Matemática

Há quinze anos te espero. Não catorze; não dezesseis. E nem adianta fingir. É de você que eu falo, Clara, de você, que sempre soube de mim, do que me era mais caro. Sim, já são 5.478 dias — porque não esqueço dos anos bissextos que somam três dias mais ao buraco que você deixou quando saiu por aquela porta —, 131.472 horas, contando cada um dos duzentos e vinte e um paralelepípedos da rua por onde você sumiu de mim. Se você estivesse aqui, na certa diria que enlouqueci, que a rua é muito maior do que essa conta de bêbado que eu fiz; mas teria que engolir esta foto (desculpe pelo “engolir”), com cada uma das pedras, numeradas, catalogadas por cor, forma, integridade e tamanho, onde guardo o exato instante em que voltou da casa dela, numa quarta-feira de junho, dia treze, 1990, e depois foi embora. E que ideia aquela minha de fotografar justo o último entardecer da gente, logo eu, que nunca fui de acreditar nesse negócio de intuição. Aliás, pelo menos um sorriso acanhado eu guardo daquele instante — insuficiente para aquecer o inverno glacial que se instalou aqui em casa, esteja certa disso —, envergonhado da minha falta de habilidade (mais uma!) com a câmera, da tentativa esdrúxula de mirar você e acertar a sua sombra, à esquerda da dela. (Essa é uma das minhas frustrações, Clara, o destaque da sombra dela, e não da tua silhueta.) É por isso que há quinze anos enumero as pedras dessa foto. Elas são o que me resta, o que vejo, o que permanece iluminado, de onde consigo extrair tantas contas estranhas aos leigos, esses agrupamentos que talvez (odeio “talvez”!) me deem as respostas que tanto busco, cifras que hoje somam os tais duzentos e vinte e um, quantidade bem acima do zero, do nada, do breu que você deixou aqui, estampado, à esquerda de quem vê.
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[O texto foi escrito para a foto acima, tempos atrás, e, para não variar, é outro que republico. Tratou-se de uma conhecida brincadeira que ocorreu entre amigos, onde alguém sugeriu uma foto e todos desenvolveram um texto para ela. O meu foi esse daí.]

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13 respostas para Matemática

  1. Silvia disse:

    Será que dá para vc parar de arranjar desculpas e escrever logo um romance… uma história e não nos deixar assim no ar… como uma transa interrompida em sua melhor etapa?????
    Olha… vc sabe que te adoro né? Sds de saber que já não está ao alcance de um frescão ou do metrô…. mas te digo…. tuas palavras te aproximam de todo aquele que brinca de olhar de perto as coisas…
    Bjs lindo, sucesso e mts sds!

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    • Ricardo C. disse:

      Hoje a saudade daí bateu forte, sabia? E não deu nem 4 dias…
      Beijos, menina, te dou notícias assim que o panorama ficar mais claro por aqui. Ah, e se aparecer coisa boa pra ti por aqui, serás a primeira a saber!

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  2. Pingback: Ricardo C.

  3. Gwyn disse:

    Certos textos que mesmo escritos a tempos parecem tao atuais, como que quem os estivessem escrevendo fosse um vidente, ou estivesse fazendo uma premonicao do que esta por vir..e que agora veio e chegou…e estas vivendo!

    bjs

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    • Ricardo C. disse:

      Gwyn, a primeira parte do teu comentário eu nem discuto do tanto que concordo. A segunda parte, do que eu estaria vivendo e sua relação com o texto eu juro que não captei… Diga por e-mail, please!

      Beijos

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  4. Sandra Leite disse:

    Daqui eu suspirava, depois sorri 🙂

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  5. El Torero disse:

    Este foi um dos primeiros textos que li aqui. Ou assim me parece pois que me marcou. Tenho no Favoritos…é antigo, do tempo que punha alguma coisa no Favoritos.
    E a foto me parece, hoje, capa de romance do Simenon.
    Abraço.

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  6. salvaterra disse:

    Olá,

    Gostei do seu conto. E eu que também não sou de intuição ou crer que existe algo a mais que coincidência nesse mundo posso dizer sem medo: coincidentemente acabei de escrever um conto sobre a matemática dos dias e dos calçamentos e também usei a palavra “cifra”.

    Bom natal e boas contas.

    Abraços.

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    • Ricardo C. disse:

      Salvaterra, publique o conto e depois me avise, vou gostar de ler.

      Abraços a você também, e boas festas, de preferência sem contar nada, especialmente calorias e quilos 🙂

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