Seu Róbisson

— Pra onde, dotô?
— Pra J.J. Seabra, no Jardim Botânico.
— É pra Solarium?
— Não, é pro meu consultório, ali do lado.
— Ah, dotô, que bobagem, pricisa disfarçá não. Ontem mesmo deixei uns gringo lá, tudo engravatado. Os cara de lá dão uns troco pra cada um que nós leva. E já vi que lá tem umas minina linda que só… O sinhô é casado, né? A gente que é homi, tem mais é que dá umas carcadas por fora, disinchá os bago. Se eu tivesse bala na agulha num saía de lá!
— Beleza, motorista, pode me deixar na esquina com a Jardim Botânico…
— Queísso, dotô, tá com coisa de pará na porta?
— [Suspiro] Não, seu motorista, primeiro vou tomar um sorvete ali perto e depois vou lá, dar umas carcadas. Troca vinte?

[Dez anos depois]

— Boa tarde, vamos pra Ipanema, rua Canning. O senhor conhece?
— E como, dotô. É pra Centaurus?
— Não, é pro meu consultório, ali do lado.
— Êpa, eu conheço o sinhô, dotô, num já li levei uma vez… xô vê… pra Solarium?!?!
— Não, nunca fui pra lá.
— Ah, dotô, pra cima de mim? Vinte oito anos de praça, num esqueço nem os córno nem as história dos que sentô aí atrás. E o sinhô inda veio com o mesmo conversê do consultório. Fala sério, o sinhô se amarra mesmo é numa termas. Ou vai vê… que é dotô de quenga, hehe! Ó só, o dotô bem que podia dá uma ajudinha pro amigo aqui, né? Toma aqui uns cartão, diz pras minina que pra levá elas eu dô desconto.
— [Suspiro] Tá bom, eu digo, que jeito. Agora pode parar ali, na esquina com a Visconde.
— Vai tomar sorvete? Hehe.
— Vou. Tradição, fazer o quê. Troca cinquenta?

[O nome do motorista é fictício. O resto é inventado.]

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9 respostas para Seu Róbisson

  1. Guilevy disse:

    “O nome do motorista é fictício. O resto é inventado.”

    Sei…
    Agora, conte aí, Dr. Ricardo, qual é melhor, a Solarium ou a Centaurus?

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  2. Nhé! disse:

    Quem mandou dar trela prá motorista?? rsrsrsrs…
    Porém, segundo aquela série de peito feio da HBO, os motoristas são praticamentes doutores em sexualidade. Vai ver, é verdade!

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  3. Valdir DM disse:

    Esses seres donos da verdade absoluta e imutável existem aos montes (a maioria, não tão charmosa como o taxista do dr. Ricardo). Lembram uma cadelinha (mesmo! raça canina) que apareceu na minha chácara, tão magra e maltratada que a apelidei de OnlyBones; pois é, depois que ficou gordinha ninguém convence a Only que eu não sou o seu brinquedo, e, talvez um dia, sua comida (um ser que só sabe “falar” com os dentes). Only é uma mistura de fox paulistinha com… com o que, mesmo? Talvez bulldog. Que fazer?
    Por falar em cadelas, uma da raça boxer. Primeiro lugar em feiura; e primeiro lugar em burrice (inteligência, só entre os viralatas). Tenho um vizinho que comprou chácara apenas para a tal cadela “espairecer”. Desde o primeiro dia em que me viu, achou que eu era inimigo, e ficava o tempo todo (horas e horas, bisoras e bisoras, trisoras e trisoras) latindo para mim, aquele latido monoóóóóóóótonoooooooo). O suposto dono não pode dar um grito para a distinta, informando-a de que ela está errada em sua avaliação, porque a distinta é o dodói do filho de 10 anos, que acha o tal “dono” um super-herói… desde que nunca diga “não” – ao fã e aos objetos e animais do fã. E tem gente que me questiona sobre porque prefiro os gatos. Prefiro os gatos porque……………….

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  4. sandra leite disse:

    show de texto. ri do início ao fim. sorvete de que? 🙂

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