Contexto

Volta e meia falo desses dois casos, mas não me recordo de tê-lo feito num post.

O primeiro é o de um psicólogo clínico de certo renome, na faixa dos quarenta, com mais de vinte anos de experiência profissional, que num workshop virou-se para os presentes e pontificou:

Eu me recuso a atender alguém que afirme votar pelo PDS.

O segundo é o de uma psicóloga clínica, na faixa dos trinta, também com muitos anos de experiência profissional, de trabalho admirado por seus pares. Ainda nas entrevistas preliminares realizadas com a esposa do embaixador do Japão — lotado em certo país latino-americano (não o Brasil) —, tendo ouvido a embaixatriz descrever seu hábito de sempre andar atrás do marido e não ao seu lado, comunica-lhe (com muito tato) que precisava encaminhá-la a outro profissional. (No relato que ouvi, esse encaminhamento ocorreu sem problema algum e a embaixatriz passou a ser atendida por outro psicólogo.)

O que vocês diriam desses dois profissionais?

.

Antes que respondam, alguns adendos:

1) o psicólogo do primeiro caso era irmão de um ex-preso político que fora torturado durante a ditadura militar;

2) a psicóloga — cujo consultório situava-se numa grande metrópole de um país latino-americano algo conservador — relatou que a embaixatriz em momento algum deu a entender que via algo de errado no fato de andar atrás do marido, e que buscara terapia por outros motivos. Mas a profissional afirmou — não à paciente e sim aos seus pares —, de maneira análoga ao caso nº 1, que se recusava a atender uma mulher de classe social, idade e escolaridade próximas às suas, que aceitasse, sem qualquer discussão, andar de cabeça baixa atrás do marido.

.

É com vocês.

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18 respostas para Contexto

  1. Catatau disse:

    Muito boa questão, rsss

    Talvez no segundo caso esteja em questão mais a individualidade da psicóloga diante de tradições culturais (no japão há tradições nas quais as mulheres andam atrás de seus maridos), enquanto no primeiro a individualidade do psicólogo (ser irmão de um ex-preso) se mistura com um contexto real, socialmente delimitado, de práticas, digamos, fascistas…

    Nos dois casos o psicólogo se recusa a atender por espécies de limitações pessoais. Mas no primeiro há uma questão ideológica, política e concreta; no segundo, um preconceito e projeção cultural.

    Será que vai por aí?

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    • Ricardo C. disse:

      Catatau, quanto à explicação sobre o que move cada um dos profissionais, vejo que sua leitura é precisa. Mas o que você me diria em relação à atitude profissional de ambos?

      (Algo me diz que já sei a sua resposta, e aposto que minha opinião é a mesma que a sua. Queria muito era saber a visão de pessoas “não psis”…)

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  2. Oi Ricardo!

    Também gostei da questão. Seria algo imprudente considerar que, antes de serem profissionais, os psicológos também são homens e mulheres com uma estrutura psíquica particular?

    Vou trazer para o meu lado: penso na situação de um professor de filosofia que precisasse dar aulas sobre o marxismo para um aluno ultra-conservador, segundo o qual o mundo está precisando é de moralização e mais punição.

    Certamente, nos dois casos, o dos psicológos e o do suposto professor, a maior adversidade ao trabalho é essa imensidão que é o Outro, quando ele é muito, mas muito Outro. Um Outro que incomoda porque segue a direção completamente oposta ao que consideramos mais importante e necessário de ser admitido.

    Os psicólogos que você cita precisariam vencer esse desafio de lidar com pacientes que, para eles, são este Outro. Mas quando é que esse esforço vale a pena? Aí penso que há casos e casos. Eu não daria aula para certos alunos, porque sei que não valeria a pena. Mas talvez esses mesmos alunos devessem ser atendidos por psicólogos (e só assim poderiam ser verdadeiros alunos, rs).

    Ou será que estou simplificando demais as coisas? rs

    Um abraço.

