Tanto lá como cá

Alguns sabem que dei aulas em universidade(s) — particulares, vale dizer — durante uns bons dez anos, e que resolvi dar-me “férias” há coisa de um ano. Não interessa explicitar os motivos, mas alguns deles volta e meia “transbordam”, por assim dizer, aparecendo aqui e acolá em posts que tangenciam o tema da educação — lembrando que este blog não tem maiores pretensões além de breves apontamentos sobre assuntos diversos, bem longe de serem profundos tratados sobre tais assuntos.

Dito isto, comento que acabei de ler, no ótimo blog Polítika etc., um post do Raphael Neves sobre a ocupação da Academia de Belas Artes de Viena (Akademie der bildenden Künste Wien), promovida por seus alunos no dia 22 deste mês. (Nem preciso dizer que é para irem direto ao post; aliás, o blog inteiro tem muita coisa boa, tanto que está aqui ao lado, na lista dos blogs que leio.) Do post em questão, destaco três revindicações dos estudantes, das cinco que o Raphael traduziu:

  • Oposição a estruturas organizacionais universitárias determinadas por fins econômicos e à privatização do ensino, pesquisa e conhecimento. Exigem o financiamento público da educação e redemocratização de todas as instituições educacionais.
    (…)
  • Oposição a avaliações que operam com critérios econômicos. São contra a imposição de estratégias de auto-promoção (self-marketing) das universidades.
  • São contra a transformação das universidades e faculdades em estabelecimentos de treinamento orientados pelo mercado de trabalho. A educação deve ser um espaço para o pensamento e não apenas para a reprodução da força de trabalho.
  • Não estão aí à toa. Elas dialogam com algo que vi ontem, durante o exercício masoquista de assistir a Band News. Refiro-me à entrevista que o colunista Sérgio Waib, em seu programa Giro Business (sic), vem fazendo com Ricardo Grau, apresentado a nós como CEO (sic, cem vezes sic) da universidade Anhembi Morumbi. A conversa vem sendo apresentada em pequenos vídeos de aproximadamente dois minutos e meio, e o tema é mesmo o da educação. Na segunda-feira, a (mini) conversa tratou do investimento estrangeiro no ensino superior. Grau afirma que é preciso “…tirar de uma vez por todas da cabeça é um certo preconceito que existe contra o investimento estrangeiro na educação. Ele é um um setor de serviços como outro qualquer…”… êpa, aqui a questão complica, senhor Grau. Como assim?? Não bastando defender esse tipo de investimento — que não seria um problema, desde que haja “…um marco regulatório para a educação superior”, opina o senador Cristovam Buarque —, ainda entende o ensino dessa maneira? Não, senhor Grau, assim fica difícil seguir ouvindo as suas palavras, mais ainda quando a sua resposta ao entrevistador sobre “a razão desse preconceito” é a de que seria “uma coisa cultural antiga, ultrapassada de várias formas, aonde esse capital passa cada vez mais a ser bem-vindo, então é uma coisa que tá ficando no passado mesmo”. Para além dessa fantástica e profundíssima explicação — disse tudo, hein senhor Grau? —, chamou-me a atenção o seu entendimento de que a resistência ao capital estrangeiro seria tão somente preconceito, e não uma posição sobre a regulação de dito capital, que não poderia passar de 30% — seria um problema para a sua instituição, senhor Grau, já que 51% do seu capital hoje pertence (legalmente) à Laureate International Universities —, combatendo assim a mercantilização da educação… se bem que o senhor a vê como “um setor de serviços como outro qualquer”, portanto, deve ser preconceito mesmo, um argumento dessa gente “culturalmente atrasada”.

    .

    Bom, senhores Sérgio Waib e Ricardo Grau, lamento, mas fico devendo a análise dos vídeos de terça, de quarta, de hoje e o de amanhã. Desisto de esmiuçar a conversa de vocês. Não só me falta o estômago, como também a paciência como a que o Celso possui, ele que anteontem destrinchou com maestria uma matéria d’O Globo sobre o bolsa-família. Como contraponto, fico com alguns artigos da Andes e outro da CONTEE, que de alguma forma refletem um pouco esse meu “período sabático”.

    Mas se querem saber o que penso, basta que atentem para os “sic” espalhados pelo post. São a marca do meu desconforto, do que entendo totalmente equivocado. Aliás, faltou o pior deles, o termo usado para o tema discutido no tal programa Giro Business: a indústria da educação (sic, um milhão de vezes sic) .

    Estou é com os alunos da Academia de Belas Artes de Viena. Quero o mesmo que eles.

