Um brinde ao tempo

Uma foto — ruim, é verdade — que mostra uma cena comum: a comemoração de um aniversário. Vê-se uma mesa com um bolo de chocolate ao centro, e cinco membros de uma mesma família sentados ao seu redor, com seus copos levantados (um deles está à direita, só se vê o seu braço). Eu disse cinco à mesa, sim, embora um deles fisicamente à 9.273,42 km de distância. (É aquela moça ao centro, o único rosto da foto que aparece de frente, sorrindo na tela de um notebook, a despeito das cinco horas de fuso horário que a separavam do parabéns pra você pesando-lhe as pálpebras.)

É a tecnologia, que tanto tem sido objeto de discussão por aqui, criando possibilidades impensáveis tempos atrás, ao menos fora dos livros e filmes de ficção científica. E uma tecnologia que fomenta relacionamentos, como no caso daquela criança da foto, à esquerda da moça sorridente — que por sinal é mãe dela. Não fosse a tecnologia, esse aniversário não teria sido comemorado de maneira tão cotidiana, tão parecida ao de anos anteriores — a mãe só se queixou de não provar o bolo de brigadeiro, um de seus favoritos —, a ponto da criança sair da mesa para buscar os presentes que ganhara e mostrá-los à moça sorridente, tendo apenas o cuidado de lembrar-se de colocá-los um pouco mais acima do olhar dela, justo diante da webcam que encimava a tela do computador.

Não se pode negar o papel central dessa mediação tecnológica. Palmas para ela. Mas é necessário prestar atenção em algumas questões que não acompanham seu manual de instruções. Uma delas eu chamo de “facilidade que mais adiante se transforma em dificuldade”. Parte dessa sentença diria respeito a uma espécie de “tecnodependência”, o não saber como proceder sem a mediação de ferramentas tecnológicas, e inclusive raciocinar da maneira como a ferramenta induz a fazer. (Exemplo besta: a ferramenta PowerPoint, uma interface nem um pouco ingênua, que “produz”, entre outras excrescências, “Professores PowerPoint” e mesmo “Alunos PowerPoint”.) Outro aspecto de que volta e meia tenho notícia diz respeito às redes sociais virtuais (orkut, facebook, myspace etc.). É que estas facilitam tremendamente o contato entre semelhantes e reforça a intimidade de uma maneira formidável. Mas como sempre tenho um mas, acredito que esse contato entre semelhantes sirva também para reforçar uma semântica familialista da amizade (Gomes e Silva Junior, 2008), 1 semântica essa que “…privilegia processos de homogeneização e supressão da alteridade, podendo configurar práticas intolerantes, de desumanização e descriminação do outro” (p. 267).

Claro que esse último exemplo tem um quê de catastrofista. Mas além de mim, há discussões sobre temas próximos que vale a pena lembrar, e não fui eu que comecei. Só por isso trago de volta as palavras de Francisco Ortega (IMS-UERJ) em seu artigoPor uma Ética e uma Política da Amizade“, que já citei em outra ocasião:

Na atualidade estamos dominados pela crença de que a proximidade constitui um valor moral, o que nos leva a desenvolver nossa individualidade na proximidade dos outros. (…) É necessária uma distância entre os indivíduos para poder ser sociável. O contato íntimo e a sociabilidade são inversamente proporcionais. Quando aumenta um, o outro diminui; quanto mais se aproximam os indivíduos, menos sociáveis, mais dolorosas e fratricidas são suas relações. (Grifos meus)

Ou seja, não bastando o declínio do espaço público e a tirania da intimidade (cf. Richard Sennett) — bem antes do advento da internet, vale dizer —, temos a companhia de certas “políticas”: a busca diuturna da felicidade e do prazer, a valorização do “tempo real”, a “moral do espetáculo”, e “a busca do novo” como forma de evitar o tédio e o fastio, entre outras. Comum a todas elas é a exigência de velocidade; e vejo outro efeito colateral, ainda por cima associado à tal semântica familialista da amizade: a superficialidade. Porque, convenhamos, com tanta pressa é impossível aprofundar muito; e com tanta obsessão pelo prazer e pela felicidade, todo e qualquer desconforto ou mínimo sofrimento é o suficiente para descartarmos o outro e buscarmos um novo semelhante, sem sequer dar tempo a que as relações se tornem o suficientemente perenes. Sim, de volta ao meu tema-fetiche: aprofundar, estender, digerir, tudo isso demanda tempo. Diria que um tempo de digestão, tempo que parece ser encarado como vilão, responsável pela obsolescência precoce de tudo, até mesmo da condição humana.

