A falta que ele me faz [1]

_____ “O não culpar é o perdão. O perdão que perdoa não é o verdadeiro perdão.”

_____– Quem foi que disse isso?

_____– Foi o Lama Padma Samten.

_____– Ah, e só porque foi um Lama e não um pastor da igreja planetária do reino do arari bandura você já dá um crédito danado, né?

_____– Para com isso, olha a mensagem. É profunda pra caramba.

_____“O não gozar é a abstinência. Bater punheta ou siririca não é a verdadeira abstinência”. Essa é do Lama Zé Mayer Cansado de Ser Garanhão de Novela.

_____– Você sempre dá um jeito de sacanear, né? A partir de hoje, só abobrinha, nunca mais converso contigo sobre qualquer coisa mais séria.

_____– Tá bom, tá bom, retiro o que eu disse, desculpa, vai, só quis brincar um pouquinho. Mas agora sério, por que você resolveu vir com essa história de perdão? E nem quero saber o que foi que eu fiz pra que você me perdoe, porque se não a conversa não vai acabar nunca, hehe. De verdade, fiquei curioso com essa sua nova questão.

_____– Tá legal, eu te conto. É que se tem uma coisa que me incomoda hoje em dia é ver a quantidade de gente que aprendeu a gritar pelos seus direitos, a reclamar de todo o mundo, a denunciar tudo o que acha que tá errado.

_____– Poxa, mas isso tá errado? Finalmente nesse nosso Brasilzão patriarcal-senhor-de-engenho-com-saudade-da-ditadura as pessoas começam a sair da passividade, a não fazer mais vista grossa pras desgraças e sacanagens que rolam por aí, e você acha ruim?

_____– Não, não é isso. Essa parte tá certa. Mas duas coisas me incomodam. Primeiro, o ladinho classe-média nojento de muitas dessas queixas, principalmente quando as pessoas querem mesmo é reivindicar privilégios. E segundo, que na hora de exigir seja lá o que for ou criticar o que quer que o valha, as pessoas não têm o menor pudor em ser agressivas e achincalhar os outros; mas se depois descobrem que estavam erradas, não movem um músculo pra reparar o dano, nem um pedidozinho de desculpas elas dão.

_____– Bom, eu ia falar que isso é bobagem, mas pensando bem, a galera anda mais pra arrumar desculpas do que pra pedir desculpas com sinceridade…

_____– Pois é, isso anda me incomodando bastante. Claro que tem gente especialista em aprontar e depois pedir desculpas, gente que acha que basta usar essa expressão e todo o dano fica automaticamente reparado, e ainda por cima libera a pessoa pra fazer novas merdas. Mas não é do comportamento desses tipos em especial que eu tô me queixando, e sim de uma espécie de regra onde se desculpar, reconhecer o erro, reavaliar uma posição — só que responsabilizando-se pelo que fez ou pensou diferente antes dessa reavaliação —, isso parece que caiu de moda.

_____– Já foi moda antes?

_____– Não sei, nem acho que seja essa a questão, senão daqui a pouco começa aquele papo de que antigamente era tudo melhor e você sabe como isso me aborrece. Mas em todo caso, as coisas poderiam ser um pouquinho diferentes. Aliás, sabe de uma coisa, refletindo de um jeito meio histórico, acho ótimo que o surgimento de uma certa “ética dos direitos do consumidor” dentro do capitalismo tenha contribuído bastante para dar mais visibilidade uma série de movimentos e lutas, especialmente as identitárias.

