Um extrato às terças

Deve-se utilizar com prudência essa noção de “politicamente correto”, que serve um pouco facilmente demais como recusa para desqualificar tudo que se opõe ao consenso dominante. A reivindicação de “correção” está ligada a um aspecto efetivamente essencial do qual a noção de partilha do sensível pretende dar conta: as formas da dominação – de classe, de raça, de sexo – são, a princípio, formas inscritas na paisagem do cotidiano, na maneira de descrever o que se vê, de dar nomes às coisas. O perigo, a partir daí, é praticar uma simples operação cosmética sobre as formas da dominação: camuflar a realidade da dominação sob a representação de um universo de pequenas diferenças no qual cada identidade é provida de seu reconhecimento, seus direitos próprios; fazer reinar, por meio de uma linguagem eufêmica, uma outra forma de consenso. (Jacques Rancière1)

Por outro lado, declarar-se perseguido pela “patrulha do politicamente correto”2, no afã de tentar calar qualquer crítica aos próprios atos discursivos, também não vale. Na melhor das hipóteses é desonestidade intelectual; na pior, é puro mau-caratismo. (Acrescento uma “hipótese mais ou menos”: a combinação de ignorância e estupidez, apenas variando a proporção de uma ou outra.)

[Dica da entrevista de onde extraí esse trecho: Rodrigo Cássio, filósofo e jornalista (Vistos e Escritos)]

___________

1 In: NATERCIA, Flávia. Em nome do dissenso, filósofo francês redefine termos e conceitos na arte e na política. Cienc. Cult. [online]. 2005, v. 57, n. 4, pp. 16-16, p. 16.

2 Em um post tratando do referendo sobre armas de fogo (vale a lida, para matar as saudades d’O Biscoito Fino e a Massa), o Idelber tratou logo de avisar: Aos ‘patrulhados pelo politicamente correto’, um lembrete: a moda não é ser ‘politicamente correto’. Essa moda já passou. Isso é anos 80. A moda hoje é declarar-se patrulhado. Quem está na moda são vocês, não os ‘patrulheiros’.”

Anúncios
Esse post foi publicado em reflexões alheias e marcado , , . Guardar link permanente.

4 respostas para Um extrato às terças

  1. Ricardo,
    Que bom ser citado aqui. Obrigado!
    Achei bem perspicaz essa frase do Idelber. Esse afã de regular os atos discursivos passou mesmo por modas diferentes. E a última delas é a que traz consigo o cinismo da ideologia em sua forma atual.
    Da minha parte, na linha do Rancière, penso que a discussão em torno do politicamente correto se equivoca ao pretender determinar o que pode e o que não pode ser dito (ou, o que é o mesmo, nesse caso: como se deve ou não dizer alguma coisa).
    É uma discussão que reflete a linguistic turn nas humanidades, a centralização da linguagem como problema maior no pensamento sobre o homem e a sociedade.
    Basta lembrar que boa parte da filosofia do século XX pretendeu construir uma linguagem melhor e ideal para dar conta da pensamento, dissociando o saber “válido” da linguagem vulgar (em todo caso, o que conta aqui é esse critério monstruoso da “validade”).
    O politicamento correto, entendido como “política pública”, não guarda semelhanças sintomáticas com esse processo de “aperfeiçoamento” da linguagem?
    O problema, aqui, estaria nos fundamentos, e não na prática do discurso. Controlar o conteúdo e a forma de expressão é uma alternativa entre outras para se pensar este fenômeno mergulhado no devir que é a humanidade. O que foi feito da dialética, para a qual uma contradição é sempre benquista? Nesse sentido, entendo que a cobrança do Rancière, na parte citada da entrevista, é precisa: “limpar” a linguagem, para que a diferença seja nela incluída, é o mesmo que anular a própria diferença (e o diferente não é o mesmo que o contraditório!).
    No campo da ideologia, isso significa a continuidade da dominação, e não qualquer outra coisa.
    Um abraço.

    Curtir

    • Ricardo C. disse:

      Rodrigo Cássio, citar um post ou informação de você é quase obrigação cívica 🙂

      Mas como disse o Idelber, a correção política já não está mais na moda. Mas agora, vou inverter um pouco o que eu mesmo disse. Creio que o politicamente correto até teve algum mérito, nem que fosse quando a moda começou: o de ao menos tratar de apontar e questionar o que é dominante. Mas como sugere a fala do Rancière (e também o que você disse), ficar apenas nesse nisso é tratar de ” praticar uma simples operação cosmética […] [e] camuflar a realidade da dominação”.

      Sobretudo, o que me parece mais importante é que haja espaço para todas as falas, sem que precisem ser primeiro validadas por algum juri qualquer, e que elas digam o que querem dizer. Só depois da efetiva elocução de cada ator — sem limpeza ou controle, e com toda a sua crueza — é que o debate se mostra possível. Viva o dissenso!

      Curtir

  2. Camila S. disse:

    “Politicamente correto” agora virou bode expiatório. É certo que o excesso é maléfico à sociedade como um todo, pois limita o livre-pensar, por mais tosco e vil que seja. O politicamente correto deve ser bem dosado, pois, de qualquer forma, temos de arranjar algo que não nos faça atacar uns aos outros como animais na selva, mas por favor, usemos com moderação. Sarcasmo e ironia são expressões bastardas de inteligência.

    Curtir

    • Ricardo C. disse:

      Camila, certamente deve ser bem dosado. Só que ele já foi incorporado ao discurso corporativo, por exemplo, com suas pérolas sobre todos serem “colaboradores” numa mesma empresa, sugerindo o fim das hierarquias a partir da derrubada das divisórias numa sala, como se isso por si só eliminasse o jogo de poder que há em todo canto. Que a linguagem é importante não resta dúvida. Só não creio que seja substituindo adjetivos, substantivos e verbos que se resolva as coisas. Da maneira como se vê, não passam de eufemismos, mas que pouco afetam o que haveria de crítico nas relações.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s