Meus planos de aposentadoria

Brasil e os bucaneiros do Senhor

Um dia destes em Buenos Aires – um domingo chuvoso – fui almoçar com amigos. Falamos o de sempre: nossos países, nostalgias compartilhadas, um pouco de futebol, até surgir um assunto crucial que quase arruinou o nosso almoço: como garantir uma velhice digna?

Apresentei uma proposta concreta e simples: fazer uma vaquinha entre todos e alugar um pequeno espaço. Além disso, comprar um microfone, um desses teclados eletrônicos que imitam som de órgão, uma Bíblia e pronto.

Todos me olharam com um piedoso silêncio. Porém, a minha ideia é coerente e viável. Vejamos: com um local, um falso órgão, um microfone, e tendo lido (ainda que superficialmente) o necessário, fundamos uma igreja evangélica. Em menos de um ano recuperamos o nosso investimento e começamos a ganhar dinheiro.

No Brasil, um diploma de pastor custa uns 800 pesos [± 370 reais] e o de bispo evangélico pouco mais que o dobro. É que o meu país tem know how. Assim como no futebol, que também não inventamos, no ramo da fé viramos potência mundial, e muitos dos nossos, além de garantir a si mesmos uma velhice digna, garantiram também a dos seus netos.

Graças às nossas leis, trata-se de um negócio garantido, com isenção de impostos e liberdade total para mentir, enganar, explorar, enfim, o que for, tudo em nome de Deus. Na Argentina e em outros países latino-americanos acontece a mesma coisa, esse é um comércio que se expande com força e rapidez. Se alguém duvida, basta ligar a televisão: a partir de determinados horários, predominam programas comandados por pastores eletrônicos [tele-evangelistas], compatriotas meus, especializados em atropelar o raciocínio, a pronúncia, a gramática e a lógica.

Vejamos: quem mais cresceu na América Latina durante a última crise global? Nenhum banco, nenhuma indústria, nada superou o comércio da fé. Qual é a multinacional brasileira mais lucrativa? Não é a Petrobras, nem a Vale do Rio Doce, nem o banco Itaú: é a Igreja Universal do Reino de Deus.

Esta seita nasceu na garagem de uma casa no subúrbio do Rio. Seu criador, um gênio das finanças, era funcionário público. Hoje é dono de uma fortuna. Está presente na Argentina e na Costa Rica, no Panamá e no México, no Uruguai e na Colômbia, no Equador e em Porto Rico, em Portugal e na Inglaterra, em vários outros países europeus e africanos. Suas igrejas arrecadam dezenas de milhões de dólares, controlam emissoras de rádio e televisão, jornais e revistas, participam do controle de empresas dos mais distintos ramos, do taxi-aéreo à publicidade, que por sua vez geram mais e mais.

Explorar os desvalidos e miseráveis é, desde sempre, um negócio seguro e muito lucrativo. Tanto é que a própria Igreja Católica assentou as bases em matéria de comércio e finanças movidos pela fé. Mas está sendo superada em eficácia e perdendo terreno frente à concorrência de evangélicos, bem mais ágeis e sedutores. Por exemplo: a Igreja Universal do Reino de Deus é dona da segunda maior rede de televisão do Brasil (cujo valor é estimado em aproximadamente 1,6 bilhões de dólares), controla uma infinidade de emissoras de rádio e pelo menos cinco grandes jornais do interior. Na Argentina, possui três emissoras de rádio, publica um jornal de distribuição gratuita, aluga espaços em emissoras de televisão. Tem dez templos em Buenos Aires e uns 170 no interior. No Uruguai, comprou um antigo cinema de Montevidéu, onde instalou a sua sede, e tem pelo menos outros 15 templos. Na Costa Rica, onde tem pouco mais de uma dúzia de locais de culto – leia-se, de arrecadação –, a Universal não possui nenhum canal de rádio o televisão: prefere arrendar espaços para os seus programas. No México faz a mesma coisa, tendo por lá quase uma centena de templos, assim como na Colômbia. Uma enorme estrutura bem azeitada faz com que essa fábrica de dinheiro opere a todo vapor. Não é a única, obviamente.