_____– Ahn?!?

_____– É, questões como a emancipação feminina e sua liberdade sexual, direitos das minorias, essas paradas.

_____– E daí?

_____– Daí que a parte ruim é que tem uma espécie de efeito colateral meio complicado em algumas dessas lutas.

_____– Humm, cuidado pra onde você está caminhando, vai arrumar briga com meio mundo…

_____– Calma, deixe eu me explicar. Encontrei uma fala da Maria Rita Kehl onde posso sustentar melhor o que digo, e salvei num arquivo. Deixe eu ler um trecho pra você:

A militância identitária teve seu momento progressista até meados da década de 1970, quando se tratava de denunciar a dupla moral sexual, a falta de dignidade e de autonomia causadas pela dependência econômica de grande parte das mulheres — em suma, a infantilização da condição feminina, incompatível com as liberdades individuais promovidas e demandadas pelas sociedades individualistas do pós-guerra. Penso que o capitalismo entrou, sim, em contradição com as antigas formas de patriarcalismo, pois precisava das mulheres como agentes sociais livres — e não apenas como fornecedoras de força de trabalho, mas também como consumidoras. A ética dos “direitos do consumidor” favoreceu as lutas pela emancipação feminina, como hoje favorece o movimento pela dignidade e a auto-estima dos homossexuais.
Hoje, se as lutas identitárias não ultrapassarem o estágio de auto-afirmação grupal e/ou individual e não se aliarem às causas coletivas, solidárias, correm o risco de estagnarem-se em demandas narcisistas, em um vitimismo estéril, em políticas do ressentimento. É o caso de uma parte dos movimentos feministas norte-americanos, que hoje se dedica basicamente a acusar os homens e vitimizar as mulheres, vindo a desaguar em reivindicações conservadoras como a de proteção policial contra o assédio sexual: como se as mulheres emancipadas, em sociedades democráticas, não pudessem se defender sozinhas dos assediadores mais abusados — ou ceder de boa vontade a seus convites. A criminalização do assédio sexual é remanescente do puritanismo e do romantismo pré-feministas. É como se algumas mulheres não quisessem pagar o preço da autonomia e da emancipação recém conquistadas: reivindicam seus novos direitos, mas não aceitam perder os privilégios (por sinal bastante duvidosos) das antigas idealizações sexuais.

[…] penso que a vitimização das mulheres é o caminho certo para o estabelecimento do ressentimento social. Uma das participantes da mesa desta manhã, ao denunciar a persistência do patriarcalismo na esquerda, citou o exemplo de mulheres que lutaram na linha de frente na Guerra Civil espanhola e depois, na vida conjugal, foram “relegadas” por seus companheiros ao papel de donas de casa. Tudo bem: esta rendição feminina ocorreu há quase setenta anos. Mas hoje, é fundamental questionar o engajamento subjetivo voluntário (ainda que inconsciente) de todas as mulheres que, em nome de não sei que paz doméstica, aceitam ser “relegadas” por seus maridos a qualquer papel que não queiram desempenhar. Os discursos feministas que não interpelam diretamente as mulheres em seu desejo de submissão desembocam necessariamente em políticas do ressentimento, para as quais é necessária a permanência de um algoz que nos permita desfrutar dos prêmios de consolação oferecidos a quem aceita condição de vítima.

_____– Por um lado, isso ficou meio comprido; e por outro, tudo o que você cortou do texto, a parte que ela fala de lutas solidárias, é super importante também. Do jeito que você leu, parece até que o que quer é falar mal de algum tipo de feminismo… Você tá perdendo o foco.

_____– Tem razão. Então vou só destacar algumas coisas e acho que você vai entender onde eu quero chegar. A autora fala do risco das lutas identitárias caírem num “vitimismo estéril, em políticas do ressentimento”. Só que o texto dizia respeito a um seminário sobre as contradições entre capitalismo e patriarcalismo, daí que parte dele aborda as tais lutas identitárias, centrando-se sobretudo no feminismo, e aborda também as lutas solidárias, que de certa forma poderiam ser um novo estágio a ser alcançado pelas primeiras.

