Preto e Branco em Cores (Jean-Jacques Annaud)

Depois de não sei quantas décadas — a idade anda pesando, não consigo mais ficar indiferente ao fato de sentar-me numa mesa de bar e ser o mais velho de todos —, revi Noirs et Blancs en Couleur (Black and White in Color, ou seu outro título em francês, La Victoire en Chantant), primeiro filme do Jean-Jacques Annaud. Foi bom passar os olhos por ele novamente, sobretudo depois de ter assistido a uma bela palestra do Alex sobre O negro no teatro brasileiro do século XIX que ainda ressoa em meus pensamentos, mesmo passado mais de um mês.

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Rodado na Costa do Marfim, o filme fala de dois grupos, um de franceses e outro de alemães, que convivem cordialmente em seus respectivos vilarejos na região entre o Kamerun (na época Camarões Alemão, colônia do Império Alemão entre 1884 e 1916) e a então colônia francesa de Oubangui-Chari — região em parte formada pelos atuais República dos Camarões e República Centro-Africana, um miolo pra lá de confuso, que também foi parte do antigo Congo Belga, “pertenceu” aos franceses (compondo a África Equatorial Francesa) e, logo após a Primeira Guerra Mundial, foi dividido com o Reino Unido (ufa!, e nem termina aí…).

A convivência entre os colonizadores se mostra ainda mais cordial pelo fato dos dois grupos lidarem com os negros locais de maneira semelhante, isto é, tratando-os como seus serviçais e explorando-os de todas as formas — condição “natural” dos negros, claro que aos olhos tanto dos franceses quanto dos alemães, sem falar de portugueses, suecos, dinamarqueses e holandeses, que em outras épocas também tiraram o seu naco de controle sobre aquelas terras e seus habitantes. (Detalhes demais, eu sei, mas apresentei um pouco dessa barafunda justo por ser o caldo onde se cultiva boa parte da história da África e do próprio filme.)

A África está longe de ser o inferno descrito nos textos sobre as colônias. Onde esperava encontrar bestas ferozes, encontro apenas cães, vacas, galinhas… ocasionalmente um pato. Onde esperava selvagens ferozes, armados com dardos, lanças e flechas envenenadas, prontos para tornar todos os viajantes numa refeição rápida, encontro apenas aldeões pacíficos, cuja vida pastoril me faz lembrar os camponeses em muitos lugares da nossa própria terra. Os únicos perigos que combato aqui são o aborrecimento, e sobretudo a companhia de um punhado dos compatriotas com quem eu devo conviver.

Onde estão aquelas casas do império, aqueles modernos cavaleiros e corajosos pioneiros, todos aqueles romances de aventuras que nos fizeram sonhar? Assim sinto-me muito só aqui. Além do mais, passaram-se seis meses sem que recebêssemos qualquer visitante ou correspondência. Parece que estes atrasos não são incomus nesta parte de África.

E quais as novidades dos nossos amigos socialistas? Quanto às colônias, diga-lhes que não tenham tantas certezas a respeito da inferioridade da raça negra. Vista de perto, essa inferioridade tem menos a ver com a forma do crânio ou a composição do sangue do que com a convicção que possuímos da nossa própria superioridade. Com o risco de chocar-lhe, diria que em muitos aspectos os indígenas não estão muito longe de merecer o honroso nome de “homem”.

Este é Hubert Fresnois, um jovem e entediado geógrafo, socialista discreto, há seis meses coletando exemplares de ervas nativas e minerais, saudoso de notícias pátrias. E essas aí em cima são algumas impressões registradas na carta que escreve a um antigo professor em Paris. Detalhe: da turma de franceses, que são o grupo que mais aparece no filme, vale dizer que ele é o melhorzinho, ao menos na primeira metade da película. Mas não é hora de tecer maiores considerações sobre as críticas que Jean-Jacques Annaud reserva a franceses e alemães — e provavelmente a boa parte da nossa humanidade, não apenas à arrogância dos colonizadores europeus.

Bom, sobre as tais relações cordiais entre alemães e franceses, vai tudo para o ralo em janeiro de 1915, quando Fresnois recebe da França um pacote que fora deixado na paróquia local, lugar onde dois missionários (pouco) cristãos e conterrâneos seus “trabalhavam” — aspas sim, já que na primeira cena em que aparecem, dedicam-se a trocar cruzes de madeira e imagens de santos (dessas bem baratas) por peças de artesanato feitas pela população local, ficando com as mais preciosas e queimando aquelas que lhes pareciam lixo.

[Negros carregando missionários em liteiras e cantando] ‘O meu branco é gordo e pesado!
Todos os brancos são estranhos!

O teu branco é pesado como um touro!
Mas os pés do meu fedem como esterco!’

[Missionário] Ah, como gosto desta canção!

