Variáveis

Começo pedindo desculpas aos economistas, sociólogos, cientistas políticos, filósofos e sei lá quem mais for preciso, em função da incomensurável ignorância que carrego sobre a seguinte discussão: o tamanho ideal e a importância que deve caber ao Estado, e sobretudo a interferência e/ou intromissão na vida dos cidadãos.

Beleza, o rapapé das desculpas eu já fiz, então vou à besteira que me interessa. Sabe o que a minha ignorância me disse que falta falar? Que a avaliação do quão grande e intrometido deve ou não deve ser o Estado depende também de uma dimensão fundamental: a afetividade.1 Então, sem delongas vos digo: se vocês estão bem, se tudo está tranquilo e sem maiores flutuações, caberá ao viés ideológico, à formação acadêmica e ao background cultural  que cada um de vocês possui (não me ocorre nada mais por enquanto) determinar a concepção do papel do Estado — Estado forte, Estado mínimo etc — que defendem. Agora, se por um lado vocês estiverem em “estado de graça”, eufóricos ou em êxtase — seja apaixonados, alforriados, mega-senapremiados, tendo acabado de gozar ou qualquer outro motivo —, sua avaliação sobre o tema em questão corre sérios riscos de não ser a mesma — provavelmente porque não darão muita bola pro assunto —; e, por outro lado, se vocês estão angustiados, deprimidos e/ou fragilizados por circunstâncias da vida — sei lá, morreu alguém muito próximo e importante para vocês, seus maridos/as, namorados/as ou casos lhes deram um pé na bunda e trocaram vocês por outro(s)/a(s), vocês perderam o emprego, descobriram ter uma doença incurável e lhes resta pouco tempo de vida etc. —, é quase certo que o que vocês pensam sobre o Estado também seja afetado por isso. E se por acaso acontecer de estarem passando um razoável período numa cidade nova, num projeto de trabalho igualmente novo, sem nenhum amigo/a ainda, longe da mulher (ou do homem) com quem passaram os últimos treze Réveillons (e sabendo que o de 2010 não será o décimo-quarto), morando a uma distância considerável do lugar onde trabalham — isto é, difícil de transpor à pé, ainda por cima sob o sol escaldante do verão na região tropical em que se encontra —, sem carro, moto ou bicicleta, exemplos de meio de transporte individual que compensariam o péssimo transporte público local — que implica em tomar dois ônibus, cada um demorando mais ou menos meia-hora para chegar, tudo isso para percorrer um trajeto que leva no máximo 10 minutos de carro ou moto, e entre 25 e 40 minutos de bicicleta, calculo —, garanto-lhes que a única coisa que viria à mente de vocês, independente da coloração da pele, classe social, idade ou gênero, seria o desejo sincero de viver sob o manto protetor de um belo Estado, de preferência um Estado de bem-estar social, que entre outras coisas invista num transporte coletivo de qualidade, daqueles em que a população não apenas se desloca de forma rápida e sem dificuldades por toda a cidade onde mora, mas também consegue acertar os seus relógios em função da pontualidade dos serviços de ônibus/trens/metrô e que tais.

Está certo, admito que o raciocínio seja subjetivamente torto, autocentrado e, se bobear, de um medioclassismo marotamente disfarçado. Mas vai dizer que não faz sentido?

P.S. A foto eu tirei daqui.

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1 Sei bem que há estudos sobre teoria econômica e emoções, assim como também sobre psicologia econômica. Admito que sou ignorante, pero no tanto. Mas o post não passa de um pretexto para os meus reclamos, ora bolas.

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6 respostas para Variáveis

  1. Pingback: Ricardo C.

  2. Ricardo, essa sua “besteira” não é tão besta assim. Tudo bem que analisar o papel do Estado a partir de um estado de espírito (by the way, impagável a associação entre essas duas dimensões, que já vale o texto) pode parecer absurdo, mas é inegável que o desconforto, a inquietação, a carência – afetiva e material, se você me permite – é que provoca questionamentos sobre o que a gente é e, sobretudo, o que a gente quer.

    Numa dessas, a civlização “ocidental” só se “desenvolveu” por causa do frio absurdo que faz no inverno e porque a comida deles, sem as especiarias das índias e sem o café da Etiópia, era horrível. Os índios brasileiros, por exemplo, agraciados pela natureza, nunca precisaram de pólvora, cravo ou café. Mas derivo.

    Você falou de teorias que associam afetividade e economia. Tem um livrinho muito bacana que faz essa associação entre afetividade e direito, criando como hipótese que o sofrimento foi um motor importante da criação do Estado providência na França. Muito interessante. Se em seu reclamo houver curiosidade, a referência tá aqui embaixo:

    LAÉ, Jean-François, “L’instance de la plainte – une histoire politique et juridique de la souffrance”, Paris, Descartes & Cie, 1996.

    Feliz 2010, apesar dos pesares!

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    • Ricardo C. disse:

      Caríssimo Sidney Mirandão, um comentarista como você é o que qualquer sujeito metido a blogueiro sempre quer ter por perto. Você não só entra na brincadeira, mas enriquece os posts que é uma beleza. (E sinto não ter dado sequência a algumas séries de posts, sei que você teria muito a acrescentar e também bibliografia a oferecer. Mea culpa, mea maxima culpa!)

      Não conhecia essa relação — o livro já está devidamente anotado —, mas tampouco me surpreende. Há quem diga — li uma nota, tempos atrás — que na base de qualquer sistema tributário encontramos, ao lado de princípios de justiça social, nada mais nada menos que a inveja, e que esses sistemas serviriam para “consertar as coisas”, reequilibrar as relações entre os cidadãos. Aliás, diria que se pode fazer uma analogia em relação à justiça, ao menos em algumas sociedades. Para este leigo daqui, boa parte das ações delas parece motivada sobretudo pelo desejo de vingança, e a racionalidade e os princípios éticos seriam apenas o verniz que encobre esse desejo… 😛

      Grande abraço e feliz 2010 pra você também!

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      • Seu Ricardo, você é que é o blogueiro que qualquer pitaqueiro sempre quer ler, com seus posts tão variados quanto interessantes. Ainda espero a parte 3 do Tripalium, viu?

        Com relação ao desejo de vingança, a teoria clássica do Estado sustenta que o monopólio da violência nas mãos deste serve justamente civilizar tal desejo. Mas é claro que em certos países (o nosso e os nossos vizinhos, ainda que a coisa venha melhorando, seguem sendo exemplos), a justiça acaba se transformando em instrumento de realização de perversões as mais diversas.

        Daí que o Direito não dá conta do recado, e seus operadores pecam amiúde (Rá!) pela soberba. A sociologia e a antropologia (e a psicologia social, por que não?) contribuem muito para ajudar a compreender porque a racionalidade e os princípios éticos não são suficientes para evitar essas apropriações indevidas pelos indivíduos. Mas, ô racinha essa a dos juristas, a gente escuta pouco o que as outras ciências sociais nos têm a dizer…

        Já dizia Drummond, “as leis não bastam, os lírios não nascem das leis”.

        Abraços

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  3. Nhé disse:

    G-zuz, Ricardo, se vc sofresse com a TPM… nem imagino! rsrsrs!

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