Fui lá. Falta contar o que aconteceu depois.

Eu avisei que ia, e não quebrei a palavra empenhada. Na sexta-feira passada fui ao lançamento de um livro do Alex Castro, Mulher de um Homem Só. Ele me deu carona, e fomos conversando animadamente de Copacabana ao Centro. O lançamento aconteceu no Amarelinho, e foi ótimo ver o tanto de gente que apareceu para prestigiá-lo. (Cá entre nós, prestígio merecido.) Saí de lá meia-noite e meia, alguns chopes acima da minha média habitual, e deve ter sido por isso que acordei às 5:40 da manhã de sábado. Como sabia que se ficasse na cama não voltaria a pregar o olho de novo, fui para a sala, peguei o livro e sentei numa poltrona, na expectativa de que a leitura àquela hora da manhã fosse um bom indutor ao sono. Que nada. Só parei de ler na página 115, por culpa de um telefonema que me fez adiar para as seis da tarde as sete páginas que faltavam até o ponto final da história.

Não me alongarei em análises de qualquer espécie. Não tenho a expertise necessária para tal, e já disse isso ao Alex. Atrevo-me a comentar duas coisas, no máximo. Primeiro, que a Carla, personagem que narra a história, me convenceu. Concordo com o que outras pessoas já disseram antes de mim: Carla é uma mulher, sim, nunca um homem tentando pensar/falar/agir como se mulher fosse. Só por isso, pontos para o autor. (Tudo bem, você pode mesmo dizer que eu não sou mulher, que por isso não posso entender o que se passa realmente na cabeça de uma e blá blá blá. Direito seu, mas antes de chegar a uma conclusão dessas apoiando-se apenas nesse ponto, seria bom que batêssemos um papo antes. Dar a alguém o benefício da dúvida costuma ser um gesto salutar.) E segundo, que o ritmo da narração é perfeito o ideal em relação à história e a quem a conta. Nem me senti atropelado pelas palavras da Carla, nem tampouco fiquei entediado. Consegui escutar perfeitamente o (e permanecer atento ao) que ela disse, até (a)os seus parênteses. (Como já gosto de alguns, posso atestar que os parênteses dela são ótimos.)

Só um detalhe curioso (para mim), que notei por conta do ritmo da narrativa. Vi que a Carla tem o hábito de fazer três observações sobre o que quer que seja. Não é algo que aconteça em todas as ocasiões, mas ocorre bastante. É como se o número três servisse tanto para descrever uma sequência lógica de eventos, para explicar bem explicadinho como ela entende que as coisas são (ou deveriam ser) e para sustentar melhor suas teses, o terceiro item/argumento para reiterar aos demais — ao ouvinte/leitor e a ela mesma — que não resta nenhuma dúvida de que o que ela diz é líquido e certo.

Logo no começo, descrevendo Murilo:

…não tinha grandes despesas: estudava em universidade pública, almoçava bandejão e mal jantava. (p. 6).

Mais uma:

Murilo não sabe nada e isso me exaspera, porque ele não sabe o seu lugar, e nunca se decide e nunca tem certeza. (p. 45)

Carla falando de si:

E acho graça que só tinha dezoito anos e que nem sabia o que era casamento: fui aprendendo. Estudei com afinco, levei muita bomba e vivia sendo mandada para a sala do diretor. (p.8)

De novo sobre Murilo, agora em relação a ela:

Mas o fundo é sempre mais embaixo, nem sei onde, e lá o Murilo nunca se aventurou. Casou com uma rocha, se satisfez com a rocha e uma rocha era o que esperava que eu fosse. (p. 13)

A propósito de Júlia:

Rêmora atrelada, lombriga faminta e urubu ansioso, até seus grandes momentos coincidiam com os nossos. (p. 99)

Há exemplos melhores e em maior número para ilustrar minhas impressões, mas estou com preguiça de procurar por eles agora. Fico apenas com esses cinco, encontrados ao acaso. Só falta acrescentar algo mais: dizer que espero pelo próximo livro do Alex, expectativa de ver mais notas de tristeza e drama, diferentes de um certo (e acertado) tom de vaudeville — delicioso, vale dizer — de Mulher de um Homem Só, e um pouco mais próximas de dona Adelaide, mãe de Júlia, que quando “…se sente sozinha, ela permanece sozinha, naquela solidão espessa de quem não tem nada o que fazer, nem livros para ler…” (p. 119).

P.S. Leia Mulher de um Homem Só e/ou presenteie alguém com o livro. Custa uns 10 maços de cigarro, e ainda te livra de uma boa dose de nicotina e de alcatrão. (Compre online na editora Os Viralata.)

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7 respostas para Fui lá. Falta contar o que aconteceu depois.

  1. cesarkiraly disse:

    é. foi bem legal. e obrigado pela prosa de novo. precisamos agora é encontrar o marconi. um forte abraço, cesar

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    • Ricardo C. disse:

      É, foi ótimo, para não variar. E concordo, já está mais do que na hora do Marconi se integrar ao que há de melhor no Rio, encontrando-se conosco, hehe!

      Abração

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  2. Ulisses Adirt disse:

    Eu não vou participar dos encontros, mas se vcs vierem para Sampa, podem avisar q recepciono vcs.

    Qto as 3 observações de Carla, vale lembrar q são 3 as personagens principais: ela, o Murilo e a Júlia. (vou parar por aqui ou acabo fazendo uma piada sobre a Divina Trindade).

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    • Ricardo C. disse:

      Ulisses, infelizmente (infelizmente mesmo!) não devo ir a Sampa tão cedo, mas assim que acontecer te aviso, tenha certeza. E a recíproca tb se aplica, saiba disso!

      Sobre o tal número 3, eu identifiquei essa característica porque em mim ela tb dá o ar da graça, só que em forma de defeito: volta e meia sou “pedagógico” e explico a piada mais duas vezes…

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  3. Pingback: Alex Castro

  4. Não fui mas me arependo. Não comprei o lvro na pré-venda e também me arrependo. Ah, se arrependento matasse…

    E por falar em teletransprte, alguma notíca?

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    • Ricardo C. disse:

      Nunca é tarde pra comprar, Rafael, só ficou mais caro do que na pré-venda — e deixou de ter autógrafo e “marcador para mecenas”…

      Teletransporte? Nada ainda.

      Abraço

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