Existem milhares de seitas, das mais modestas às mais espetaculares. Mas a Universal deve ser o nosso modelo, dizia eu aos meus amigos portenhos.

Poderíamos começar no Brasil, onde é muito fácil fundar uma igreja. Há pouco tempo, três jornalistas criaram em São Paulo a Igreja Heliocêntrica do Sagrado Evangelho (um deles chama-se Hélio). Demorou cinco dias e custou 418 reais – 900 pesos. Após o registro, a Igreja Heliocêntrica recebeu certificados que a isentaram de toda e qualquer obrigação fiscal, graças à liberdade de culto assegurada pela Constituição. (Porém, ao invés de lançar-se em direção ao seleto clube dos milionários da fé, Hélio e seus fugazes bispos optaram por continuar sendo jornalistas e publicar a história.)

Claro que, além da taxa inicial, é preciso alugar um espaço, comprar um falso órgão, um microfone, um par de exemplares da Bíblia. Mas é pouca coisa, principalmente quando comparado ao retorno do investimento, a curto prazo e sem risco.

Garanti aos meus amigos portenhos que a minha ideia é aproveitar todas as brechas legais para lançar-nos em atividades mercantis dos mais diversos matizes, sempre ao amparo da lei. Que será fácil conseguir a adesão de jogadores de futebol e gente do mundo do entretenimento para atrair fiéis. E mais: seguindo o exemplo de muitos dos meus compatriotas, bem-sucedidos bucaneiros do Senhor, não descarto que um dos nossos se lance candidato a deputado, senador ou o que for, no Brasil, na Argentina e em qualquer outro lugar onde conseguirmos chegar. Afinal de contas, brilhamos até nisso: no meu país, muitos dos bispos e pastores eletrônicos são tratados como figuras respeitáveis da República, integram alianças políticas e, além da proteção divina, contam com a do governo ao qual se aliam, de forma a proteger os seus negócios e interesses.

Ainda não consegui convencer ninguém, mas pretendo continuar insistindo. Tomara que dê certo. Não me falta fé no negócio: faltam-me sócios dispostos a transformar-se, em pouquíssimo tempo, em bucaneiros do Senhor. E garantir uma aposentadoria de piratas.

Eric Nepomuceno, escritor e tradutor, publicado em Página/12, terça-feira, 15 de dezembro de 2009.

(Tradução: Ricardo C., eu mesmo. Tomara que o Eric Nepomuceno não desgoste e nem se chateie por ver aqui uma tradução do seu texto.)

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4 respostas para Meus planos de aposentadoria

  1. Pingback: Brasil e os bucaneiros do Senhor | Index

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  3. andreegg disse:

    O negócio é bom mesmo, mas não é assim tão fácil.

    Não exige nem leitura nem diploma, aliás eles até atrapalham um pouco.

    Precisa mesmo é ter tino comercial. Pode saber que para cada um bem sucedido tem dezenas que perderam tudo trabalhando por uma fé tão sincera quanto cega. Mais ou menos deve ser a mesma proporção que nos outros tipos de negócio ditos “seculares”.

    Só que ao contrário de outros milhares de tipos de pequenos negócios possíveis, esse aqui não produz nada útil para a sociedade, só mesmo neuroses e intolerâncias.

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    • Ricardo C. disse:

      Carências de todo tipo são terreno fértil para messias e profetas de todo tipo, André. É preciso muita maturidade para distinguir o charlatanismo e a podridão, sobretudo quando se está desesperado. Nessas horas até o mais cético dos céticos é capaz de balançar. A questão aqui é o quanto “fundar uma religião” se tornou corriqueiro, um negócio que só não é “como um outro qualquer” porque faz um estrago danado na sociedade como um todo, não apenas nos fiéis mais diretos.

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