Tarkovski, Kieslowski e um pouco de Véronique

É certo, quase transparente, que alguns diretores e seus filmes impregnaram-me a alma, existam almas ou não. E dois deles, Krzysztof Kieslowski e Andrei Tarkovski , de há muito sequestraram o meu diafragma, aquele onde os gregos acreditavam residir a sede das faculdades mentais, afetos incluídos. (Atiraram no que viram, acertaram no que não viram, os gregos. Outra hora falo disso.)

As veias existenciais e místico-filosóficas de ambos me são tão caras que conseguem adensar o sangue, pelo menos o meu. De ambos aprecio o fato de evitarem explicações fáceis e respostas definidoras, dessas que costumam trazer um pseudo-alívio, justo por rotularem os fantasmas que circulam ao nosso redor, transformando essas angústias sem rosto em medos, agora com “nome e endereço”. (Outros problemas decorrem disso, daí dizer que são um pseudo-alívio; algo de que falar em outra ocasião.)

Ambos já não estão aqui, mas permanecem. Porém Kieslowski, o último a partir, foi um pouco mais generoso comigo. Comentou, em celuloide, sobre um saber que não se pega, que não se deixa aprisionar, de que só falamos pelas beiradas. Um saber inefável, vá lá. Mas sugeriu, através dele, a possibilidade do encontro, do êxtase, mesmo que por um segundo, mesmo que em meio à dor mais sentida.

Vendo seus filmes, percebi que já vivi ambos: dor e êxtase, dor e encontro. E mais uma vez, e outra, a cada ocasião em que os revi. Então, só me resta agradecer…

Lembro do domingo em que revi La Double Vie de Véronique , com Irène Jacob, tão amadamente kieslowskiana. E percebi como o tempo foi generoso com esse filme…

[Não, preciso pôr o acento onde devo. O tempo foi generoso comigo, que manteve esse filme tão belo como da primeira vez que o vi, suavizadas as dores que sentia à época, resgatados e ampliados os sorrisos que surgiram em mim.]

Mas devo dizer que algo me chamou a atenção de forma mais intensa, algo que não muda nada no filme, só reforça os aspectos de que tratei mais acima, quando falei sobre a dimensão místico-religiosa que atravessa algumas das obras desse diretor, dimensão essa que me é muito cara, como já comentei antes — para quem ainda não me ouviu dizer, costumo falar que sou um cético-místico, seja lá o que isso queira dizer… —, e que o Kieslowski trata de forma sutil, aberta. E não me refiro à fotografia — primorosa, palavra lugar-comum léguas aquém da beleza do filme —, nem muito menos à trilha sonora do Zbigniew Preisner, que revolteia minha memória a cada vez que ouço.

O que foi, então, que dou tantas voltas para dizer? Trata-se das janelas, do vidro, da bolinha de plástico transparente, dos óculos… São muitíssimas as cenas onde o que se vê tem alguma “lente” entre quem vê — nós ou os olhos dos personagens — e o que é visto, lentes que põem a cena de cabeça para baixo, lentes que distorcem ligeiramente o cenário, lentes que ampliam detalhes — sem falar das lentes da dor, da paixão, da alegria, que tanto transformam o que (e a quem) vemos…

E apesar dessas tantas lentes, de tantos elementos que apontam a impossibilidade de ver “O Real” — e isso lá existe?! —, mesmo assim há certezas em alguns momentos, certezas que os que as têm não sabem explicar, apenas as sabem.

Esse filme me é especial, ainda, 18 anos depois da primeira vez que o vi. Desconfio que o prazo ainda se estenderá.

.

[Conversa de dois anos atrás, mas que continua presente. A preguiça de escrever algo novo desta vez não tem culpa. Em todo caso, não muita.]

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10 respostas para Tarkovski, Kieslowski e um pouco de Véronique

  1. Gwyn disse:

    Voce falar sobre as lentes que tanto transformam o que (e a quem) vemos… lembrei de um livro que li na minha adolescencia e que ficou em mim para sempre – A Luneta Magica de Joaquim Manoel de Macedo. Essas lentes que sao capazes de distorcer a nos e a nossa realidade (se e que isso existe)

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    • Ricardo C. disse:

      Não li esse livro, Gwyn, mas posso suspeitar de sua influência apenas pensando em como alguns livros, filmes, discursos e mesmo pessoas também influenciaram o meu olhar… 🙂

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      • Gwyn disse:

        Ricardo,

        Todas as vezes que comentei/comento sobre esse livro, todos falam a mesma coisa, que nunca o leram…E sempre respondo a mesma coisa, leia, vai ter uma surpresa para quem so pensa em A Moreninha quando se fala no escritor.

        um beijao

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  2. Colafina disse:

    “Outra hora falo disso.”

    É sobre o timo? Aguardaremos!

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  3. Nat disse:

    Já li isso antes 😉

    Engraçado que tive a mesma reação ao comentar, digo, iria comentar sobre o mesmo assunto, o belíssimo documentário Janelas da Alma.

    Gosto especialmente, e aqui tenho certeza que repito o comentário anterior, da fala do Saramago… Quando diz que não usa lentes de contato, o mestre nos conta: Gosto de ver a vida enquadrada…

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  4. André Egg disse:

    Um dos filmes que mais me impressionaram foi o “Não amarás”.

    Também sou dos que curtiram a trilogia das cores e a Juliette Binoche.

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  5. Pingback: Nem Franco, nem Walt | Ágora com dazibao no meio

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