Tripalium [2]

No post Tripalium [1], comecei falando sobre transformações na esfera do trabalho por conta da reestruturação produtiva. (Uma reestruturação caracterizada pela flexibilização de processos — mudanças rápidas nas linhas de produção para novos produtos —, de produtos — de acordo com a demanda dos clientes — e pela flexibilização de pessoal — baseada em trabalhadores polivalentes ou multifuncionais. E suponho que deva ter dado para notar que o meu interesse maior repousa sobre essa terceira flexibilização, não é?)

Comentei também que a mudança do modelo taylorista-fordista para o de especialização flexível trouxe consigo uma série de exigências sobre o trabalhador, que, agora multiqualificado e polivalente,

…deve exercer, na automação, funções muito mais abstratas e intelectuais, implicando cada vez menos trabalho manual e cada vez mais a manipulação simbólica. É, também, exigido deste trabalhador, capacidade de diagnóstico, de solução de problemas, capacidade de tomar decisões, de intervir no processo de trabalho, de trabalhar em equipe, auto-organizar-se e enfrentar situações em constantes mudanças.1

Mas quando falei de consequências dessa mudança de modelo — a precarização do trabalho é uma delas —, não mencionei que o fim do taylorismo-fordismo — graças ao desenvolvimento tecnológico — tampouco se confirmou de todo, ao menos na sua promessa de eliminar os riscos e o sofrimento em relação ao trabalho. Nesse sentido, vale dizer com todas as letras: o tal “trabalho isento de riscos” segue inexistente (cabendo aqui piadas sobre cabeça de bacalhau etc.). Porém, há sim algo de novo: os tempos e espaços da vida das pessoas se modificaram. Eles já foram melhor delimitados em termos de tempos e espaços dedicados ao trabalho e tempos e espaços dedicados ao lazer e à vida privada — o que não quer dizer que fossem perfeitos, justos ou adequados, só que vale sublinhar a questão para não cairmos na conversa mole do “fim do trabalho”, algo de que falei no post anterior. O que se observa é que as fronteiras entre esses tempos e espaços tornaram-se indistintas, e o esforço necessário para que o trabalhador se mantenha como elemento produtivo cresceu significativamente, invadindo esferas da vida até então impensadas.

Todos os momentos e ambientes destinados à vida pessoal passam a ser considerados como locais e tempos de “aprender”. Até mesmo os contatos com amigos, as relações com familiares, a leitura do jornal e de um livro, o cinema, mais do que lazer, tornam-se instâncias de aquisição de conhecimentos, que devem ser ‘armazenados’ e ‘classificados’, visando a sua possível utilização futura na vida produtiva.2

[Aliás, já desligou o seu celular hoje? Ficou sem conferir e-mails de trabalho durante o fim de semana? E sabe dizer se alguma das “atividades culturais” a que se dedicou nas horas de lazer ficou totalmente de fora do âmbito do trabalho?]

Um dos problemas resultantes dessas novas exigências é que elas não são facilmente operacionalizáveis, isto é, vão além do que a educação e a formação profissional oferecem. Dizem respeito ao que se espera em termos de iniciativas individuais de cada trabalhador, traduzidas em termos de “disposição para o autodesenvolvimento, para o aprendizado permanente, a apresentação de soluções criativas, o exercício da autonomia, a mobilização de saberes oriundos da escola e das suas experiências de vida”.3 Estas novas exigências correspondem a um (relativamente) novo sistema, conhecido como “modelo de competência”, que veio substituir o modelo de “qualificação profissional”. Trata-se de um modelo fundado a partir da contestação da distinção feita pelas empresas entre a experiência (saber fazer) e o “saber” (conhecimentos formalizados por meio da escolarização), distinção essa que se vinculava ao modelo de qualificação. Em palavras de um de seus teóricos, Philippe Zarifian:

Se a noção de competência faz sentido, é justamente por superar radicalmente esta distinção e colocar em questão seus pressupostos implícitos: a estabilidade das situações de trabalho e dos problemas encontrados na organização produtiva. Se tal superação não ocorrer, corremos o risco de permanecer na clássica oscilação entre educação formal e experiência prática, jogo bastante insatisfatório e desencorajador para as pessoas nele envolvidas.4

