Parolagens

Foi uma daquelas ideias que aparecem enquanto se tenta conversar numa festa. Daí que não se desenvolveu a ponto de virar projeto de pesquisa, mas talvez sirva para começar uma conversa na próxima. Então chega de enrolar. A ideia em questão:

Foto: Eduardo Nunes

“Há uma idade certa para se gostar de alguns filmes”

[Desenvolvo um pouco, para fazer este post render mais algumas linhas.]

Eu já pensara, tempos atrás, num aspecto que raramente vi ser comentado: o quanto o nosso humor interfere na nossa relação com um filme — seja ele considerado bom ou ruim —, independentemente do grau de conhecimento que tenhamos a respeito da linguagem do cinema, de sua história, e mesmo da nossa capacidade intelectual. Sim, é dos afetos a que me referia. Geralmente vejo as pessoas discutindo sobre este ou aquele filme em termos técnicos, ou ao sabor de conceitos estéticos, deixando de lado qualquer aspecto pontual na hora de avaliá-lo — que tal câimbras, um chiclete (ou coisa pior) grudado na poltrona em que você se sentou, o sujeito ao seu lado está com um “cecê” insuportável etc. Pois chama-me a atenção essa crença de que tudo isso possa ser totalmente secundário, e que pouco ou nada mude o que pensemos sobre o tal filme.

E se falei de afetos, não me referi àqueles mais constantes, dos que se grudam em nós de forma a virarem identidade, os casmurros e Pollyanas da vida — isso para não citar as prima-donas do meio cinematográfico. Pensei sobretudo nos afetos circunstanciais, como a ansiedade por chegar atrasado à sessão do filme, o mau-humor diante do flanelinha que te achaca na hora de estacionar o carro, ou o sono que te invade por ter escolhido ir ao cinema logo depois de comer uma feijoada, contribuindo para te fazer concluir que aquele filme de ação tem o ritmo de um Antonioni ou de um Théo Angelopoulos… Mas tudo isso eu já pensei antes. O que pensei anteontem foi sobre a idade com que vi alguns filmes, e como essa idade pode ter influenciado o meu parecer sobre eles. (Tá bom, à primeira vista é um pensamento mais do que banal, mas deixe eu abordá-lo de forma diferente.) O que quero dizer é que, ao contrário do que é costumeiro ouvir, “gostei de alguns filmes porque era muito novo para vê-los“; e na mesma toada, “gostei (ou não gostei) de outros filmes por tê-los visto na idade certa“. E dá para fazer todas as variações com o “antes”, o “depois” e o “na idade certa”, todos associados ao tal “gostei” — e nem vou entrar na seara do “entendi/não entendi”…

Não me alongando — e ficando apenas com a primeira frase —, me ocorreu o quanto a  “falta de estrada” — não falta de cultura cinematográfica, mas falta de anos de vida, de experiência em relação às suas vicissitudes — pode ter influenciado a minha perspectiva sobre alguns clássicos que assisti, e que tivesse eu mais alguns anos no dia em que os vi, talvez pensasse diferente — até mesmo gostado mais, quem sabe… Quantos filmes não supervalorizei por estar embebido de todo um aparato conceitual, toda uma carga de informação sobre o que é bom e mau cinema, mas que, mesmo assim, continuam sendo filmes de peso no meu “banco de memórias”… Ou seja, posso até relativizar o que pensei em dado momento sobre este ou aquele filme; ainda assim, guardo com carinho todos eles, pois parte do que sou tem traços daquelas experiências na sala escura. (Detalhes sobre as companhias que levei para alguns desses filmes eu prefiro deixar para depois.)

Bom, dá para desenvolver isso melhor, mas paro por aqui. Tenho que guardar o resto desse “material para reflexões”, pois preciso ter o que conversar na próxima festa.

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8 respostas para Parolagens

  1. Ricardo, concordo totalmente. Não é por acaso que você se arrependeu de ter perdido o “Por que deu a louca no senhor R?”, rs.

    Eu diria as mesmas coisas sobre livros. Quando eu tinha 16, 17 anos, venerava Albert Camus. Hoje, não gosto tanto dele. Prefiro um Guimarães Rosa…

    Tem muita coisa atravessada nessa mudanças de gosto e, sobretudo, de juízo sobre a arte. Para quem acha que vida de crítico é fácil, vale a pena pensar no quanto a objetividade (ou a responsabilidade) do juízo é complicada!

    Abraços,
    Rodrigo

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    • Ricardo C. disse:

      Me arrependi logo que o amigo que ficou até o final me contou como terminava, Rodrigo. A idade, neste caso, só serviu para amenizar o arrependimento e apenas torná-lo tema de post, hehe!

      E a sua relação com Camus se parece um pouco com a minha. A temática existencial dele ainda me interessa muito, mas o estilo de algumas obras já não me empolga tanto.

      E tenho dó da crítica, especialmente daquela que realmente trata com esmero do seu objeto, porque sei que não é tarefa fácil. Eu não sei se me arriscaria. (Já os críticos sem estofo apenas me aborrecem.)

      Abraços

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  2. André Egg disse:

    Assino em baixo da questão da predisposição emocional, o que não elimina a necessidade de uma crítica mais técnica. Afinal de contas, normalmente é a crítica que nos chama a atenção para assistirmos ou não um certo filme.

    Eu vou além de você na questão da experiência de vida. Os “anos de estrada” de fazem mais aptos a assistir alguns clássicos? Também acho que alguns clássicos que assisti na adolescência me prepararam melhor para os anos de estrada que tinha pela frente – um bom contraponto à educação conservadora e excessivamente religiosa que recebi da família.

    A predisposição emocional é um fator determinante.

    Eu por exemplo, já tentei assistir “Sob os céus de Lisboa” do Wim Wenders tarde da noite (depois de por as crianças na cama). Não deu certo – dormi em longos trechos do filme.

    Eu e minha esposa assistimos “Olga” quando ela estava grávida – foi certamente o filme em que ambos mais choramos, o que talvez não aconteceria em outra ocasião…

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    • Ricardo C. disse:

      André, essa suposta avaliação que fiz sobre “idade certa” só vale justamente por poder olhar à distância esses filmes que vi. Mesmo acreditando que teria sido melhor ter “mais estrada” na hora em que assisti a muitos deles, concordo contigo que eles tb me prepararam para outros que vieram depois. E achei muito legal a sua experiência com Olga, definitivamente singular. Só acrescento que Sob o Céu de Lisboa não me diria muito, independente da hora em que o visse. Há Wenders melhores do que esse.

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  3. Confetti* disse:

    sutil, formidavel post, começo meio e fim premeditados, perfeitos ! o paragrafo final é uma pérola !

    ( agora vamos ao que interessa : que festa foi essa ? quem eram as tais pessoas falando de cinema ? e aquele barulhao da musica alta, nao atrapalhou? alguém citou mesmo antonioni ? e aquela moça com o braço engessado, vc percebeu como ela te fixava ricarrrdo ? olha, da proxima vez que te pedir um pedaço de pudim e vc ficar enrolando na varanda olhando a lua esquecido, eu…eu…nao te levo mais pra festa nenhuma !! )

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  4. Confetti* disse:

    er…sei la se cinema e idade tem a ver…vejo muito filme novo e revejo obsessivamente outros tantos ha muitos anos, sempre os mesmos…acontece de decorar dialogos, acontece de passar meses sem reve-los, mas nunca desprezei nao….nem os abel ferrara, nem sissi l’impératrice…=))
    nunca revejo um filme que nao tenha gostado

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