Invasões Bárbaras, um filme de época

A partir da lista do post anterior e das que os comentaristas fizeram, lembrei desse filme 1, uma obra que não creio fazer parte do Olimpo das produções cinematográficas inesquecíveis e atemporais, mas que tem lugar especial entre os filmes desta década que tive o prazer de assistir. E aproveito para trazê-lo um pouco à memória de outros tantos que o viram e talvez nem lembrem, se formos considerar que foi lançado no longínquo ano de 2003…

Assisti pouco depois de lançado no Brasil, se não me engano em novembro daquele ano. Tratou-se de um filme necessário (para mim, é claro), não tanto por suas características estritamente cinematográficas — ele não tem nada de inovador do ponto de vista formal, obedece à esquemática linguagem comum aos filmes que vemos diariamente e logo esquecemos —, mas por tratar-se de uma continuação que, é justo dizer, não tinha nada de caça-niqueis, indo na contramão daquilo que costuma caracterizar uma continuação no âmbito do cinema… Êpa, dizer que se trata de uma continuação vale como motivação para ver um filme? Humm, eu também estranharia se lesse algo assim. Mas dê um desconto, vá, pois já sinalizei que não se tratou de uma continuação qualquer. Ela apareceu dezessete anos depois de “O Declínio do Império Americano“, também de Denys Arcand, e o reencontro dos personagens ocorre em função de Rémy (Rémy Girard) descobrir um câncer já em fase avançada… Não, espere um pouco, melhor paro por aqui com os detalhes sobre a história e peço que se dê ao trabalho de vê-lo, ou então recorra a uma descrição como esta — desde que não deixe também de ler a crítica demolidora de Filipe Furtado na Contracampo, muito bem construída, e da qual só me restou concluir que aos olhos do autor sou mesmo um conformista, conservador e piegas, apesar dele nunca ter me visto mais gordo.

Piegas até posso ser, e com alguns quilos acima do peso também, mas tenho alguns motivos para não considerar o filme assim. O mais prosaico deles: o da identificação; e, ainda em meu caso, credito não tê-lo achado melodramático (num tom piegas) em parte ao fato de ter visto “O Declínio do Império Americano” primeiro, em parte pelo pano de fundo “fim das utopias revisitado” — que foi o cerne de “O Declínio…” —, mas com um quê de “o que nos salva é não perdermos a delicadeza (‘ternura’ não vale, troppo desgastada) e valorizarmos as velhas relações fraternas”. Dito isto, talvez você já esteja constrangido com essas minhas falas iniciais e pergunte: desculpe Ricardo, mas não seria esse um motivo mais do que suficiente para o filme ser entendido como piegas?

Bom, para insistir que não, em primeiro lugar levo em conta o globalizado cenário contemporâneo e as gerações que protagonizam o filme. Explico melhor. Venho pensando no privilégio que nós temos tido, de assistir, registradas em película, a uma infinidade de mudanças sociais, tecnológicas e políticas vividas pelas últimas três gerações, pelo menos, algo que nos oferece a possibilidade de formar uma auto-imagem riquíssima, ainda por cima se comparada à de gerações anteriores ao cinema. Assim, o fato de assistirmos aos filmes dos anos 60, 70, 80, 90 e deste século, com suas respectivas visões de mundo, seja em ficção ou documentário, e mais, tendo vivido esses anos, me parece uma espécie de concessão inédita no percurso da humanidade. Nesse sentido, coloco “Invasões Bárbaras” não como um filme grandioso — já dei a entender lá atrás que não é —, mas como um exercício, para lá de íntegro, de apresentar as lutas de uma geração e o ocaso de suas utopias. Exagero meu? Provavelmente, tanto na avaliação do filme quanto nessa tal “concessão inédita” de que falei acima. E talvez seja mesmo pretensão de minha parte discordar dos que viram no filme em questão apenas um melodrama menor, cheio de clichês. Mas sigo apostando que o meu olhar até que não é de se jogar fora. Afinal de contas, é daquela surrada combinação de nossas dimensões diacrônica — nossa história — e sincrônica — o tempo presente —, em termos afetivos e cognitivos, que todos nós enxergamos o mundo. Por isso digo sem piscar que tudo o que conto neste post esteve presente quando vi “Invasões Bárbaras”.

