Era uma vez

Novinho ainda, topou ser levado por uma colega de faculdade a um grupo de somaterapia. A ideia de participar de algum processo grupal com ares terapêuticos pareceu-lhe interessante, ainda mais em meio aos seus estudos de psicologia. Além do mais, acabara de chegar à cidade, tudo e todos lhe eram estranhos. Por isso a conversa daquela colega de curso soara tão sedutora aos seus ouvidos. Bom, não só por isso. Com seu jeito flower power tardio, belos sovacos de pelos alourados (não muito vastos) e a certeza de que, no fundo, o que ela queria era morar bem longe do marido, viver de vender mel, incenso e massagem shantala numa comunidade anarquista em Visconde de Mauá, só pôde dizer sim, vou com você.

Já na entrevista com uma das co-terapeutas, o rapaz viu que algo não bateu bem. Mas insistiu. Afinal de contas, não daria margem a qualquer psicologês barato sobre resistência, menos ainda vindo da nova amiga de esvoaçantes batas indianas e blusas tie-dye. Uma vez autorizado a participar do novo grupo, deixou um pouco da desconfiança e os senões estéticos de lado, abraçando as pessoas a causa de corpo inteiro. Uma vez por semana estava lá, com pouca roupa, participando daqueles exercícios mezzo psicodrama, mezzo gestalt-terapia, e muito cheiro de patchuli.

Aquele era um grupo heterogêneo. Gente odara, mauricinhos, darks, todos das mais diversas profissões. Pouco tinham em comum, exceto uma propensão a falar, e muito. Porque depois de todas aquelas técnicas grupais, onde abraços, danças e amassos diversos tipos de contato físico eram a tônica, alguma elaboração verbal se fazia necessário. E com todos em círculo, dá-lhe falar das bandeiras que cada um dera. (Bandeiras dadas, sim. “Na hora do exercício, eu queria ter feito isso e aquilo, mas não banquei de fazer. Essa foi a minha bandeira”, seria mais ou menos o uso do termo.) E não era só falar das próprias bandeiras. Apontar as bandeiras do outro também fazia parte do jogo. E o sorriso das duas co-terapeutas era evidente a cada revelação.

Aquele grupo heterogêneo e com propensão a falar começou a dar defeito. Só podia ser, já que os sorrisos furtivos das co-terapeutas pouco a pouco viraram cenhos franzidos, um quê de impaciência e um ou outro forfait. E deu para notar que problema tinha hora: só acontecia no círculo das bandeiras. Um começava a falar do que tinha entendido da proposta, o outro dizia que tinha entendido de outro jeito, um terceiro que não tinha entendido nada, e toca de cenho franzido, olhares para os lados, uma coçada discreta na cabeça e um tal de tira e põe anel uma, duas, três semanas seguidas. Pois na quarta vez daquele blá-blá-blá anti-climático, o rapaz novinho resolveu falar de uma bandeira tão a cara do rala-e-rola exercício da meia-hora anterior, que dissolveu cenhos franzidos melhor que injeção de botox e fez brotar discretos sorrisos e algum alívio nas co-terapeutas, logo acompanhados de vários “isso!” e “é por aí!” que contagiaram o resto da turma, todos agora engajados em contar suas verdadeiras bandeiras, aquelas que eles só agora descobriram ser as corretas… corretas? Como assim?! Era o novinho de novo, que pediu para falar de outra bandeira, bem feia, por sinal. Disse a todos que a primeira bandeira, a bandeira-botox, fora uma sacanagem sem nenhuma relação com o exercício, uma sacanagem pequenininha, só para mostrar a grande sacanagem daquele teatro de roteiro arrumadinho, de resultados e respostas esperados para cada exercício, e que aquilo era anarquia de brechó, receitinha de liberação sexual tirada de algum manual metido a reichiano, e que aquele era o seu último dia no grupo, passar bem e muito obrigado, calçando o par de tênis e dizendo te ligo à única amiga que fizera no grupo, pois faltou dizer que a colega dos sovacos de pelos alourados (não muito vastos) não durara três sessões, a salafrária, àquela altura devia estar é no escorrega da Maromba

.

