Um sujeito menor

Pouco trágico, pouco indulgente, pouco industrioso. Apoucado, exceto de mornidão.

Um miserando.

“Sempre me surrupiaram o cimo!”, barrocava. Sua atividade diária: ver quantas vezes chegara atrasado, quantos à sua frente faziam das ideias obras. Resultado: retardatava, até no imaginado.

Creditava a sua desdita aos vizinhos. A começar pelos do berçário, que certamente urraram no tom que desviara a atenção para onde quer que fosse, menos para ele. Sabia, por não dar conta de esquecer, de um choro seu que não suplicava, nem condoía. Incomodava, se tanto, apenas por passar despercebido. Mas era moléstia pouca, quase nenhuma, quase a ninguém, exceto a ele mesmo.

Odiava. Os escritores, especialmente. Os contemporâneos, particularmente. Os de sua geração, mais ainda. Mas mesmo o ódio, que nos livros fabrica sofisticados personagens e intrincadas tramas, nele se manifestava torpe. Crendo-se ardiloso, cavilosava conspirações tão toscas que só reverberavam em sua limitada consciência. Imaginava-se descobrindo o domicílio daqueles usurpadores de ideias para fazê-los saber que ele as pensara muito antes, sem admitir dar-se conta disso só depois de tê-las visto impressas, crédito de outros.

Parvas até o tutano, as suas maquinações. Ansiavam grandiloquência, mas faltavam-lhes vulcões. Delas, o estrépito de flatos, quando muito. Sua mais recente manobra: gerar remorsos e culpa nos que ainda tinham-lhe restinga de afeto, matutando sobre o empreendimento e antegozando os resultados.

Só uma coisa lhe amargava: e se fosse verdade? E se parte dessa nódoa fosse sua, fosse inveja desgovernada? E se lhe ocorresse de, por isso, viver mais do que todos? E se todos se fossem, antes de sentirem o talho de sua navalha propositalmente sem fio? O que seria de si?

O amargor virou paúra. E essa, mais do que a inveja, sabidamente prolonga a tibieza da vida, por guardá-la de riscos.

Turvou-se, franziu-se, ensimesmou-se, mais ainda. O calor gerado, porém, foi pouco. Ninguém percebeu. Ninguém.

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7 respostas para Um sujeito menor

  1. bitt disse:

    Texto do caramba. Não é que eu tenha entendido – não entendi mesmo, mas isso não tira a qualidade da forma. Por sinal, o exercicío de combinar matematicamente as palavras é fascinante – como essa parte aqui: “Turvou-se, franziu-se, ensimesmou-se, mais ainda. O calor gerado, porém, foi pouco. Ninguém percebeu. Ninguém.” O som se encaixa como se fosse regido por análise combinatória. É por isso que, diz um amigo, um computador nunca fará poesia sozinho.

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    • Ricardo C. disse:

      Bitt, tem algumas partes nele onde eu queria justamente melhorar a sonoridade. Mas gosto dessa parte que vc destacou, embora queira distância dos sentimentos desse sujeito menor…

      Abração, é sempre bom te ler por aqui. Honra-me.

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  2. Gwyn disse:

    Quantos sentimentos em palavras, quantas palavras traduzindo sentimentos.

    Fantastico texto! Faz tremer do calor e de frio…

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    • Ricardo C. disse:

      É bem barrocão, Gwyn, quase rococó. Mas gosto dele, tanto que trouxe ele de volta, com ligeiras mudanças (nunca fico satisfeito com o resultado).
      Mas se desperta o que vc diz, é sinal de que ele foi mais longe do que eu esperava…

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  3. Colafina disse:

    Bom, muito bom!
    ‘Maquinações parvas até o tutano’ é o máximo. Rococomente falando, ou não, muito bom!

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    • Ricardo C. disse:

      Quando comecei a me arriscar nessas ficcionices, apreciava usar esse vocabulário castiço-fake, inspirado um pouco em meu avô materno. Mas o português dele sim que era escorreito, enquanto o meu no máximo tenta parecer correto, hehe.

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      • Ricardo C. disse:

        E derivar alguns verbos tb me agrada. “Redartatar”, de retardatário; “cavilosar”, de caviloso. Me divirto com a sonoridade deles.

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