[Ilustrativo, esse trecho. Para os missionários, entender a África e seus habitantes é absolutamente irrelevante. O que importa é o que se tira de lá. Além disso, trata-se de estabelecer a França (ou o país colonizador de sua preferência) na África, uma França que nunca se igualará à original, claro, certamente por culpa dos incivilizados (e sequer considerados humanos) negros.]

Voltando à história, são os missionários que levam o pacote a Fresnois, que o abre na frente de todos: o sargento (beberrão) Bosselet, o dono da venda Paul Rechampot (e seu atabalhoado irmão Jacques), a voluptuosa e carnuda Maryvonne, Marinette e seu marido Leon Caprice, e de um funcionário cujo nome não é mencionado, o único negro no recinto. O geógrafo tira apenas livros, sendo alvo de chacota pelos seus conterrâneos, até que um deles muda o tom do ambiente quando lê em voz alta a manchete de um jornal: França e Alemanha estão em guerra, e lá se vão seis meses do início do conflito. Diante da notícia, só restaria um caminho: atacar os alemães. Esse é o início do teatro do absurdo, já que é preciso organizar um exército para fazer frente aos três ex-cordiais vizinhos alemães. E a tropa? De soldados africanos, claro, que ao se alistarem “voluntariamente” — com armas apontadas contra eles e à base de pontapés — ainda por cima recebem nomes franceses, já que era preciso facilitar ao máximo a “comunicação”. Até esse momento, Fresnoy é a única voz dissonante, mas seus reclamos não são atendidos. A máquina de guerra está em curso — mantimentos, roupas, botas, tudo é comprado na venda dos irmãos Rechampot, naturalmente —, e precisam todos partir o mais rápido possível, pouco importando se os “soldados” mal sabem calçar coturnos, quem dirá empunhar um velho fuzil.

Massa de manobra, bucha de canhão: na guerra do filme, é para isso que os negros servem. Os brancos, por sua vez, todos em suas melhores vestes, não vão para a guerra, mas a um piquenique. Fresnois ainda tenta dirigir-se ao vilarejo onde estão os alemães, para dissuadi-los de lutar e assim impedir o confronto, mas os demais não deixam. E enquanto se divertem e brindam à França, entre asas e coxas de frango assadas, começam a ouvir os tiros. Algo, porém, não correu bem. Os primeiros soldados negros começam a voltar, todos feridos, dando a entender que os alemães estavam muito melhor preparados para a batalha. É hora dos franceses levantarem acampamento e saírem em disparada — todos sobre suas liteiras, é claro —, conjecturando sobre um possível diálogo com os inimigos, visto que “os alemães não são totalmente selvagens. Enfim, nós os conhecemos, entre brancos sempre podemos conversar”, como diz Leon Caprice a um dos padres.

Aqui a história toma um novo rumo. Fresnois, o nosso herói socialista, aquele mesmo que tentara, em vão, denunciar o absurdo e o abjeto que havia nas atitudes de seus compatriotas, procura o sargento Bosselet disposto a mudar os rumos daquela derrota, propondo tomar para si a liderança daquele grupo de assustados franceses. E sua tática funciona. Antes de dizer o que pretende, começa perguntando aos demais: o que vocês propõem? Estes, sem nunca ter o que sugerir, e menos ainda depois da vergonhosa derrota, aquietam e topam tudo que o geógrafo diz. E novas estratégias são montadas para constituir outro exército, já que os “soldados” do primeiro batalhão fugiram. A mais funcional: dirigir-se ao chefe da aldeia mais próxima, dizer que os alemães vão retaliar o primeiro ataque e pedir que consigam cem homens para formar um novo exército. E como não há tantos homens na aldeia, a solução é capturar negros das savanas — “eles são fortes e estúpidos”, diz o chefe —, e a captura ficaria a cargo dos próprios negros. Resolvido o primeiro problema na base do “divide e vencerás”. [Enquanto isso, o sargento Bassolet mata uma mosca que o importuna, e dois membros da aldeia entredizem: “Não te disse que os brancos atraem moscas?”]

