Tripalium [1]

[Tripalium (do latim tardio “tri” (três) e “palus” (pau) – literalmente, “três paus”) é um instrumento romano de tortura, uma espécie de tripé formado por três estacas cravadas no chão na forma de uma pirâmide, no qual eram supliciados os escravos. Daí derivou-se o verbo do latim vulgar tripaliare (ou trepaliare), que significava, inicialmente, torturar alguém no tripalium.
É comumente aceito, na comunidade linguística, que esses termos vieram a dar origem, no português, às palavras “trabalho” e “trabalhar”, embora no sentido original o “trabalhador” seria um carrasco, e não a “vítima”, como hoje em dia. (…) Fonte: Wikipédia]

.

Revoluções andam fora de moda, devo admitir. Mas se forem “revoluções tecnológicas”, tudo muda de figura. Elas são “o que há”, e duvido que alguém queira me desmentir. Só que hoje não vou me alongar nos usos do termo. Digo apenas que, de tão desgastado, pouco parece revolucionar; no máximo dá uma mexidinha aqui ou acolá, que não passa de mudanças cosméticas metidas a “versões 2 ou 3.0” de seja lá o que for. Mas deixe ir logo ao que me interessa discutir. É uma esfera que realmente passou por transformações drásticas (e também dramáticas), não sem a participação direta de transformações tecnológicas. Refiro-se ao universo do trabalho.

Você já deve ter ouvido falar alguma vez, por exemplo, sobre a saída de cena do tradicional modelo taylorista-fordista e sua substituição pela especialização flexível, graças ao desenvolvimento tecnológico.1 Pois eu também já. E segundo algumas (meio caducas) teses neoliberais, esse novo modelo teria levado a resultados importantíssimos em relação ao trabalho, sintetizados da seguinte maneira:

– Não existe mais trabalho. Este se tornou artigo raro em nossa sociedade. As principais razões disso são o progresso tecnológico, a automatização, a robotização etc.
– O trabalho … tornou-se inteiramente transparente, inteligível, reproduzível e formalizável, sendo possível substituir progressivamente o homem por autômatos…
– Como perdeu seu mistério, o trabalho não mais se presta à realização do ego nem confere sentido à vida dos homens e das mulheres da “sociedade pós-moderna”. Convém, pois, procurar substitutos do trabalho como mediador da subjetividade, da identidade e do sentido.
2

Viu isso de fato acontecer? Não? Nem eu. (Viu sim? Então me conte onde e como, por favor.) Só esclareçamos algumas coisas, para ver se falamos do mesmo. É fato que houve uma aumento substancial da automatização e da robotização no setor industrial. Fábricas que antes empregavam milhares de pessoas hoje são operadas por algumas dezenas, e ainda produzem mais em menos tempo. Mas tanta automatização está longe de ter tornado o trabalho “…inteiramente transparente, inteligível, reproduzível e formalizável…”. Além do mais, não é preciso dar muitas voltas para perceber que ele, em meio a um “downsizing” generalizado, está longe de se tornar artigo raro. Isso porque há uma confusão entre trabalho e posto de trabalho. O segundo diminuiu em diversos setores, não há dúvida; mas quem permanece empregado, longe de trabalhar menos, cada vez se vê mais sobrecarregado de tarefas a cumprir. E ao contrário das promessas dos futurólogos, a tecnologia não só não o substituiu de todo, como ainda contribuiu para esse aumento. Aliás, não sei qual a sua profissão, mas se você já está há algum tempo na labuta, especialmente na condição de assalariado, deve ter notado que a carga de trabalho vem aumentando para todos, e é quase certo de que sem um aporte financeiro que lhe corresponda… Sim, a sua impressão procede: o trabalho é cada vez mais intenso para os que permanecem formalmente empregados, com sua duração real crescendo a cada dia, em todos os setores das organizações.

