)

O Maurício Santoro, em seu ótimo Todos os Fogos o Fogo, pareceu ser o mais entusiasmado entre todos os blogueiros que li falando sobre Avatar. Ele toca em alguns dos temas que o primeiro post do Hermenauta aborda — o “going native“, por exemplo — e ainda extrai de alguns dados do filme (o que seriam) indicadores de aspectos hoje críticos e que seguiriam sem solução nos próximos 150 anos, quando se passa o filme — violência urbana, fracasso na reforma Obama da saúde, crise de energia. Enfim, um bom post que toca numa série de questões levantadas diretamente pelo filme, mesmo que este não pretenda aprofundá-las e sim entreter o espectador num festival sensorial sem precedentes.

Por último, o Rodrigo Cássio, com seu blog Vistos e Escritos agora no condomínio d’O Pensador Selvagem!, diz em seu post (A imagem que deslumbra) como o cinema de Avatar, embora embasbaque visualmente e ajude a rejuvenescer “a eficácia hollywoodiana […] segue um itinerário bem calculado desde que surgiu, nas primeiras décadas do século XX, e o filme de Cameron nada mais é do que o momento atual dessa única narrativa”. Rodrigo Cássio vai mais longe nessa crítica ao mais-do-mesmo-com-magnífica-roupagem-3D que Avatar representa. Passo-lhe a palavra:

faz sentido esperar que essa técnica ajude a camuflar o cinema, o outro cinema, o que não responde ao ímpeto dos estímulos realistas, e sim ao ímpeto da fantasia permitida, do encantamento, da mentira que pode se reconhecer como tal, como sempre nos melhores filmes, menos em função do aparato das salas exibidoras que da criatividade dos diretores-artistas. E essa técnica fará isso na mesma medida em que alicerçar um novo padrão de consumo para o espectador médio: o filme 3D tende a se consolidar como a maior novidade deste padrão, talvez não em curto nem em médio prazo, mas esse é o destino natural de um empreendimento que começou com imagens mudas em preto e branco, e hoje já nos alimenta com perspectivas mostradas ao gosto do olho humano.

Não preciso comentar mais nada, uma vez que ele disse o suficiente, e ainda arrematou com uma expressão que sintetiza os tempos atuais, “um tempo de tão poucas suspeitas como o nosso”.

Mas não me aguento, tenho que falar nem que seja um pouquinho, pelo menos comentar que evitei ler muita coisa sobre o filme antes de ir vê-lo. Não que isso seja uma prática costumeira, como quem quisesse evitar ser contaminado pelo olhar alheio em relação a o que quer que seja. Foi em parte por acaso, em parte por um reconhecido preconceito: não apenas já vi boa parte dos filmes do James Cameron, como também imaginei que todos fossem exaltar o aparato tecnológico e a grandiosidade e o estilo vambora-moçada-quero-todo-mundo-babando das cenas. Afora isso, sei que evitar essa tal contaminação é um jogo inútil: não há possibilidade de enxergar o que quer que seja sem as lentes da cultura, do gênero e da geração a que pertenço, incluindo aí as milhares de horas vendo filmes de todo tipo, mas com grande acento nas produções off-Hollywood — e offBollywood também, vale acrescentar.

Pronto, agora é hora daquele ar blasé antes de falar mal do filme… Êpa, será que ter senões a ele é ser metido a intelectual, cult ou coisa parecida? Pera lá, também não é assim! Não tenho nada a dizer que já não tenha deixado entrever em meus comentários aos posts sobre o filme. Só acrescento que também consegui enxergar nos Na’vi uma tribo de índios norte-americanos, uma mistura de Sioux com Moicanos, e que essa visão me deixava na expectativa do momento em que o Kevin Dança-com-Lobos Costner e o Daniel O-Último-dos-Moicanos Day-Lewis fossem aparecer; ou como aqueles rituaizinhos bestas desse povo ao redor da tal árvore sagrada, tudo super super odara, tinha um quê das dancinhas da cidade de Zion,  no último Matrix, misturado com ritual do Santo Daime; ou que eu tenho certeza que já vi aquele coronel mauzão em algum outro filme, acho que no de uns soldadinhos de brinquedo que na verdade eram parte de um projeto militar ou coisa parecida, depois formavam um exército e começavam a destruir tudo o que viam pela frente… Ih, acho que voltei a falar de Avatar!

Pronto, já disse as minhas piadinhas sobre o filme do James Cameron. Mas gostei dele, sério, e sigo recomendando que vá vê-lo e divirta-se. Só peço que se resolver conversar comigo sobre ele, primeiro me conte do que o filme trata, pois confesso que ele começou a sumir da minha memória. Ah, e não é por conta de algum tipo de Alzheimer. Não ainda.

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10 respostas para Links para o que li sobre Avatar na blogosfera brasuca

  1. Ana Al Izdihar disse:

    Ah, Ricardo. Adorei seu post! Faz tempo que não lia alguém que sabe ler os outros!