Trata-se mesmo da minha visão, fruto da relação entre a minha história e o momento em que assisti ao filme. Assim sendo, reitero o quão fácil caí no óbvio apelo à identificação que o filme de Arcand provoca, recurso mais do que utilizado por roteiristas, diretores e produtores do “cinemão”; mas que não creio ter caído sozinho, pois muita gente douta em cinema também entrou nessa. Mas eu seria desonesto se não mencionasse como “Invasões…”, que me pareceu tão lírico e afetivo, não só foi arrasado pelo crítico da Contracampo, mas também bastante malhado pela imprensa internacional, em particular a francófona, justamente por conta dessas características. Aliás, para não fugir da raia, destaco um trecho do que diz Filipe Furtado:

Mas o filme emociona, alguns dirão. Vamos retomar mais uma vez aos meios utilizados por Arcand. As Invasões Bárbaras é um filme cujo objetivo final (muito mais do que o mais bobo dos filmes de Hollywood) é auto-congratular a si próprio e o seu público. Arcand se esforça ao máximo para nos massagear, nos tranqüilizar. O mundo que ele filma é um onde não há mais vida (onde os únicos fatores que parecem ter algum peso são nostalgia e dinheiro), mas o tempo todo ele age nos lembrando que nós (os bons sujeitos que nos demos o trabalho de vir assisti-lo) não temos culpa nenhuma nisso. Desencadeia-se um processo onde o cineasta pede que nos emocionemos na medida que somos tomados por este sentimento de auto-satisfação pelo dever cumprido. (Grifos meus)

Já tive leitura semelhante, uma que diferenciaria filmes medianos, feitos para plateias também medianas atrás de “diversão sem massa cinzenta”, de grandes filmes, aqueles que não temem angustiar ao máximo, os tais que te socam o estômago. A subscrevermos a visão do crítico, os que gostamos de “Invasões Bárbaras” faríamos parte desse tipo de plateia mediana, auto-indulgente, que acredita não ter “culpa nenhuma nisso que o mundo é. Será? De minha parte, passo longe de ser um desses “bons sujeitos” , pois admito várias dessas “culpas”, que prefiro chamar de co-responsabilidades. Mas a despeito do que disse o crítico, não me envergonho de ter sido capturado pela forma como o diretor trata da morte e do morrer, o jeito como aborda a perspectiva do reencontro, a possibilidade do diálogo, a redenção possível — desde que se opte (e responsabilize) por ela —; e aprecio sua maneira de decantar uma série de valores (originariamente) cristãos sem deixá-los com cara de proselitismo religioso, mas sim como valores humanistas — pelo que li por aí, o diretor já foi católico e hoje se diz agnóstico —, algo que aos meus olhos foi feito com respeitosa delicadeza. O retrato de uma geração que viu suas utopias naufragarem é apresentado com muito menos acidez e sarcasmo do que em “O Declínio…”. (Neste, aliás, a crítica à sociedade era bem mais violenta.) O vigor físico dos personagens, tão evidente no filme de 1986, já não aparece em “Invasões…”. O cinismo e a mordacidade do primeiro deram lugar à ironia e a um humor melancólico, que considero distantes das “massagens tranquilizadoras” que o Filipe Furtado atribuiu a Arcand.