Zarifian não só diz o que há de diferente no modelo de competência, como também aponta algumas condições a superar para que ele seja bem sucedido. Só que antes mesmo delas terem sido efetivamente superadas, o que se observa é que o “posto de trabalho” anteriormente descrito, com seu sistema de salários, classificações de cargos e relações de trabalho, já deixou de ser referência. Seu substituto, o mencionado modelo de competência, sustenta-se no indivíduo, com seus aspectos cognitivos (que dizem respeito à capacidade de compreensão), psicomotores (referentes ao domínio da técnica) e sociais (especialmente as relações no trabalho). E vale destacar o que a socióloga Helena Hirata5 observa, isto é, sobre o caráter político e ideológico que marca a origem do conceito de competência — pelo fato de emergir do discurso empresarial —, além de que a ideia de relação social está totalmente ausente dele, o que não ocorre com a noção de qualificação. Haveria na noção de competência ao menos dois outros problemas:

O primeiro seria aquele relacionado com a perspectiva adequacionista da formação que dá prioridade ao atendimento dos interesses e necessidades empresariais, podendo se tornar instrumentalizante e tecnicista. O segundo diz respeito ao fato de que a noção de Competência pode levar, em sua forma acrítica, a uma perspectiva individualizante do processo.6

Ou seja, apesar da noção de competência se fazer necessária em função da complexificação das formas de trabalho, posto que “uma definição daquilo que uma pessoa coloca em ação no trabalho não pode mais se relacionar ou se restringir ao posto de trabalho” , cada vez mais “…se tem a preocupação de listar competências, de objetivá-las e de avaliá-las” 7, apostando na perspectiva de se fechar uma “lista de competências” e de encontrar o candidato que as possua. No fundo, isso significa operar nos mesmos moldes do antigo modelo de qualificação, independente da imprecisão do que seja competência. O resultado é uma dificuldade cada vez maior, por parte dos trabalhadores, de inserir-se no processo produtivo gerenciado a partir da noção de competência, levando-se em consideração, como dito na citação anterior, que a responsabilidade pela formação para o trabalho passa a ser, cada vez mais, de cada trabalhador, fruto de suas iniciativas e esforços pessoais, das redes de relações nas quais ele se encontra, do seu investimento financeiro, de tempo e de esforço. Dá para perceber um pouco os problemas que isso tudo acarreta? Reitero, agora com minhas próprias palavras, o que já foi dito: de posse de toda essa suposta responsabilidade, se o trabalhador não conseguir empregar-se (ou reempregar-se caso peça demissão ou seja demitido), a “falha” será creditada única e exclusivamente a ele, como se fosse “incompetência” sua.

Falo mais no próximo post da série Tripalium.

P.S. Sugiro a leitura de um belo post de Luciano Oliveira, do blog Que cazzo é esse?!! sobre o discurso a respeito de novas identidades, definidas

…não mais a partir de sua inserção no processo produtivo, como soía acontecer nos velhos tempos do esplendor marxista, mas a partir de uma singularidade assinalada por uma pertinência étnica ─ negros e índios, por exemplo ─, comportamental ─ como é o caso dos homossexuais ─ ou outra, como é o caso das mulheres, identificadas a partir de sua condição feminina, e assim por diante.

Vale muito a pena.

________________

1 DELUIZ, Neise. A globalização econômica e os desafios à formação profissional. Boletim Técnico do SENAC, Volume 22 – Número 2 – Maio/Agosto 1996.
2 RÉGNIER, Karla von Döllinger. Educação, trabalho e emprego numa perspectiva global. Boletim Técnico do Senac, Volume 23 – Número 1 – Janeiro/Abril 1997, s.n.
3 Idem.
4 Apud HIRATA, Helena. Reorganisation de la production et transformations du travail: une perspective Nord/Sud. Seminario Internacional “Trabajo y empresa entre dos siglos”, Santiago, 13-14 mayo de 1998.
5 Idem.
6 SOUZA, Donaldo Bello de, SANTANA, Marco Aurélio, DELUIZ, Neise. Trabalho e educação: centrais sindicais e reestruturação produtiva no Brasil. Rio de Janeiro: Quartet, 1999. p. 48.
7 SCHWARTZ, Yves. Uso de si e competência, in SCHWARTZ, Yves; DURRIVE, Louis (orgs.). Trabalho e ergologia: conversas sobre a atividade humana. Niterói: EdUFF, 2007, p. 207 (grifos do autor).