    Vou dizer que infelizmente conheço SIM gente que pose de cult (mesmo que não diga), mas admito que talvez minha frase foi infeliz não por ser mentira, mas porque não fui precisa. Você ficaria surpreso com o número de pessoas assim…

    É que ultimamente tenho me concentrado em escrever, pelo menos no Amálgama, sobre os filmes mais “pop” e lançamentos no main stream. E tenho que confessar que eu não gosto de gastar minha energia e meu latim falando “mal” de um filme, entende? 90% das vezes eu falo de filmes que gosto.

    E eu gosto também de muitos filmes que outros considerariam entediantes, e eu os acho bons! Assim como não gosto de gente “paga pau de gringo” também não gosto dos “pré-punks” (adorei essa!).

    Se quiser me ler em outro lugar onde comento filmes menos famosos (e pra alguns “entediantes”) visite Cinema Atemporal no blog O Pensador Selvagem.

    Obrigada imensamente pela citação!

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    • Ricardo C. disse:

      Ana, eu é que agradeço a visita. Claro que brinquei um pouco contigo, entendi direitinho a que se refere. Até porque eu mesmo já fui meio chato nessa área, só assistindo filmes-cabeça durante boa parte dos meus 18 a 28 anos. Continuo gostando deles, inclusive na lista do post anterior tem alguns diretores que facilmente se enquadram na categoria cult — e com um ou outro de seus filmes podendo muito bem ser considerado entediante, hehe —, mas não deixo de me divertir muito com filmes que buscam ludibriar e entorpecer mentes a fim de deixá-las conformadas e amorfas frente à dura realidade que as cerca 😛

      Ah, costumo visitar silenciosamente o Cinema Atemporal. Afinal de contas, sendo uma coluna do OPS!, tem selo de qualidade, né? Da próxima eu dou os meus pitacos por lá também!

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  2. Theo Dreamer disse:

    Olá. Gostei bastante do seu post. Sua linguagem é deliciosa e sua crítica é bastante justa. Geralmente odeio críticas. Não sei, tenho sério preconceito com essas pessoas que citam Godart e Fassbinder como se fossem filósofos e citam Adorno, Nietzsche e Platão, como se eles tivessem feito uma teoria do cinema. (ok, o Adorno faz um pouco disso) Essa mania pseudo-cult de relacionar isso a aquilo (ex: Essa cena tal faz uma referência clara ao que Nietzsche chamou de “eterno retorno”) contribui para que eu mantenha meu eterno ar blasé. Críticos me dão nos nervos, porque geralmente idolatram um cineasta e odeiam todos os outros, além de falar as mesmas coisas de sempre, contra a indústria cultural, contra isso, contra aquilo… E sempre procurando um defeito. (Claro que no caso de Avatar e Lua Nova, achar defeitos não é um grande desafio)
    Ok, tenho que parar de fazer divagações estúpidas ou entrar em uma faculdade de filosofia. Era só para dizer que gostei do seu post. Fim.

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  5. Guilherme Kato disse:

    Olá meu caro neo-aracajuano!
    Eu só quero comentar de verdade o post depois que eu ver o filme amanhã, em 3D, é claro, porque esse filme só vale a pena ser visto se for com a tal tecnologia digital ou, tenho certeza, ficarei com a impressão de apenas mais um filme bobinho de ficção com muito efeitos.
    Só que provavelmente só terei tempo de verdade de escrever qualquer coisa depois que eu voltar da China, então… nos vemos em 2010 e que esse ano seja excelente para todos nós porque 2009 foi meio travado.
    Abraços!!!!

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  6. Guilherme Kato disse:

    Não lê FaceBook, dá nisso…rsrsrs
    Embarco hoje, a trabalho, para Londres, de onde sigo para Hong Kong e depois vou de carro até Foshan, na província de Guangdong onde fico até o dia 21. Depois volto para Londres onde ficarei uns dois dias de “bobs” e volto para o Brasil no dia 24.

    Vi o filme Avatar, adorei e não acho que valha tanta discussão em cima de um filme assumidamente blockbuster. Quer saber a verdade? O roteiro nem importa mesmo, desde que você assista em 3D. Muito melhor que qualquer LSD, chá de cogumelo, ou alucinógeno que valha a pena, mas sem os efeitos colterais…hahahahahahaha. Eu quero ver de novo, e de novo, e de novo, e se lançarem um DVD/Bluray em 3D eu vou comprar (desde que o efeito 3D seja que nem o que eu vi na telona). Aliás… acho que agora ver filmes ficou mais sem graça. Quero TUDOOOOO em 3D…hahahahah!
    Fico imaginando o dia em que fizeram pornô em 3D… UAUAUAUAU!

    Bjs e até a minha volta!

    P.S. Adorei botar um comentário besta no seu post cabeção! rsrsrsrs

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  7. Pingback: Os críticos também amam | Ágora com dazibao no meio

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