O curioso quando vi o filme é que deveríamos ser no máximo umas trinta pessoas no cinema, num sábado à tarde. Era uma dessas salas Multiplex, com trocentos filmes-pipoca passando, centenas de crianças barulhentas, adolescentes malcriados e adultos de todos os matizes inundando a entrada das salas, tornando heroica a empreitada de um casal querendo assistir tranquilamente a um filme. E nesse contexto, já dentro da sala de projeção, o silêncio só era cortado por alguns soluços, um ou outro choro contido… Dava quase para ouvir as lágrimas rolando. Mas pergunto: o quanto disso tudo não é vital para uma experiência quase extática, que transcende o entretenimento banal que a maioria dos filmes representa? Cá entre nós, não vejo problema algum em pautarmos nossas mais caras impressões sobre um filme por parâmetros afetivos. Até porque nem é tão difícil assim analisá-lo tecnicamente, falando sobre falhas no roteiro, aspectos clichês, detalhes da fotografia, planos-sequência, atuações, direção, continuidade etc. Como já comentei antes, quantas vezes algum crítico de cinema/teatro/televisão ou qualquer coisa que o valha não terá sido influenciado em seu olhar pelo almoço (ruim) de horas antes, pela discussão com o flanelinha na hora de estacionar o carro, pela briga com esposa/marido/amante/namorado(a) na bilheteria, por ter sentado ao lado de um sujeito que não parava de fazer barulho com seus sacos de pipocas e balas, pela crise dos 30, 40, 50 ou 100 que lhe ronda a cabeça nesses dias… E depois certamente foi fácil para tal crítico esconder todos esses detalhes em um texto asséptico, com cara de objetivo, recheado de citações sobre planos, decupagens, narrativas, dissolvências e comparações com outros filmes de opções estéticas diversas.

“Invasões Bárbaras”, esse filme sem nada grandioso ou espetacular — exceto talvez Marie-Josée Croze —, é um filme de época, um pequeno retrato da nossa época. E depois de tudo o que eu disse, pode continuar considerando-o piegas. Esteja você certo ou não, a mim e a boa parte dos que conheço não ofenderá, nem se preocupe.

.

________

1Do trailer, gosto dessa conversa, que transcrevo de forma um pouco mais completa:

— Nós fomos de tudo. Separatistas, independentistas, imperialistas…
— Imperialistas-associados.
— No começo, éramos existencialistas. Nós líamos Sartre e Camus.
— Depois Fanon; viramos anti-colonialistas.
— Lemos Marcuse e nos tornamos Marxistas.
— Marxistas-leninistas.
— Trotskistas.
— Maoístas.
— Depois de Solzjenitsyn, mudamos de ideia. Viramos estruturalistas.
— Situacionistas.
— Feministas.
— Desconstrucionistas.
— Há algum “ista” que não tenhamos venerado?
— Cretinista.

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16 respostas para Invasões Bárbaras, um filme de época

  1. alex castro disse:

    pra mim, a moral do filme é simples: os caras são uns losers, nada do q fizeram deu certo, seus sonhos e utopias eram todos idiotas, e se nao fosse o filho que foi pros eua e ficou rico, ele teria morrido q nem um bicho num hospital publico lotado. (só o mercado e o dinheiro salvam!)

    ou seja, me pareceu uma coisa bem francis fukuyama mesmo, fim da historia, capitalismo venceu, conformem-se.

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    • Ricardo C. disse:

      Alex, bom te ler por aqui. E posso ler o que vc disse de algumas formas:
      1) é sua opinião, pura e simples;
      2) é em parte opinião, em parte provocação;
      3) é pura provocação;
      4) outras, que tenho preguiça de imaginar, entre elas a de que vc achou o filme um porre e pronto.

      Só mais uma coisa: losers? Ué, nunca soube que se tratava de uma competição!

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  2. alex castro disse:

    alias, essa turminha q o filme retrata é mesmo insuportavel (eu sei, cursei historia na ufrj c/todos eles) então o filme vale pelo prazer catartico de ver eles todos se fudendo…

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  3. Thays disse:

    nossa, eu gostei demais deste filme. Assisti a “Declínio…” na época do lançamento, já tinha revisto em vídeo (vídeo mesmo, antes de DVD).
    Não vejo nada de piegas no filme, Ricardo. Aliás, nem sabia que os críticos tinham dito isto. Que coisa!

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    • Ricardo C. disse:

      Ver alguns filmes no tempo em que foram lançados faz diferença, Thays. Alguns se pretendem atemporais e falham clamorosamente. Outros que não pensam nisso, muitas vezes acabam sobrevivendo ao tempo, mesmo que seja por motivos externos ao próprio filme.

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  4. alex castro disse:

    hahahah, eu achei até o filme bom e divertido, e mostra essa turminha academica-esquerdista muito bem, mas concordo com os criticos q eh um filme cuja mensagem final é reacionaria e conservadora.

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    • Ricardo C. disse:

      Mensagem do filme, segundo Alex: reacionária e conservadora
      Mensagem do filme, segundo Ricardo: não sei bem qual é, mas seja qual for, é melancólica e pessimista, apesar de terna.