Agradeça, pois, ao novo modelo da especialização flexível, que mudou o conteúdo do trabalho. Este já foi definido em termos de “posto de trabalho” e baseado em tarefas prescritas, com uma divisão entre atividade de concepção e de execução, e classificado segundo ocupações, onde frases como “Você não é pago para pensar, mas para executar” eram(?!) lugar-comum na boca dos gerentes e empregadores. (Hoje em dia eles aprenderam que dizer isso é feio, bobo e chato, e que o bacana é chamar todos os funcionários de “colaboradores”. Pena que na hora de qualquer aperto não seja bem essa a palavra para classificar a turma que vai embora primeiro. Mas por favor, não pense que a minha fala pretende culpar e satanizar os empregadores. O buraco é bem mais embaixo.) As mudanças que o novo modelo trouxe são significativas, e qualquer um que pretenda funcionar a contento nele — mantendo elevado o seu índice de “empregabilidade”, outra palavrinha da moda —, deve ter:

– uma maior compreensão da atividade produtiva em seu conjunto e do ambiente em que esta se realiza, além do simples posto de trabalho;
– uma excelente capacidade de comunicação, tanto oral como escrita;
– aptidão para resolver problemas e trabalhar em equipe e também para tomar decisões de forma autônoma com base em informações objetivas; e
– uma grande disposição para mudanças, em razão dos permanentes desafios que se impõem, às unidades produtivas, das flutuantes condições dos mercados e das inovações tecnológicas.
3

Você provavelmente também ouviu falar disso tudo, seja na faculdade, nos cursos de especialização e/ou nos treinamentos a que se submeteu nas organizações em que trabalhou; e se for esperto, segue empenhando-se com afinco para aprimorar isso tudo. Não esmoreça, é mesmo o que você deve fazer, por serem exigências que já estão na ponta da língua de todos, especialmente dos que têm vagas a oferecer.

Porém, é preciso reconhecer em que cenário isso é exigido. É que enquanto aumentaram as exigências sobre o trabalho, diversas atividades foram terceirizadas e postos de trabalho deixaram de existir. Resultado? Aumentaram as ameaças ao emprego formal, com férias remuneradas, jornada de trabalho limitada, salários fixos, direito à aposentadoria e demais conquistas trabalhistas. Não surpreende que “flexibilizar” tenha virado um verbo sagrado: “flexibilizar” processos produtivos — o que em princípio soa ótimo —, o trabalho como um todo — o que pode ser ao mesmo tempo muito bom e muito ruim —, as leis trabalhistas — e aqui a pergunta seria “bom para quem?” — etc. Ou seja, tudo beleza, exceto quando alguém paga mais o pato do que os outros. Por que digo isso? Ora, porque a flexibilização das leis trabalhistas, por exemplo, tão propalada como a maneira ideal de diminuir custos, agilizar processos e resolver um sem-número de outras necessidades concretas do país, não garantiu mais empregos, uma de suas grandes  promessas. (Estou sem dados à mão, outra hora eu encontro.) Por outro lado, o que se viu mesmo foi um paradoxo nessa conversa de “trabalhador polivalente”, “multiqualificado”: o que houve, em paralelo ao aumento das exigências sobre o trabalhador, foi um crescimento do trabalho precarizado e informal.

De fato, o surgimento dos novos modelos produtivos tem como conseqüência um amplo processo de precarização do trabalho, caracterizado pela desestabilização dos trabalhadores estáveis – que são lançados para a precariedade –, e por um déficit de empregos, associado à idéia de utilidade social…4 (Grifos meus)

Ponha na conta da precarização do trabalho mais uma expressão: o “subemprego múltiplo”. Profissionais de todas as categorias, com grau universitário ou não, transformados em subempregados de função múltipla e sem emprego fixo, fazendo algo diverso daquilo para o qual se qualificaram. Assim sendo, soma-se à oscilação entre emprego remunerado e desemprego um permanente vaivém entre qualificações, com cidadãos acumulando dois ou três empregos para poder manter seu padrão de vida. (Se nunca viu ninguém assim, só me resta perguntar: em que planeta você vive?)

Bom, se ainda está animado com a perspectiva de fazer um MBA, segue aliviado porque o país parece bem menos vulnerável à atual crise dos EUA e até incorporou algumas palavras e expressões da moda — empreendedorismo entre delas —, diria que você é um otimista incorrigível. Mesmo assim sugiro que tire os olhos apenas do futuro e valorize algumas tradições, como a de pôr as barbas de molho e seguir preparado para “arrecuar os arfes”, mesmo que ainda não tenha chegado a “catastre” , como diria Neném Prancha. Garanto que o seu vocabulário corporativo só tem a ganhar.

Mas nem tudo é ruim como no cenário que pintei até aqui. Num futuro post falarei do quanto ele ainda piora.

.

