Gente reta

Dr. J., figura ímpar, que odiava que o chamassem pelo prenome. Décadas atrás — provavelmente contando com mais de sessenta anos —, batem em seu carro. O sujeito escafede-se, mas Dr. J., contando com a sua prodigiosa visão periférica, alcança ver a placa e anota-a. Por tortuosos caminhos consegue o telefone do fujão, sabe-se lá como, e liga para sua casa, onde o desaparecido motorista não só atende — surpreso, é certo — como não desliga, e ainda entabula uma longa conversação. Dr. J. discute acaloradamente com o sujeito, argumentando ser ele responsável pela batida e, portanto, pelo ressarcimento dos gastos. Após intermináveis minutos de contenda, ao que parece o homem capitula e diz:

—–— Tá bom, eu pago.

Nosso protagonista alarga o sorriso, triunfante, pouco importando que não fosse visto pelo rival, e desfere o coup de grâce:

—–Certo. Mas o senhor paga satisfeito, não é?

Exausto e incrédulo, o derrotado reage:

—–— Pagar eu pago, mas o senhor querer que eu fique satisfeito já é demais, não?

De bate-pronto, o nosso herói:

—–Se não paga satisfeito, então eu não quero — e desliga o telefone.

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8 respostas para Gente reta

  1. Anny disse:

    Adorei.
    Uma boa história para ler neste final de tarde.

    Atémais!
    Anny.(@Annyllinha)

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  2. Luiz disse:

    Parece que esse cara é parente do Seu Lunga…

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    • Ricardo C. disse:

      Seu Lunga? Dei uma googleada pra saber quem é e creio já ter visto reportagens sobre ele. Deve até ser interessante conhecê-lo só pra manter distância e ficar apenas com o anedotário, pois a convivência direta há de ser dificílima, hehe

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  3. Nhé disse:

    Huahuahuahua!!!

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  4. Maurício disse:

    É real mesmo a história?
    Pena que não se faz mais gente assim, reto e turrão até o fim (excusas pela rima terrivel).

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    • Ricardo C. disse:

      Maurício, é realíssima, o filho do homem me contou na presença do próprio, que na hora manteve silêncio, mas com um discreto sorriso, suponho que embolado de auto-ironia e orgulho.

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