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    18 respostas para Tanto lá como cá

    1. andreegg disse:

      Eu acho que o Rafael devia ter traduzido Escola de Belas Artes de Viena. Não creio que este tipo de estudante represente bem o conjunto dos estudantes.

      Mesmo assim é interessante que sejam eles a reclamar desta mercantilização.

      Anos atrás ouvi sobre uma revolta generalizada dos estudantes franceses contra a redução da carga horária e o fim das aulas de grego nas escolas públicas.

      E tem gente que pensa que os estudantes seguem a lei do mínimo esforço!

      Minha experiência como professor universitário (tanto em universidades pública como em faculdade particular) é que os alunos estão ávidos. E esperam que a instituição lhes dê a melhor educação. Estão, inclusive, dispostos a se dar o trabalho que isso exige.

      O problema maior está com os professores, acho. Mas também com este salário…

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      • Ricardo C. disse:

        André, seguindo a sua recomendação, eu mesmo mudei para Belas Artes. E não, também não creio que os estudantes que ocuparam essa faculdade represente bem o conjunto dos estudantes, em particular o conjunto dos nossos estudantes. Penso sobretudo nos que pertencem ao grosso das universidades particulares, essas mesmas que em nada refletem a ideia de uma universidade calcada “…no tripé ensino, pesquisa e extensão, completamente independente do mercado”, como avalia o professor Antonio Lisboa Leitão de Souza, diretor do Sindicato Nacional dos Docentes (ANDES-SN).
        Claro que há alunos ávidos, e sua avidez refletirá suas próprias escolhas acadêmicas e seus interesses profissionais. O problema é que o discurso de boa parte das próprias instituições de ensino superior enfatiza o mercado, pensa o aluno como cliente, acredita mesmo que a educação é um serviço como outro qualquer e que é isso que os consumidores desses serviços querem; portanto, é o que elas devem oferecer.
        Algo me diz que seguirei por tempo indeterminado no meu “período sabático não remunerado”.

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    2. Ótimo post, Ricardo. Gostei de tomar conhecimento do movimento dos alunos da Academia de Belas Artes de Viena.

      Seu texto veio de encontro a duas leituras recentes. Movido por uma curiosidade mórbida, todas as semanas leio ao menos o índice da Veja. Na edição da semana passada, foi publicada uma reportagem acerca das faculdades butique (sic), na desta semana, uma entrevista com o atual Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Paulo Renato Souza. Obviamente, só uma publicação como Veja poderia considerar relevantes as opiniões sobre educação do agente público que, no período de oito anos à frente do Ministério da Educação, mais contribuiu para a diminuição da qualidade do ensino superior brasileiro. Muitas considerações podem ser feitas acerca da reportagem sobre as faculdades butique e a entrevista com o ex-Ministro. Não saberia nem por onde começar… Ressalto apenas as palavras de uma estudante de uma das faculdades butique, explicando por que não optou uma instituição pública: “Não queria um curso muito teórico”. As palavras dessa estudante universitária (sic) remetem diretamente àquela que me parece a mais importante das reivindicações dos alunos austríacos: “A educação deve ser um espaço para o pensamento e não apenas para a reprodução da força de trabalho”.

      Na primeiro parágrafo de “Pensar na Idade Média”, o historiador da filosofia medieval Alain de Libera discorre a respeito do duplo significado do título de seu livro: primeiro, pensava-se na Idade Média, havia, na Idade Média, pensadores e um pensamento; segundo, faríamos bem em pensar na Idade Média – mas por quê? Pela beleza do gesto, antes de tudo; “por necessidade, a seguir, a fim de lutar mais eficazmente contra duas formas de preconceitos solidários, estreitamente dependentes um do outro e que nascem da mesma ignorância – o anti-intelectualismo e o etnocentrismo; um que desvaloriza a vida do espírito, o outro que oculta os primeiros inícios e os atores verdadeiros, tendo por único resultado uma ‘nova barbárie’, com todos os esquecimentos e todas as violências de que o Ocidente sabe ser capaz”.

      A importância de um movimento como o dos estudantes austríacos consiste justamente na relevância da exigência, que precisa ser radical e intransigente, do reconhecimento da dignidade da atividade intelectual. As universidades – que tão convenientemente se esquece que surgiram nas sociedades do Ocidente medieval –, como espaço por excelência da atividade intelectual, da vida do espírito, não podem ter seus fins submetidos às e ser reguladas pelas demandas da estrutura do mercado. A teoria não é e não pode ser considera uma mero apêndice da prática. O valor do pensamento se fundamenta no próprio pensamento e não em sua (possível) utilidade.

