Ninguém é substituível

Você leu direito, escrevi “substituível” em vez de “insubstituível”. É que a máxima original, idolatrada-salve-salve por todo e qualquer gestor/gerente/chefe/manda-quem-pode-obedece-quem-tem-juízo pode até fazer sentido lá nos discursos administrativos/corporativos e quantos idos você quiser, mas a mim não convence. (Verdade é que não sou um sujeito de importância reconhecida — ainda bem! —, mas isso não me impede de expressar uma opinião ou outra, não é?)

Não quero com essa frase do título afirmar que só você e mais ninguém possa realizar uma determinada tarefa na micro/pequena/média/mega/putaempresa onde você trabalha, ou que, sei lá, o amor-que-tu-lhe-tinhas não possa ficar um dia tão somente na lembrança, e que ainda por cima apareça um novo e o atropele. Afinal de contas, você é especial, mas também não exagere. Insisto, sim, numa coisa, e trata-se do óbvio: há uma singularidade que, no máximo, encontra paralelo em outras pessoas; mas paralelo é paralelo, e nunca será idêntico. Discorda? Então pense em alguém que você prezava muito, muito mesmo, e a quem perdeu, ele ou ela não voltará mais. Pensou? Agora responda: tem alguém ocupando o mesmo lugar e evocando os mesmos sentimentos que você tinha pelo anterior? Seja sincero, vá. Pode até ser muito melhor, mais intenso, interessante ou seja lá o que for, mas insisto outra vez, não há Cristo, Maomé, Buda ou o iluminado que seja para conseguir que ele substitua o primeiro.

Acredito que ainda estou longe de te convencer. Acredito é pouco, tenho quase certeza. Claro, o que digo tem cara de uma bobagem sem tamanho, e vai ver é mesmo uma dessas obviedades vocabulares que nem deveriam dar lugar a um post. Mas fazer o quê: comecei, então o melhor é tentar terminar. E para isso, vou contar uma história.

Era uma vez um renomado psiquiatra, em viagem à Argentina para receber o título honoris causa de uma universidade de lá. Nela, como em boa parte das universidades do país vizinho, a psicanálise era soberana. Não à toa que os alunos se mostrassem insatisfeitos com a escolha de alguém tão crítico da psicanálise para o lugar de homenageado, uma insatisfação que acabou nos ouvidos do psiquiatra pouco antes do seu discurso de agradecimento. Foi então que este surpreendeu a todos, contando sobre a série de afinidades do seu trabalho com o de Freud, alimentando a plateia com histórias pouco conhecidas e muito positivas a respeito do pai da psicanálise, de sorte que em poucos minutos caíra nas graças da audiência. E antes de encerrar, resolveu (ele também) contar-lhes uma história. Disse-lhes de um certo bairro judeu onde vivia um rabino muito sábio, respeitado e querido por todos. Sua sabedoria era tanta que, com toda razão, havia uma enorme preocupação sobre não existir ninguém à altura para ocupar o seu lugar tão logo fosse necessário. Mas o dia chegou, já que o velho rabino veio a falecer, e todos os membros da congregação aguardaram ansiosos por aquele que se sentaria em sua cadeira. Foi quando surgiu um jovem rabino, trazendo consigo uma nova cadeira e colocando-a ao lado da antiga, que permaneceu vazia ao longo daquele e dos próximos serviços religiosos, anos a fio. Foi quando arrematou o psiquiatra: ninguém jamais poderá sentar-se na cadeira de Freud, isso é ponto pacífico. Então peguemos as nossas cadeiras, coloquemo-las respeitosamente ao lado da dele e sigamos em frente. (E não é que ele foi aplaudido de pé ao final do discurso? Ah, esses argentinos…)

Ninguém é, pois, verdadeiramente substituível. Mas a historinha aí de cima sugere que se siga em frente, mesmo assim. E isso, de fato, a gente pode fazer.

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9 respostas para Ninguém é substituível

  1. Diego Viana disse:

    Mestre Cabral, você me fez lembrar de André Comte-Sponville, que demonstra a separação e, ao mesmo tempo, a interrelação entre as esferas moral, afetiva, econômica e legal. No caso, eu diria que mesmo nos ambientes mais empresarialmente inóspitos, uma pessoa ainda é muito mais do que um insumo. Ainda bem. Isso pode vir a ser muito útil para a humanidade no futuro…

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    • Ricardo C. disse:

      Boa referência filosófica, Diego, nada melhor do que o seu auxílio luxuoso para dar mais sustança a qualquer post. E nem que seja no discurso as organizações andam falando nas pessoas como algo mais do que insumos. Pena que sigam tb utilizando a chibata como método, além de buscar “sangue novo” boa parte das vezes apenas para livrar-se dos mais velhos, que costumam ser mais caros…

      É sempre bom te ver por aqui, viu?

      Abração

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  2. Gosto de pensar que ninguém poderá me substituir, pois meus erros são originalíssimos! Ainda aguardando uma oportunidade para um drink no mundo real. Grande abraço.

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    • Ricardo C. disse:

      Bom vê-lo por aqui, Victor. Agora cá entre nós, excelentes são os teus posts. Difícil encontrar equilíbrio, ponderação, consistência e até contundência juntos num mesmo escrito como vc consegue fazer.

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  3. Gwyn disse:

    Ricardo,

    Voce nao sabe como foi bom poder ler, justo quando retorno a casa,
    que posso ter sido esquecida por muitos, mas que nao fui substituida…. =)

    um beijo bem brasileiro ( adoraria ter a oportunidade de um suco de laranja no mundo real como no ano passado)

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    • Ricardo C. disse:

      Soube ontem, lendo o Pandorama, que vc andou por aqui. Pena que não pôde vir ao Rio, teria sido um prazer reencontrar-nos. Então combinamos pro ano que vem, né? 😉

      Beijos

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      • Gwyn disse:

        Ricardo,

        Eu ainda estou por aqui, afinal acabo de chegar. So volto para o hemisferio norte no dia 23/07. Nao vamos ao Rio dessa vez, mesmo que minha filha tenha ADORADO fazer compras ai. ;))

        agora aguardo sua visita por la (UK)…so para mudar o cenario

        um beijo grande

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