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    • Ricardo C. disse:

      Rodrigo Cássio, ótimas ponderações. O que tenho a acrescentar é que o que entendo por psicoterapia distingue-se da dimensão propriamente pedagógica, embora em alguns momentos possa haver algo de pedagogia num setting psicoterápico. A questão é que na relação terapêutica, mais do que na pedagógica, a escuta é instrumento primordial, e nos casos que citei, os terapeutas simplesmente assumem o quanto aquelas questões são centrais para ambos, a ponto de entenderem que elas interfeririam em sua escuta — e também nas suas falas, é claro — de tal forma que comprometeria a qualidade do seu trabalho. Nesse sentido, pegando a sua frase do esforço valer ou não a pena, diria não tratar-se propriamente disso, mas do risco de prejudicar o processo do outro em função de questões que não são importantes para ele e sim para o próprio terapeuta. Isso sera tremendamente anti-profissional.

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      • Colafina disse:

        Também penso assim, Ricardo.

        Difícil colocar-se no lugar do psicólogo. Sua atitude me parece coerente, da mesma forma que juízes abstém-se de julgar questões nas quais estejam envolvidos de alguma forma. Assim, preservam sua parcialidade e credibilidade, evitando possíveis – e prováveis – implicações no futuro.
        Antes de permitir que um trauma familiar interfira no seu discernimento e prejudique (ou simplesmente não ajude) seu paciente, a negativa no atendimento parece uma atitude honesta e, por que não dizer, corajosa.

        Sobre a psicóloga, sua atitude aparentemente baseia-se num preconceito, ou até mesmo no reconhecimento prévio de sua incapacidade em lidar com uma questão cultural tão arraigada como o hábito relatado pela embaixatriz e, desta forma, a qualidade do seu atendimento também poderia ser comprometida.

        Analisando exclusivamente sob este aspecto, com a óbvia impossibilidade de analisar sob a ótica “psis”, mesmo que por motivos tão diferentes, considero corretas suas atitudes .

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      • Ricardo C. disse:

        Colafina, houve uma “licença poética” da minha parte na história da psicóloga — que é verdadeira, o encaminhamento e as razões alegadas foram essas —, já que não houve essa afirmação categórica dela de que “se recusava a atender uma mulher de classe social, idade e escolaridade próximas às suas, que aceitasse, sem qualquer discussão, andar de cabeça baixa atrás do marido”.

        Como dei a entender, uma profissional do sexo feminino em um país latino-americano algo conservador, onde a posição da mulher no mercado de trabalho exige-lhe matar um leão por dia, com as conquistas sendo postas à prova em toda oportunidade. (O ocorrido se deu no início da década de 80, a situação era bem mais difícil naquela época.) Quando ouvi a história, entendi (e me solidarizei com) o fato de que, para ela, esse aspecto representaria um possível “ruído” que prejudicaria o seu trabalho, e o foco está sempre nas questões do paciente, não do terapeuta. Foi profissional de sua parte, mesmo que tenha soado a preconceito.

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      • Ricardo,
        É isso. Importante mesmo diferenciar a psicoterapia da pedagogia, ainda que algumas aulas, às vezes, se transformem em verdadeiras sessões psicoterapêuticas, rs. Meu cotejo falhou nesse ponto.
        Um professor que recusasse um aluno apenas por diferenças ideológicas seria tremendamente anti-profissional. Não queria me referir tanto a essas diferenças, em si mesmas, mas à maneira como os alunos (e os professores, por que não?) lidam com elas. Porque é possível discordar e aprender. Aliás, é até melhor assim. Sem dissonâncias, não há filosofia.
        Mas não é raro, contudo, notar que alunos ou professores ficam estanques em suas posições, e se defendem demasiadamente, a ponto de não mais conseguirem ouvir o outro. Às vezes, essa barreira trava tudo, e pode ser melhor nem iniciar o “processo pedagógico”, antes de resolvê-la. O melhor, sem dúvida, é o professor insistir.
        Também um psicoterapeuta não deveria insistir? Não seria capaz de assumir um distanciamento em relação às singularidades sua e do paciente, a fim de conduzir o processo?
        Abraço.