      Se penso na Idade Média é simplesmente porque quero pensar sobre a Idade Média. Não importa se meu pensamento não serve para absolutamente nada. Todavia, acredito que sirva, caso, como julga Libera, me permita enfrentar mais eficazmente o anti-intelectualismo e o etnocentrismo.

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      • Ricardo C. disse:

        Fabiano Camilo, o que dizer de um comentário tão bom? Contextualiza, com exemplos da realidade brasileira, esse que parece ser um movimento global — ou no mínimo ocidental —, onde impera o anti-intelectualismo, de mãos dadas com as “demandas da estrutura do mercado”, como bem diz você.
        Aliás, essa conversa me fez lembrar de um recente e bem-humorado post do Catatau:
        A culpa é da filosofia.

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    3. Guilevy disse:

      Bem, acho que poderíamos começar resolvendo uma questão semântica, que tangencia seu texto e pode parecer de somenos importância mas não é não – essas coisas não são Universidades! Este tipo de discurso me incomoda profundamente também, Ricardo, e olha que sou engenheiro. Talvez por isto, ser engenheiro, um absurdo que sempre me irritou é o uso por parte do mercado financeiro da palavra produto para vender negócios. O gerente chega e te fala: -Estamos lançando um produto (sic) novo com taxas especiais e… – O que é que eles produziram? Nada! E se bobear estão é onerando a produção.
      CEO de uma Universidade? Indústria da Educação? A que ponto chegamos…

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      • Ricardo C. disse:

        Guilevy, assino embaixo das tuas questões semânticas, embora perceba que essas instituições não darão a menor bola para o que você, o André, o Raphael e eu levantamos por aqui e seguirão vendendo diplomas à prestação, tratando na base do chicote aqueles que costumam dificultar essa transação comercial: os professores.
        P.S. O seu “e olha que sou engenheiro” foi bem divertido. Nada como saber rir de si mesmo, não? Hora dessas conto uma ou outra sobre os psicólogos, esse bando de loucos. 😛

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    4. Raphael Neves disse:

      Caro andreegg, tens toda razão. Vou mudar o negócio lá… fiz meio na pressa e traduzi toscamente. Belas-Artes, sem dúvida.

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      • Ricardo C. disse:

        Raphael, isso não diminui as questões que seu post (e tantos antes dele) levanta(m). Acompanho com atenção as tuas reflexões sobre a universidade, esteja certo disso.

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      • andreegg disse:

        Sim, um preciosismo besta meu. É que estudei na Escola de Música e Belas Artes do Paraná.

        Realmente não muda nada a relevância da notícia que você deu. Daqui a pouco vou comentar lá também, que a questão é por demais relevante.

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    5. Luiz disse:

      Ricardo,

      Primeiro, você é um monstro. Conseguiu assistir UM daqueles programetes do Sergio Waib. Meu limite são 10 segundos, e olhe lá…

      Depois, acho você a pessoa certa para, a partir do tema deste post, analisar o que aconteceu na UNIBAN, em São Bernardo.
      Medonho.
      Lembrei daquela discussão dia desses no Rafael Galvão sobre a França, 2ª Guerra, colaboracionismo e vingança.
      E sobre o assunto (UNIBAN), o Darw abriu a caixa de ferramentas lá no blog dele…

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      • Ricardo C. disse:

        Luiz, esse programa é muito ruim mesmo.
        Quanto ao caso Uniban, fico com o post do Darw, não sei se teria muito a acrescentar. Sei que somos bem mais conservadores do que parecemos, e que o comportamento de matilha é do humano, infelizmente. A Lola já escreveu sobre o assunto, e a Mary W. também, então acho que eu não teria muito o que acrescentar sobre ele…
        Abraços, meu amigo, e agradeço a sua confiança na minha capacidade de dizer algo que preste, hehe.

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    6. Ricardo, obrigado pela sugestão do texto do Catatau. Irônico e preciso.

      Abraços!

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    7. Pingback: Catatau

    8. Guilevy disse:

      Claro que você viu este post do Catatau:

      http://catatau.blogsome.com/2009/11/03/entre-o-meritocrata-e-o-tecnocrata-o-mundo-e-dos-espertos/

      Vocês combinaram?
      Ou será que quem combinou foi o Paulo Renato com o Ricardo Grau?

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      • Ricardo C. disse:

        Guilevy, não combinamos não, mas não me surpreende. Volta e meia o Catatau e eu temos alguns bons diálogos, tanto diretos quanto desse tipo que vc sinalizou. Só que ele embasa muito melhor do que eu o que costuma dizer, garanto!

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    9. Pingback: Ensino superior, a Geni da vez | Ágora com dazibao no meio

    10. Catatau disse:

      Vale dizer que aquele post do Catatau é, como o assunto, inspirado em fatos reais, heheh

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