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6 respostas para Tripalium [2]

  1. Sidney Mirandão disse:

    Show de bola, RC! Essa série de posts está dando gosto.

    Um comentário simplista, talvez até leviano: nos países nórdicos, a tentativa de contrabalancear essa individualização da qualificação profissional reside no conceito de “flexcurity” (flexibility + security, mas repare como em português o som da palavra faz pensar em “frescura”): aceita-se a flexibilização do processo produtivo, mas tenta-se alternar medidas de proteção ao trabalhador ativo e àquele que está procurando emprego – imagina-se que este está em período de qualificação profissional para se adaptar ao mercado de trabalho.

    Se, por um lado, tais medidas evitam um alijamento total do desempregado do mercado de trabalho, por outro aceitam e exasperam essa responsabilização do mesmo desempregado pelo sucesso ou fracasso de sua carreira profissional. Em outras palavras, há uma inversão substancial na gestão dos risco de um empreendimento. Tradicionalmente, tais riscos deveriam recair exclusivamente sobre o empregador (é, aliás, o que está escrito no artigo 2° da CLT – perdão por trazer o direito à baila; alguns cacoetes são difíceis de perder). Esses riscos vem sendo passados, sempre que possível, para as costas dos empregados. Mas isso é outra história…

    Outra: um texto comum da OIT e do Banco Mundial, do ano passado, coloca como prioridade absoluta para os países “em vias de desenvolvimento” o estabelecimento de um sistema escolar que vise à profissionalização dos alunos, mesmo que eles tenham 7 anos de idade!

    A leviandade vem agora: se antes a crítica ao modelo capitalista reclamava da expropriação dos meios de produção, hoje em dia o que se vê é a expropriação também do tempo livre, do saber e, talvez, até da vontade do trabalhador. Conseguir um bom emprego não tem sido muito diferente de vender, além da força de trabalho, um pouco da alma.

    Grande abraço.

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    • Ricardo C. disse:

      Sidney, comentário bom demais. Desconhecia o conceito de “flexcurity”, assim como esse texto da OIT, dois modos bem diversos de atacar a questão, não é? E não concordo que o final do seu comentário seja leviano, porque na prática o que se vê é que aquela caricatura chapliniana vista em Tempos Modernos saiu da fábrica e invadiu lares, cinemas, cafés, livrarias, corações e mentes de boa parte do mundo…

      E os teus cacoetes jurídicos são muito bem-vindos por aqui, sobretudo pela ignorância deste seu amigo em relação ao tema. E olha que vc falou em CLT e não nalgum artigo da constituição de Burkina-Fasso ou coisa parecida…

      Abs

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  2. Salve, Ricardo!

    Link para o tal texto em conjunto OIT e OMC (em francês, mas deve ter em inglês também, quiçá em espanhol. Para você, qualquer uma dessas línguas não há de ser problema):

    http://www.wto.org/French/res_f/booksp_f/ilo_f.pdf

    Quanto à frescurity, você pode encontrar coisas em francês googolando “flexcurité” ou “flexsécurité” ou ainda “flexisécurité”. Tem tempo que não procuro nada a respeito, me parece que não está mais tão na moda como no início do século. Por que, não sei…

    Finalmente, um jabá. Tem post novo no meu blog (clicando no meu nome). Gostaria de dizer que foi inspirado na sua série sobre o trabalho, mas não foi. Minha inspiração cibernético-exibicionista é infinitamente mais vulgar…

    Abraço.

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