_____– Tá, e onde fica o tal efeito colateral que você comentou antes desse blá blá blá todo?

_____– É mais de um, mas começo mesmo é pelo ressentimento, um tema por sinal super bem trabalhado pela mesma autora num livro que ela publicou em 2004. Lá vou eu pra mais alguns trechos dela, que escreve bem melhor do que eu:

Ressentir-se significa atribuir a um outro a responsabilidade que nos faz sofrer. Um outro a quem delegamos, em um momento anterior, o poder de decidir por nós, de modo a poder culpá-lo do que venha a fracassar.
[…] O ressentido não é alguém incapaz de se esquecer ou de perdoar; é um que não quer se esquecer, ou que quer não se esquecer, não perdoar, não deixar barato o mal que o vitimou.

Pois é desse jeito que vejo uma pá de gente hoje em dia, tentando perpetuar ao máximo uma certa condição de vítima — que pode até ter sido outrora — e justificando todo e qualquer gesto agressivo, toda exigência de algum privilégio, a partir do status de “credor” do mundo, do Estado, dos pais, do irmão mais velho que lhe dava cascudos quando criança etc. O chato é que as queixas se dão sobretudo em relação aos movimentos identitários, como se eles andassem fazendo um estardalhaço maior do que deveriam. Da minha parte, vejo esse tipo de atitude em “n” lugares, nada a ver com movimentos das minorias, e acredito que quem vive acusando o ressentimento alheio costuma ser tão ressentido quanto.

_____– Ih!, tô achando que você continua é se metendo em encrenca… Só falta dizer que é contra as cotas, que não existe racismo no Brasil, que a culpa de tudo é do Lula, que as feministas são um bando de mal-amadas…

_____– Não, não é nada disso. Catzo!, eu só queria refletir um pouco sobre o perdão, seja pelo lado de quem foi lesado — e é nisso que encaixo o papo do ressentimento —, seja pelo daquele que lesou e bem poderia começar a reparar o dano se desculpando por ele. E sobretudo não queria apelar pra argumentos religiosos, porque tem gente pensando sobre o assunto que me interessa muito mais do que padres, pastores e bíblias.

_____– Então avance mais um pouquinho nisso, vá, e não se esqueça que você começou com a frase de uma Lama, figura não tão distante assim desses religiosos de que você diz querer distância…

_____– Hoje não, porque a conversa ficou enorme e já estou cansado, mas amanhã eu volto e falo mais um pouquinho do assunto. Enquanto isso, paciência, tanto pra quem quer saber onde eu vou parar com esta conversa, quanto pra mim mesmo, pro fato de que alguns acham que não tem jeito, esse meu discurso não vai chegar a lugar nenhum que mereça perdão.

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5 respostas para A falta que ele me faz [1]

  1. confetti* disse:

    nada à declarar, so um enorme prazer em ter lido esse post :-))))

    ( sidney mirandao passou ali no feedjit…deve ter sorrido também ! )

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    • Ricardo C. disse:

      A tua presença
      Entra pelos sete buracos da minha cabeça
      A tua presença
      Pelos olhos, boca, narinas e orelhas
      A tua presença
      Paralisa meu momento em que tudo começa
      A tua presença
      Desintegra e atualiza a minha presença
      A tua presença
      Envolve meu tronco, meus braços e minhas pernas
      A tua presença
      É branca verde, vermelha azul e amarela
      A tua presença
      É negra, negra, negra
      Negra, negra, negra
      Negra, negra, negra
      A tua presença
      Transborda pelas portas e pelas janelas
      A tua presença
      Silencia os automóveis e as motocicletas
      A tua presença
      Se espalha no campo derrubando as cercas
      A tua presença
      É tudo que se come, tudo que se reza
      A tua presença
      Coagula o jorro da noite sangrenta
      A tua presença é a coisa mais bonita em toda a natureza
      A tua presença
      Mantém sempre teso o arco da promessa
      A tua presença
      Morena, morena, morena
      Morena, morena, morena
      Morena

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  2. Gwyn disse:

    Ricardo,

    Eu tenho muita curiosidade de ler o que voce escreveria sobre pessoas que voce conhece e vivem assim..

    “O não culpar é o perdão. O perdão que perdoa não é o verdadeiro perdão.”

    bjs

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