As relações de poder se modificam. Hubert Fresnois, agora líder, parece apreciar a posição. Amasiado com uma bela nativa — para desagrado dos seus compatriotas —, passa a comportar-se como se estivesse em outro plano, acima dos demais, um distanciamento que não deixa que os outros se sintam à vontade, gerando neles um respeito que antes não tinham. E a formalidade no trato, a pompa e circunstância, os soldados desfilando ordenadamente, os hinos, tudo reforça essa nova ordem local. É hora de recomeçar a guerra, agora de igual para igual, com trincheiras, estratégias de propaganda e tudo o mais. Até que depois de algumas semanas de batalha, com baixas (negras, não esqueçamos) dos dois lados, chega um regimento britânico (de soldados também negros), com o capitão Kapoor à frente, um comandante de origem indiana, comunicar aos alemães locais que a rendição do seu país já se dera semanas atrás, em Iaundé (Camarões), e que agora deveriam obedecer à autoridade britânica, como fora decidido pelos vencedores. Os franceses se abraçam, mas nota-se um certo desgosto de não serem eles a ficar com o território alemão, e algumas dúvidas precisam ser sanadas:

[Paul Rechampot] Diga-me, este acordo em Londres prevê que em nossa casa continuaremos franceses? Continua a ser território francês até ao local onde era a Alemanha?
[Soldado britânico] Naturalmente.
[Paul Rechampot] Mas uma coisa que muda: os pretos que antes eram alemães… agora tornam-se ingleses, sim?
[Soldado britânico] Exato.
[Paul Rechampot] Então vou dizer mais uma coisa: a partir de agora, muito cuidado onde se pisa!

Mas o que fica dessa fala? Que tudo segue igual, ora bolas, muda apenas a língua. Daí que não espanta ver os três militares alemães entregando o comando aos britânicos, encontrando-se com os franceses e, no fim, como todos conversam alegremente, bebendo e comendo, com os negros no mesmo lugar, servindo-os, restando-lhes apenas dizer, com um ar de reprovação misturado com resignação: “olhe esses brancos, tsc tsc tsc”. Enquanto isso o Sr. Krafft, jovem oficial alemão, e o nosso conhecido Hubert Fresnois dialogam:

[Krafft] …filologia.
[Fresnois] Eu também fiquei tentado por ela, em certo momento. Mas devo dizer que os nossos filólogos estão longe de valorizar os vossos.
Estudou em que universidade?

[Krafft] Heidelberg.
[Fresnois] Evidentemente.
Acho que vou lhe fazer rir: eu era socialista.
[Krafft] Ah, desculpe… eu também.

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É visível a dose de amadorismo que atravessa boa parte do filme, que talvez nem precisasse ter sido realizado na Costa do Marfim para ficar como ficou. Mas vale lembrar que trata-se do primeiro filme do Jean-Jacques Annaud, e que sua sátira sobre o vergonhoso passado colonialista francês permanece vigorosa, mesmo depois de tantas décadas (o filme é de 1976). E palmas ao diretor, que num primeiro momento nos leva a simpatizar facilmente com o jovem e idealista geógrafo Hubert Fresnois — como disse antes, o único a criticar não apenas o absurdo do ataque aos até então cordiais alemães, mas também a ganância, o racismo e a xenofobia dos seus compatriotas —, para logo depois nos deixar desconfortáveis quando mostra o personagem (e por extensão a nós mesmos) transformando-se gradativamente num pequeno ditador, arremedo de déspota esclarecido, bem mais perigoso e destrutivo do que os seus toscos concidadãos.

E olhando para o que ocorreu no Iraque no governo Bush, por exemplo, dá pra ver que não mudamos tanto assim, não? Enfim, gostei de rever Preto e Branco em Cores. Suas cores cinematográficas ficaram um pouco desbotadas pelo ação tempo, mas o teor do seu discurso segue tão contundente quanto no dia em que foi projetado pela primeira vez.

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3 respostas para Preto e Branco em Cores (Jean-Jacques Annaud)

  1. Márcia disse:

    Vi Preto & Branco em Cores em 198 e lá vai bolinha no cinema Ricamar. Sessão meio vazia, até. Vibrei com o filme apesar daquele gosto incômodo que nos deixava ao acender das luzes, mas justamente por esse motivo. Guardei um desejo secreto de rever o filme – o q nunca aconteceu. Bom saber q está disponível em DVD. Dadas as mudanças ocorridas no contexto sóciopolítico das últimas décadas – onde destaco o avanço da luta x racismo e a diluição de fronteiras entre as práticas de esquerda e direita – talvez o tornem ainda mais inquietante e saboroso.

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    • Ricardo C. disse:

      Mudanças em termos, Márcia. Quando a gente vê o que continua acontecendo na África no que se refere à exploração por parte de velhas e novas potências — a China é a bola da vez —, dá a impressão que o discurso mudou tanto quanto as práticas: só na roupagem.
      Mas vale uma olhada no filme, pois tem muito do seu charme preservado.

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      • Márcia disse:

        De fato, Ricardo, ‘cê tem razão. Acho que talvez não tenha me feito entender: quando digo das mudanças não é por achar que está resolvido, mas algo mudou de lugar. Talvez esteja é mais escancarado – ainda que isso, por outra parte, por si só não é suficiente pra provocar mudanças mais drásticas e necessárias… Mudar para continuar com tudo no mesmo lugar são velhas e insistentes práticas, não é mesmo?

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