(Im)pensata

Desconfio de todo aquele que alardeia a solidez de suas convicções.

Quando escrevi essa frase pela primeira vez, sua mensagem pareceu-me clara, embora as palavras escolhidas lhe dessem um não sei o quê entre solene, marcial e cafona, e talvez um outro tanto de arrogante. E se explicito algumas das impressões que tenho sobre a forma que envelopa essa sentença, é porque esse é o jeito que funciono: reflito, revejo, reviso, redireciono, remoo — e entre um re e outro, silencio. (Silêncios ora realmente silenciosos, relaxados, ora novamente reflexivos, daqueles de revolver os miolos, ciente de que boa parte desses res eu devo à idade, já não tão pouca.) É por isso que registro aqui o meu espanto quando ouço alguém começar uma argumentação qualquer dizendo:

No fundo, a questão é muito simples.

Embora acredite que cortar nós górdios seja por vezes o mais sensato e inteligente a fazer, fico intrigado com a facilidade com que alguns começam a argumentar com essa frase em destaque no parágrafo anterior. Que ousadia! é das coisas que me ocorre dizer aos meus botões. Nada contra a tentativa de, como recurso retórico em uma discussão qualquer, arvorar-se um saber maior e último. O problema torna-se sério quando o sujeito que começa a argumentar assim realmente acredita que determinada questão possa ser de fato muito simples, e mais grave ainda quando se trata de temas polêmicos, de assuntos que digam respeito ao destino de muitos, enfim, de questões que vão além de escolher com que roupa ir pro samba que você me convidou. Nessas horas, a não ser que a tal frase com que se inicia a argumentação não passe de ironia, costumo escolher entre: o enfado por perder meu tempo lendo aquilo; a incredulidade frente a seres humanos com argumentos tão arrogantes e ao mesmo tempo primários; e o constrangimento diante do papelão de se tornar pública tamanha ignorância vendida como verdade definitiva.

Mas tudo o que falei se esvai quando encontro pessoas que defendem consistente e inteligentemente as suas convicções, e ao mesmo tempo permanecem abertas ao debate e verdadeiramente interessadas nele. A algumas delas — poucas, diga-se de passagem — reservo a melhor parte da minha atenção. E se ainda por cima tenho a sorte de poder chamá-las de meu amigo, só posso agradecer, e muito, por tamanho privilégio.

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12 respostas para (Im)pensata

  1. Ademonista disse:

    Ricardo, cá estou novamente.

    Estou me tornando repetitiva (já que comentei o mesmo autor no blog d’O hermenauta, mas aí vai:

    sua frase me fez lembrar de Cioran, que, em seu Silogismos da Amargura, diz o seguinte: “Desconfie dos que dão as costas ao amor, à ambição, à sociedade. Se vingarão por haver renunciado a isso.”

    No fundo (em algum fundo) há um sentido para as nossas tentativas de argumentação, não acha? Principalmente quando o que se segue a elas é uma espécie de consideração para com as opiniões alheias. Agora imagine isso em relação à frases como a que você apontou, frases que sugerem que há algo digno de ser lido, captado, assimilado, enfim…

    Eu estava há pouco conversando com um amigo, falava que eu nunca vou ter uma “veia” poética para escrever – quanto mais em blog -, aquela característica que prende a atenção para a Filosofia. Pois bem, desta maneira, em muitas as vezes, o que posso passar é justamente o espírito de frases como “é bem simples”; por mais que o que fale mais alto não seja uma convicção violenta, mas uma tentativa de tornar o texto claro e capaz de atrair críticas, considerações, comentários, em suma, um retorno verdadeiro.

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    • Ricardo C. disse:

      Ademonista (fiquei na dúvida se é assim, junto, ou separado como vc escreveu agora, “A demonista”?), décadas atrás tive um livrinho com aforismas do Cioran, mas infelizmente o perdi. A impressão que aquelas frases ácidas, que não aliviavam ninguém, permaneceu em minha memória, apesar de não ter a menor ideia de onde foi parar o tal livro… Mas tudo isso para começar a dizer que você tem razão, muita razão. Quando nos dirigimos a outrem com a frase que for, precisamos dele. Ao menos esse sentido é claro para mim. E as frases que assinalei, reconheço, tb englobam o outro, sempre. Quis apenas fazer um contraponto entre os que querem o outro como plateia, escada, saco de pancadas (e de preferência calado), dos que expõem o que pensam e, ao mesmo tempo, se mostram disponíveis e interessados no que o outro tem a dizer, independente de serem palavras que se opõem às suas.

      Quando pensei na 2a. frase, o tipo de discussão que tinha em mente era aquele onde alguém trata de menosprezar (quando não desconhecer) o discurso do outro, como se dissesse “tudo o que você falou é besteira, pois ‘na verdade’ as coisas são bem simples”, seguido de uma saraivada de pontificações, juízos de valor, moralizações de 5a categoria, todas com ar de suprema verdade. Esse tipo de atitude é que me incomoda e que vejo com frequência na internet, “lugar” onde as pessoas muitas vezes se sentem livres para exercitar uma agressividade que em público não poderiam colocar para fora…

      Quanto à “veia poética” para a filosofia, duvido que você não a tenha. Talvez ela não esteja à altura do mínimo que você exige de si-mesma, mas para a grande maioria dos teus leitores ela estará lá, no teu próprio texto ou naquilo que você resolveu recortar sobre o que outros disseram. E disso não tenho a menor dúvida… 😉

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      • Ademonista disse:

        É “ademonista” mesmo, alguém que não acredita em demônios.

        Mas eu entendo o que você fala; de fato, é extremamente importante associar o conteúdo à forma. Apesar de eu me preocupar mais com o conteúdo, sei que há determinadas formas de explicitá-lo que devem ser evitadas.

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  2. Mas que bela declaração de respeito, amizade e admiração, prezado Ricardo! Apesar de não ter estreitas relações nem com o Alex nem com o Idelba, concordo contigo sobre a capacidade argumentativa de ambos.

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  3. Ah! E só pela sincronicidade, no editorial desta semana do OPS! (http://opensadorselvagem.org/ops/editorial/a-era-das-tarefas-compartilhadas) acabei publicando a seguinte frase:

    “A questão não tem uma resposta simples.”

    Mas não fiquei em cima do muro, não. Apenas abri espaço para elencar algumas respostas e deixei espaço aberto a outras respostas.

    Com o tempo se aprende que não se tem todas as respostas…

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    • Ricardo C. disse:

      Em tempos de certezas gritadas, parece até que ver que as coisas não são tão simples é algo vergonhoso, não? Mas faço parte do time dos que preferem as perguntas (e toda a angústia que o não saber que as acompanha possa ter), do que as respostas prontas e acabadas.

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  4. alex castro disse:

    ricardo, tb é um prazer te chamar de amigo. muito obrigado. 🙂 e obrigado tb ao rafael. 🙂

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  5. Darwinista disse:

    Olha Ricardo, na verdade a coisa é bem simples: concordo inteiramente com seu texto, e estou plenamente convicto que ele está certo.

    E me dá licença do jabazinho, mas de uma certa forma aquela tentativa de debate lá no Darwiniano sobre Mudanças Climáticas foi pra proporcionar que as vozes contrastantes se falassem. Aliás, eu curto mais fazer os posts com os argumentos que não concordo. Enriquece a gente.

    Abraço

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