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      • Ricardo C. disse:

        Rodrigo Cássio, na questão pedagógica, a insistência faz sentido, mas no setting terapêutico não, especialmente se vc fala de uma insistência por parte do terapeuta em tentar neutralizar certo tipo de limites que estão nele, não no paciente.
        Supervisão para o terapeuta, em primeiro lugar; terapia/análise, eventualmente, mas não forçosamente — e aqui faço referência ao comentário #6 do Catatau —, mas sobretudo para circunscrever melhor as questões do paciente.
        Frequentemente, quando os psicoterapeutas/psicanalistas esbarram em questões sensíveis para eles mesmos, tendem a ser mais conservadores em suas intervenções, isto é, “ousam” menos. O risco é que o processo se torne burocrático, e neste caso com o aval do próprio profissional, o que não é bom, para dizer o mínimo. Mas pelo menos não atropelam o processo do paciente com questões que não são propriamente deles, o que seria muito pior.

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  3. Catatau disse:

    Pois então, até meio na linha do artigo do Calligaris sobre aquela psicóloga censurada, parece certa a atitude de negar atendimento ou encaminhar os pacientes: o psicólogo assume uma limitação, e não insiste nela, sabendo que influenciaria no atendimento. Os dois acima fariam o que muitos não fazem. Como é difícil aceitar limitações próprias!

    Mas mesmo assim é estranho falar de tais “limitações”, rsss

    também fiquei curioso sobre o parecer teu e dos não psis, rsss

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  4. alex castro disse:

    “O que vocês diriam desses dois profissionais?”

    eu diria que qualquer profissional liberal tem o direito de atender somente quem quer, e não precisa se explicar, ou citar seu contexto. já seria suficiente simplesmente dizer, “nao me senti bem o bastante na companhia dessa pessoa pra passar duas horas por semana sozinha com ela em uma sala”

    acho que, nesse caso, o contexto inclusive atrapalha. dá a impressão de que eles precisam se explicar, ou que precisam ter uma razao valida (e “contextual”) pra recusar um paciente….

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    • Ricardo C. disse:

      Alex, no código de ética do psicólogo há alguns itens que é bom considerar, pensando nesses casos que citei:

      Nos princípios fundamentais, destaco o II:
      “O psicólogo trabalhará visando promover a saúde e a qualidade de vida das pessoas e das coletividades e contribuirá para
      a eliminação de quaisquer formas de negligência, discriminação,
      exploração, violência, crueldade e opressão.”

      Nesse sentido, por mais que cada processo psicoterápico seja único, com quadros que podem ser moderados, graves, ou mesmo o de alguém na busca de um maior “saber de si” e sem algum padecimento em particular, o terapeuta não pode atender “somente quem quer”, mas sim a quem ele está capacitado a atender. Acontece que o “instrumento” de trabalho do psicólogo é ele mesmo, inteiro, e a “distancia” do paciente não pode se dar nos mesmos moldes do que costuma ocorrer em algumas especializações médicas, por ex., onde a dessensibilização, se não é regra, é o mais comum.
      Há diferentes linhas, com orientações diretivas e não diretivas etc. Mas independente delas, por mais que o profissional deixe as suas questões pessoais fora do consultório, que se submeta ele tb a terapia, que recorra à supervisão, ele sabe (ou pelo menos deve saber) que da sua escuta participará muito de quem ele é. Nesse sentido, reconhecer as tais limitações de que o Catatau falou é fundamental, pois tentar passar por cima delas pode causar estragos no processo terapêutico. (Por sorte, a quase totalidade dos pacientes “sobrevivem” a terapeutas ruins…)

      Sobre o contexto, usei apenas para apontar tipos de limitações, não para dar uma razão de maior validade. É claro que em nenhum dos dois casos elas deveriam ser explicitadas aos pacientes, e de fato isso não ocorreu. Mas a despeito da radicalidade com que o primeiro psicólogo expôs os limites que ele impõe ao seu trabalho, que ele tenha clareza de que não faria um bom trabalho se fizesse vista grossa a eles é mesmo louvável. De qualquer forma, no código de ética há um item sobre o encaminhamento:

      Art. 1º, dos deveres fundamentais dos psicólogos:
      k) Sugerir serviços de outros psicólogos, sempre que, por motivos
      justificáveis, não puderem ser continuados pelo profissional que os
      assumiu inicialmente, fornecendo ao seu substituto as informações
      necessárias à continuidade do trabalho.

