Um escuro onde a gente vê

Por ocasião da 32ª Mostra Internacional de Cinema, Wim Wenders, convidado de honra da  encontro algo sobre o seu último filme (mal recebido pela crítica no penúltimo festival de Cannes) deu uma entrevista, onde disse:

Numa das cenas mais curiosas de ‘Palermo Shooting’, que conta a história de um fotógrafo em crise, Finn (o roqueiro alemão Campino), assiste-se a um diálogo do protagonista com ninguém menos do que a Morte (Dennis Hopper) fazendo uma defesa do filme 35 mm. Wenders explica o que está por trás disso: “Nos últimos 150 anos, ficamos tão acostumados culturalmente à idéia de que tirar uma foto é um ato irreversível, que acontece apenas uma vez, e é um ato no tempo, um ato de verdade. Todas estas idéias, de algo acontecendo apenas uma vez, estão indo pelo ralo com a revolução digital. A fotografia como ‘a morte em ação’, como diziam alguns filósofos, foi uma das bases do século 20 e isso desapareceu. Então, não se estranhe que o sr. Morte reclame, estamos bagunçando a condição de seu trabalho. É estranhamente engraçado. (Grifos meus)

Cinema e morte, taí uma dupla para lá de interessante. Mas não qualquer morte, nem qualquer cinema. Penso sobretudo nas versões personificadas da morte, como no caso do clássico Bergman (“O Sétimo Selo”) em que ela joga xadrez com o Cavaleiro (Max Von Sydow), uma citação obrigatória (e desgastada) sobre o assunto — e é claro que também estou curioso para ver o Dennis Hopper assumindo o posto. Sei que daria para encher páginas e páginas de filmes em que ela aparece, mas não estou aqui para desfiar saberes enciclopédicos sobre isso, até porque não os possuo. Contento-me com outras duas lembranças: um diálogo de “O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante”, do Peter Greenaway, onde Richard, o cozinheiro, diz a Georgina, a mulher do título, que (…) a comida negra é mais cara, como caviar, trufas, amoras, uvas, azeitonas — porque comer coisas negras é como consumir a morte (Martinho, 2006). E a segunda, que retoma o questão dos atores que encarnam a morte, referência de certa forma secundária na história do cinema (mesmo contando com a Palma de Ouro em Cannes, em 1980). Ela aparece em “All That Jazz“, filme um tanto quanto convencional, mas que ainda me é caro: trata-se da representação da morte por Jessica Lange. O filme é datado, reconheço. Mas Ms Lange encarnando a desalmada, além de ser uma equilibrada combinação de beleza, erotismo e finitude, é também atemporal, ainda mais porque a própria morte é o único que há de permanente. (Hmmm, já vi que hoje estou afiado nos clichês, sinal que ainda vou sapecar mais alguns.)

Bom, se o Dennis Hopper se queixa da bagunça que as novas tecnologias têm feito em relação à imagem, enfraquecendo a possibilidade desta ser um “um ato no tempo, um ato de verdade” (como diz Wenders), eu também tenho as minhas queixas. E elas dizem respeito à minha má-vontade com o lugar que as últimas transformações tecnológicas alcançaram, o que talvez não passe de reflexo da rabugice que a idade instalou em mim. Eu sei que parte dessas transformações, ao menos aquelas que dizem respeito à maneira como a morte é encarada nas sociedades ocidentais, não é nova; pelo contrário, me pré-existe.

Durante a Idade Média a morte era um fenômeno comum, costumeiro, que causava uma dor tolerável, posto que não era uma ruptura entre o aqui e o além e os ritos eram comunais. (…)

A morte transforma-se em acontecimento detestável no século XIX, pois representa uma ruptura no andamento normal da vida. As práticas funerárias são apropriadas pela família, pela medicina e pelo poder público. Desenvolve-se uma estética fúnebre em que predomina a concepção de beleza do morto (signo de ausência de sofrimento) que é a dissimulação do medo da própria morte.

O século XX traz uma transformação revolucionária da morte, que deixa de ser “tudo”, parte constituinte da vida normal e do ciclo pessoal, para se tornar “nada”, ocultada do dia-a-dia, tratada com aparente indiferença. O luto é abandonado às práticas individuais, com a finalidade de poupar a coletividade. É um luto privatizado. A neutralização dos ritos funerários e ocultação da morte fazem parte dessa incapacidade social de se lidar com ela. Isso explica ainda a transferência do ato de morrer para o hospital, aonde o doente se despersonaliza, ao mesmo tempo em que se protege a família da morte, o doente das pressões emocionais dessa família e a sociedade da publicidade da morte. Esta passa a ser uma espécie de responsabilidade técnica passível de ser controlada. Nasce o mito da amortalidade humana (versão moderna da imortalidade) e uma nova escatologia. (Oigman, 2007, p. 2248)

“Ocultação da morte”, “luto privatizado”, um controle proporcionado pela técnica que “preserva” (estas aspas são minhas) a sociedade. Aí está a evidência de como esse fenômeno me pré-existe, mas que se torna cada vez mais gritante. Por isso realmente acredito no que andei dizendo: damos crédito demais às ferramentas que inventamos e crédito de menos àquilo que está mais próximo de nós, às vezes dentro da fronteira básica que a nossa pele representa. E por favor, não se incomode muito com esse meu jeito aparentemente anacrônico, como se advogasse por uma espécie de volta à Arcádia ou mostrasse um viés saudosista e conservador. Não tenho a menor dúvida de que tecnologia é algo muito bom, e gosto demais das inúmeras facilidades que ela nos trouxe, traz e trará. Apenas observo uma coisa, pelo menos umazinha, onde a tecnologia pouca diferença faz: é que mesmo que a “roupagem” varie, nascer e morrer continuam sendo os mesmos processos desde que a nossa espécie surgiu. Pouco importa se hoje em dia o sujeito é fruto de inseminação artificial e foi gestado em útero de aluguel, ou se deixou instruções para que congelem a sua cabeça em hidrogênio líquido depois de sua morte, supondo que novas técnicas da medicina o ressuscitem. Todo sujeito nasce só, ao sair do útero, seja através da vagina ou de um corte feito com bisturi, e costuma chorar de dor quando respira pela boca por primeira vez — e mesmo que num futuro huxleyano ele venha a nascer de um útero artificial, seguirá chorando à primeira respiração. Por outro lado, se dizem que se morre de mil formas, estas se referem apenas ao processo, já que estar morto é de um jeito só, e não vale “meio”, “quase”, “semi” ou “bem”. Ah, e também se morre só.

Agora, cá entre nós, a bagunça gerada pela ideia de que a morte logo será reversível, de que as transformações e promessas tecnológicas um dia resolverão esse “problema”, mudanças essas que tanto incomodam a morte-Denis-Hooper e dificultam o seu trabalho, não chegam a eliminar o que as experiências singulares em torno da morte são capazes de nos proporcionar. Refiro-me à morte dos outros, especialmente dos próximos a nós, e também às vivências em torno da nossa própria morte, essa que vem aí, que não sabemos se avisará ou não. E digo que ainda bem, já que tais experiências teriam o potencial de funcionar como “antígenos”, permitindo que desenvolvêssemos os necessários “anti-corpos” contra a inautenticidade.

Bom, talvez amanhã eu assista o filme do Wenders. Vai ser interessante ver o Dennis Hopper encarnando a inominável. E sobre esta última, confesso: gostaria mesmo é daquela Jessica Lange batendo um papo comigo pouco antes de tudo virar breu. Uma singular conversinha mole com ela cairia muito bem numa hora dessas. Se for no escuro do cinema, ainda melhor.

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