Mas é bom parar de uma vez com esse panorama sombrio e retornar à foto lá de cima, com todos brindando felizes, mais felizes ainda pela distância anulada graças à tecnologia. É uma cena deliciosa, sem dúvida. Mas como o igualmente delicioso bolo de chocolate sobre a mesa, para que o prazer perdure e não corra o risco de virar indigestão, melhor apreciá-la com moderação.

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1 Cabe ressaltar que a relação entre essa semântica familialista da amizade e as redes sociais virtuais é minha e não dos autores do artigo.

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8 respostas para Um brinde ao tempo

  1. cfagundes disse:

    Um brinde ao tempo e ao seu texto, Ric.
    Skype, videochat, é uma coisa que me espanta. Lembro de algumas ocasiões em que no encontro via Skype com muito próximos transbordava a pura euforía. Estranhamente, a praticidade dessa e outras ferramentas revolucionárias nunca fez parte da minha rotina, embora reconheça que são maravilhosas e ao meu alcance. É como se, quase que envergonhado por não utilizá-las, e sem motivo aparente, tivesse banido o tipo do contato high-tech. Ao ponto de desligar o Skype quando ligo o pc.
    Abraço.

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    • Ricardo C. disse:

      Dá para pensar muitas coisas sobre o seu comentário, Cristiano, e uma delas é o quanto essas ferramentas podem ser invasivas. Imagine quando nem mesmo o telefone existia. Como as pessoas faziam para marcar um encontro, visitar umas às outras? Seja como for, isso não acontecia a qualquer hora do dia, e muito menos diariamente. Hoje, ao sabor de um clique, mesmo que haja um aviso de ocupado, as pessoas não se sentem mal de simplesmente desconhecê-lo e entrar em contato com o sujeito que deixou aquele aviso lá. “É rapidinho”, “ele nem vai notar ou se incomodar”, são inúmeros pretextos para dar vazão aos desejos, pouco importando o desejo do outro…

      Tem horas que tudo isso complica mais do que facilita, não?

      Abraço.

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  2. cfagundes disse:

    Imagine mesmo com a palavra direta, no olho no olho, como é difícil ‘traduzir’ diariamnete pra moça como ela é amada!
    Enfim, a seriedade do contato é deveras muito muito séria.
    Óbvia, obviedade que fazemos questão de banalizar… e favorecer o desesperado estúpido contato.
    Complica.

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  3. Ricardo, você ficaria espantado se eu te dissesse que o Francisco Ortega foi meu orientador de TCC em Filosofia sobre Hannah Arendt? Éramos amigos também. Ele me apresentou o Ortega y Gasset da Filosofia do Amor. Faz tempo que não o vejo. Esperava vê-lo aí no Rio, mas não deu. Seu post é ótimo, lembrou-me a poética do espaço do Bachelard e seu conceito de “habitar” o mundo, com intimidade. Ele se opõe ao “estar jogado” do Heidegger e do Sartre com a idéia de que “moramos” no mundo, um conceito que muito deve ao ethos dos gregos. Grande abraço.

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    • Ricardo C. disse:

      Faz todo o sentido com o pouco que conversamos, Daniel, não me espanto não. Mas fico sorridente, assim como a referência ao Bachelard, de quem guardo com carinho A Água e os Sonhos, A Poética do Devaneio e A Psicanálise do Fogo. Me deu vontade de reler, agora com mais maturidade da minha parte.

      Abração

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  4. Ademonista disse:

    Olá, Ricardo. Seu texto está muito bom, continue escrevendo sobre esse tema. Eu já havia lido essa postagem há alguns dias, hoje fiz um post e linkei pra cá.

    Abraços!

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    • Ricardo C. disse:

      Ademonista, elogio de quem entende do riscado é muito bom! A questão do tempo é, para mim, muito importante. Mas sobretudo um tempo entendido como período necessário — e de preferência desejável — para que as relações — das pessoas consigo mesmas, com as demais e com o mundo — se mostrem não propriamente plenas, mas certamente o mais ricas quanto possível. Um tempo de maturação, de digestão, de experimentação, tempo esse que anda tão pouco valorizado na atualidade…

      Depois passo com calma pelo teu texto, embora não garanta ter muito o que dizer, pois a minha base filosófica infelizmente é bem mais rala do que deveria.

      Abraços pra você também!

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  5. Pingback: a fragilidade das nossas expectativas sobre o tempo « Ademonista

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