Dizem que o grupo resistiu mais umas três ou quatro sessões, para depois cada um seguir pro seu lado. Que uma das co-terapeutas foi fazer pão caseiro, e que da outra ninguém mais soube. Que a tal sessão dissolvedora de cenhos e do próprio grupo não tinha sido tão dramática assim, e que o o discurso do rapaz novinho não deu um terço daquilo, do nervoso que devia estar. Dizem isso tudo e mais um pouco. E que não dá pra confiar em histórias com patchuli, blusas tie-dye, muito menos em quem as conta como se tivesse e não tivesse estado lá.

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17 respostas para Era uma vez

  1. Thays disse:

    Ricardo, você tem de publicar (não só virtualmente) o que tem escrito…

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  2. El Torero disse:

    Ricardo, estes aptures são o bicho.
    Faltou um do sovaco louro da amiga do cara.
    Abraço.

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  3. RC, por essas e outras que meu irmão chama essa trupe de somatreparia.

    Abraço.

    PS: Gostei da tag pra esse post.

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  4. Monsores disse:

    Ricardo, Ricardo… eu tendo a concordar com a Thays, você sabe.

    Como anda, meu caro? To te seguindo lá no tuíter, mas até agora tens estado em silêncio. Não aderiu ao novo hype?

    Grande abraço

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    • Ricardo C. disse:

      Grande Monsores, entrei no tuiter por convite, mas logo vi (creio que não durei 24 hs) que não me interessaria e deletei a conta. Estranho, ainda apareça algo meu por lá?

      Rapaz, dê notícias mais vezes, vc anda sumido. Espero que de saúde esteja bem, pois tive a impressão da Confetti perguntar algo sobre vc nesse sentido.

      Abração

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      • Monsores disse:

        Caro Ricardo, às voltas com duas crises: a econômica e a renal. Tenho sofrido um bocado com ambas.

        Mas para não ficar só na reclamação, as coisas estão melhorando. Sempre passo por aqui para te ler. Nem sempre dá pra comentar, porque nem sempre estou in the mood… mas é incrível como você consegue manter o nível desta ágora.

        Você está lá no tuíter sim. Sabe como é, eles querem fazer numero. Não apagam de vez.

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  5. Nhé! disse:

    No escorrega da maromba com aquele labrador fofo… é mais proveitoso mesmo!

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  6. camilalpav disse:

    ADOREI ver essa história escrita! Tem detalhes que você não tinha me contado na versão verbal – os sovacos de bastos pelos doirados é uma coisa mesmo. Beijo, saudades!

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    • Ricardo C. disse:

      Camila, saudades tuas também. Quanto à história, vc sabe bem como ao transpor ideias para o papel (ou tela, vá lá) as palavras acabam pedindo licença e instalam-se no texto de jeitos que a gente não espera, né? 😉

      Beijos saudosos!

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  7. Confetti* disse:

    rc, essa inspiraçao de maromba nao veio do nada né ? sei que vc é leitor assiduo daqui, dali de acolà…:-))

    sei fazer tie-dye, mas tem rolado umas roupas vintage, puro original, em brechos, mas tao baratinho que nem pinto mais nada ! em londres comprei uma calça tie-dye bordada,hippie total look, que tenho certeza pertenceu a david bowie nos 80′ ! rss

    monsores, beijos e abraços, desejo-lhe saude e felicidade mon grand chéri !!

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    • Ricardo C. disse:

      Desta vez estou certo que não é o que vc pensou, Confetti, pois não li nada sobre a Maromba ultimamente. É que todas essas referências associam-se de maneira mais do que clichê com Hair, Era de Aquário, e certamente Visconde de Mauá tb, onde estive algumas vezes. Lembrei até de um colega de escola que foi morar numa comunidade no Mato Grosso no final dos 70s, num lugar sem luz elétrica, todos plantando o que comiam, nada de carne e desprezando qualquer concepção tradicional de família. Ou seja, isso é assunto antigo aqui na minha cabeça!

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