_____________

1 Helena Hirata (Reorganisation de la production et transformations du travail: une perspective Nord/Sud, 1998) afirma que o debate sobre o efetivo fim do taylorismo ainda não se encerrou, já que alguns autores dizem não haver de fato um pós-fordismo — acompanhado pela emergência da especialização flexível —, mas simplesmente o ressurgimento de um taylorismo com novas roupagens, um “neotaylorismo”.
2
DEJOURS, Christophe. A Banalização da injustiça social. Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas, 2000, p. 42.
3
RÉGNIER, Karla von Döllinger. Educação, trabalho e emprego numa perspectiva global. Boletim Técnico do Senac, Volume 23 – Número 1 – Janeiro/Abril 1997, s.n.
4
Hirata, op. cit.

Anúncios
Esse post foi publicado em trabalho e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

11 respostas para Tripalium [1]

  1. Sidney Mirandão disse:

    Salve, seu Ricardo! Beleza de texto, aguardo ansiosamente a continuação.

    Comentário que gostaria de fazer é sobre “o fim do trabalho”, essa ilusão criada por autores dos anos 80. Embalados pelo Fukuyama (que tenho que reler dia desses, diga-se) e seu “fim da história”, alguns intelectuais começaram a achar que o futuro do ser humano ia ser de cada vez menos tempo de trabalho e mais tempo “ocioso”. Junte-se a isso a tal crise do estado providência, ao pânico de déficit das contas públicas em razão dos gastos previdenciários, coloque uma pitadinha de ideologia liberal por cima da massa depois de bater muito, e você tem a receita que gerou livros como “O fim do Emprego”, do Rifkin, e “Le travail, une valeur en voie de disparition”, de Dominique Méda.

    A mim me parece que a sina do Direito do Trabalho é a de ainda buscar sua independência. No início, sua independência com relação ao Direito Civil e à locação de serviços (nesse ponto, nós brasileiros estamos até mais avançados que a França, por exemplo). Hoje em dia, sua independência com relação à economia e à gestão de pessoal. A pergunta que fica é a seguinte: para que o Direito do Trabalho se torne independente da gestão econômica da mão-de-obra, é ele que deve mudar? Cada vez mais eu acho que não.

    Um abraço.

    Curtir

    • Ricardo C. disse:

      Grande Sidney, bom vê-lo por aqui!
      O que de fato aconteceu é bem diferente do que esse povo vaticinou. Pra começar, vc não tem um processo de reestruturação produtiva com forte aporte tecnológico em todos os setores, apenas naqueles ditos estratégicos. Além do mais, num país como o nosso, essa verdadeira Belíndia (Bélgica + Índia), não se poderia esperar uma diminuição das desigualdades preexistentes, não é? Vale dizer tb que e a ideia da automação a rodo é absolutamente contraproducente do ponto de vista do conjunto da sociedade, pois é preciso um balanço nisso e pensar sempre sistemicamente, já que, dito de maneira bem simplista, um gigantesco contingente de desempregados só faz desestabilizar o sistema, né?
      Acompanhei cá no Brasil o processo de desestatização do setor portuário no governo FHC, e se aos olhos de muitos a situação dos portos parece ter melhorado, aos de uma grande parte da massa portuária tudo não passou de promessa vazia. Acontece que houve, por exemplo, um programa de recapacitação dos portuários — dos então funcionários das Cias. Docas, não tanto dos portuários-avulsos — que em princípio serviria para “promover a formação profissional e o treinamento multifuncional do trabalhador portuário, além de criar programas de realocação e de incentivo ao cancelamento do registro e de antecipação de aposentadoria”, tudo a cargo dos OGMOs (Órgãos Gestores de Mão-de-Obra, constituídos por representantes 1) do poder público; 2) dos operadores portuários; 3) da classe dos trabalhadores portuários; e 4) dos usuários dos serviços portuários), que passaram a realizar a tarefa até então das Cias. Docas. Só que foram programas para inglês ver, já que a maioria dos que se submeteram a esses programas de formação profissional nunca foram realocados. O que temos hoje em dia é um contingente de pessoas mais qualificadas do que antes, mas não absorvidas pelo sistema. Enfim, falarei um pouquinho mais sobre o assunto, embora o que pretenda acentuar é o que acontece dentro das próprias organizações, as estratégias dos próprios trabalhadores (em todos os níveis da organização) para lidar com a distância perversa (e muitas vezes instrumentalizada) entre o trabalho prescrito e o trabalho real.