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  5. Alba disse:

    Acho, mas é uma velhinha que vos fala, que o filme é terno, emocionante em diversos momentos, só para ressaltar um aspecto do belo texto do Ricardo, que me lembrou, guardadas as devidas proporções, um texto do Contardo Calligaris, na FSP, falando sobre a visitação de museus e o que é fruição e o que é aprendizado.

    Ali, ele diz, entre muitas outras coisas, que o observardor de uma obra de El Greco, como fez, ao estar no Prado, ainda menino, teria de levar em conta que El Greco viveu no século 16, para explicar as escolhas do artista.

    Acho, modestamente, que Denys Arcand, como observou o Ricardo, tentou mostrar este momento de falência das várias utopias, o que sempre é melancólico e daí, acrescento aos demais adjetivos: honesto.

    Mas, como lembrou o Alex Castro, o filme ainda lembra o embate entre as utopias perdidas (e usadas da forma mais utilitária, digamos assim) e o capitalismo dominante, na figura do filho bem sucedido que salva o pai de viver seus últimos dias numa sórdida enfermaria, simplesmente porque pode e faz uso do seu poder. Da mesma forma pragmática, trata de providenciar alívio para o pai, com a intermediação da filha de uma antiga amiga dele. É o nosso mundo, ou não?

    Gosto especialmente do trecho em que todos eles, reunidos para um jantar, lembram das épocas “iluminadas” ( tradução minha, por pura preguiça de conferir o original) – em que vários talentos estiveram juntos, como no Renascimento de Michelangelo e Rafael´, na Itália, e a presença das luzes do século 18, nos EUA, com Jefferson, Adams, momentos em que a humanidade avançou – e aí, não cesso de desejar que tivessemos também um desses períodos “iluminados”.

    E, sim, chorei à beça, viu, Alex? 🙂

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    • Ricardo C. disse:

      Alba, belo comentário, inclusive por conta do trecho do filme que você citou, assim como da alusão a essa crônica do Calligaris, que desconhecia.

      E nos aproximamos no aspecto geracional, viu?

      Beijos

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  6. El Torero disse:

    Bom, aqui é um guri quem escreve, então…
    Quando eu o assisti, cursava Farmácia aqui em Florianópolis ainda, e tudo, desde aquela lista do que eles foram, culminando com Françoise Hardy cantando L’amitie, me fez sentir uma saudade de tudo oque não vivi e achar que nasci na época errada, que hoje ninguém mais sonha, está tudo acabado etc. etc. etc., uma melancolia sem cabimento. Acho que consigo ser mais piegas que o próprio filme.
    E, Ricardo, Marie-Jossée ficou sendo minha musa por um bom tempo. A procurava em cada festa da faculdade, em cada barzinho…rsrs.

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    • Ricardo C. disse:

      “Sentir uma saudade de tudo o que não vivi” é perfeito, Torero, e entendo perfeitamente essa melancolia, creia.
      Quanto à Marie-Josée, bom, pouco importa se for hetero ou homo, mas quem não gostar dela é ruim da cabeça ou doente do pé, e na tua farmácia não tem remédio pra isso, né?
      😛

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  7. Alba disse:

    Salve, o Torero das eternas poesias!

    E, obrigada pelo comentário, Ricardo!

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  8. Nhé disse:

    Curioso, mas o que me marcou no filme foi o sistema de saúde canadense.

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  9. dra_lulu disse:

    Ricardo
    concordo q a opinião é sua , ou minha e o que vale mesmo é a emoção que rolou!
    minha moral do filme? no fim, somos todos iguais na dor, reduzidos a condição humana, não importa quem voce acha q foi…
    eu me acabei de chorar, até pela coisa do momento que eu passava…
    e adorei e revi e voltei e quase comprei num sebo =)
    e voce entrou nos meus favoritos viu???

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    • Ricardo C. disse:

      dra. lulu, vc disse tudo, “condição humana”, o que me lembra a célebre frase de José Ortega y Gasset:
      “Yo soy yo y mi circunstancia, y si no la salvo a ella no me salvo yo”

      E volte sempre que quiser, a casa está aberta.

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