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  5. alex castro disse:

    Ricardo,

    a questão é somente de nomenclatura e de justificativa. Na pratica, o psicologo só atende quem quer porque, se for alguém que ele não quer, teoricamente ele não vai estar proporcionando àquele paciente o melhor tratamento possivel, o que violaria o código de ética da profissão. Nesses casos, o eticamente correto é encaminhar o paciente para um outro terapeuta que possa lhe dar o melhor tratamento possível.

    Ou seja, muda a modo de se justificar, e mudam as palavras que são usadas, etc etc, mas, na pratica, o psicologo ou terapeuta, ainda mais se profissional liberal e nao vinculado a nenhum hospital, só atende quem quer.

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  6. Catatau disse:

    Pois então,

    A questão é muito boa pq toca em algo que para os psicólogos é um vespeiro:

    – em primeiro lugar, por ser profissional de saúde, há algo parecido com um “juramento de Hipócrates”, um mandamento de ajudar quem precisa e independente das condições

    – em segundo, existe uma grande influência freudiana, mesmo para as terapias não freudianas e contrárias ao freudismo, de que o terapeuta deve ter sido antes “atendido”, para aprender a não misturar os conteúdos próprios com os do paciente

    – em terceiro, sabendo que um terapeuta 100% “elaborado” é um mito (pois é apenas um conceito regulador, e não uma meta atingível), a alternativa de não atender, encaminhando o paciente, parece a mais válida

    – mas em quarto, assumir as limitações, nesse conjunto de temas, tem dois sentidos: o primeiro é o sentido expresso acima, de que um psicólogo deve reconhecer suas limitações e preconceitos, e não atender quem sabe que será “atingido” por eles; mas por isso mesmo, o segundo é que, grosso modo, é critério básico de uma psicoterapia um psicólogo NUNCA misturar os conteúdos próprios com os dos outros, e portanto o psicólogo é tanto mais capaz de atender quanto assume mais a própria ignorância e limitação. Se aceitamos isso, o psicólogo que não atende porque “escolheu” ou “reconheceu a limitação” seria convidado a pensar sobre qual é, no limite, a linha que separaria um cliente e um não cliente.

    Daí os temas, as escolhas e os conceitos variam. A resposta é diferente para um psicanalista ou um tecnocrata, por exemplo.

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  7. lu disse:

    ricardo, eu não sou psicóloga, nem psicanalista, mas do pouco que sei, ninguém é perfeito, e um bom analista sabe das suas limitações e sabe quais pacientes ele não é a melhor pessoa pra ajudar. Tou comentando, na verdade, pra contar o caso da analista do meu pai, que depois de poucos meses de péssima análise (pelo q ele me contava, ela dizia uns absurdos), enfim, ela ficou tão puta da vida que AOS BERROS mandou meu pai sair da sala dela IMEDIATAMENTE e nunca mais voltar, e bateu a porta atrás dele. Fato: meu pai é um cara mui distinto, um verdadeiro gentleman, que jamais levantaria a voz com a analista dele, quanto mais ser agressivo…. rs.
    beijo!

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    • Ricardo C. disse:

      Lu, verdade, ninguém está nem um pouco perto da perfeição, e o povo psi não só comete lá os seus deslises, como tb tem uns dias meio ruins. Mas deu uma curiosidade danada saber em que calo da moça o teu pai pisou para que ela reagisse assim, hehe. E se vc souber, por favor, só não escreva por aqui. Isso porque lembrei de um outro item do código de ética do psicólogo referente aos seus deveres, que diz:

      “j) Ter, para com o trabalho dos psicólogos e de outros profissionais, respeito, consideração e solidariedade, e, quando solicitado,
      colaborar com estes, salvo impedimento por motivo relevante”.

      Já pensou se alguém me acusa de falhar na primeira parte ou me me solicita colaboração, como diz a segunda parte? 😛

      Beijos bem-humorados

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  8. lu disse:

    bom, ele me contou tudo o que foi dito, e mesmo assim, não sabemos, nem eu nem ele, qual foi o calo dela. eu desconfio que ela se identificou com a minha mãe (meus pais estavam se separando) e projetou muita coisa dela. Mas pra saber o calo qual foi, só perguntando pro analista daquela louca, hahahahaahahaah.
    acho incrível a criatura ganhar dinheiro atendendo, quer dizer, enganando as pessoas no consultório desse jeito…. rs
    :***

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