      Ah, fiquei interessado nesses pontos sobre o Direito do Trabalho, já que é uma área que não domino. Mas sigo intuitivamente o seu raciocínio e creio que não se deva ser o Direito do Trabalho a mudar.

      Abraço

      Curtir

  2. Sidney Mirandão disse:

    Ah, faltou dizer que, na língua francesa, a primeira ocorrência para o verbete “trabalho” (na verdade, do verbo “travailler”) tinha por único significado o trabalho de parto. Só a partir do séc. XVI é que ele passa a ter o sentido de trabalhar como o entendemos ainda hoje.

    (escandalosamente chupado de um livrinho muito bom: “Critique du droit du Travail”, de Alain Supiot, editado pela PUF em 2002. Vale a leitura)

    Curtir

  3. Guilevy disse:

    Bom assunto, Ricardo, e bem delineado neste texto. Também estou ansioso pela continuação. Alguns pitacos:

    O taylorismo-fordismo foi ultrapassado décadas atrás pelo processo histórico do capitalismo ocidental. Capitaneado pela nave mãe USA, o modelo resultante é baseado no consumo, responsável por algo em torno de 60% do PIB nos países desenvolvidos, e agora também no nosso querido Brasil.
    Com o avanço exponencial da TI (PC, WEB, Telefonia, Sistemas e Bancos de dados), globalizamos não só o Capital, a Indústria e o Comércio, mas também o consumidor e o seu consumo, com a conseqüente “commoditização” de tudo, inclusive dos postos de trabalho. Ora, um modelo baseado no consumo tem UMA palavra de ordem: Consuma! (pode vir disfarçada de “Você precisa disto!”, ou “Você vai ficar melhor se usar isto”, ou “Até seu vizinho tem…”, etc.).
    Todos consumindo, aumenta-se a demanda, que precisa de mais produtividade para atendê-la, que é atendida com tecnologia e automação, as quais diminuem os postos de trabalho, o custo de produção e o preço na ponta, o que gera mais consumo, que aumenta a demanda, que…
    Seria um círculo virtuoso se o consumo, a energia, os recursos naturais e a razão humana fossem infinitos, mas não são (Há uma frase a respeito, não sei de que autoria:-“O Universo e a imbecilidade humana são infinitos, e eu não tenho certeza absoluta do primeiro” – apesar de atribuída a Einstein, acho que não é pois ele até estimou o diâmetro do Universo).
    Tá, eu sei que você vai retrucar que a automação corta postos de trabalho e consequentemente consumidores, mas o modelo perfeito prevê que esses trabalhadores iriam para o comércio e serviços.
    Acontece que não existe consumo infinito, esgotam-se os recursos, o uso da energia está causando um aquecimento global e não há lugar para todos no comércio e serviços formais.
    Chega, já abusei do espaço.

    Curtir

    • Ricardo C. disse:

      Guilevy, este é só um simples recado, pois estou em trânsito e é só para registrar o prazer de ler o teu comentário, e dizer que concordamos em tudo, mas não tanto na questão de que o taylorismo-fordismo esteja totalmente ultrapassado. É que ainda há uma discussão sobre ele ter se tornado mais flexível e, portanto, termos no fundo um neotaylorismo, como sugere a referência da socióloga Helena Hirata. De resto, como comentei ao Sidney, no número 2 vou me dedicar mais a falar de algumas questões que ocorrem dentro das organizações, tomando como base os escritos do psiquiatra e psicanalista Christophe Dejours, especialista em psicodinâmica do trabalho.

      Ah, comentários teus têm crédito, alongue-se o quanto achar necessário.

      Abraço

      Curtir

  4. confetti* disse:

    nossa, intelectuais poderosos ! da até vergonha de abrir a boca pra falar banalidades…ah se inveja matasse eu cairia mortinha aqui, agora !
    mas enquanto nao morro, aproveito pra aprender avidamente… :-))

    rc,sidnê, calins !

    Curtir

    • Ricardo C. disse:

      Confetti*, não seja modesta. Vc pode não fazer a linha intelectual mais acadêmica, mas é intelectual e muito bem informada sobre questões globais, está sempre up to date com tudo. Se inveja matasse eu tb cairia mortinho!

      Curtir

  5. Pingback: A falta que ele me faz [2] | Agora com dazibao no meio

  6. Pingback: Porque alguém tem que ganhar dinheiro com isso | Ágora com dazibao no meio

  7. Pingback: A função psicológica do trabalho – Ágora com dazibao no meio

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s